quinta-feira, 21 de julho de 2005

Crônica de uma Existência Banal

Raul foi encontrado despedaçado pelo chão. Somente metade de seu corpo havia resistido ao tempo. Haviam 13 dias estava ali, jogado na mesma posição que havia caído, em um pátio de um lugar bucólico cercado de uma mata verde intensa e perfumada. Ninguém notou a falta de Raul, nem mesmo ele notou sua Falta. Dizem que Raul sobrevivia com R& 2,00: uma pinga "Havaianinha" e um cigarro de nome italiano. Cuidava de uma propriedade que cuidava dele. Sua tarefa era simples: tratar algumas almas animais e cuidar da casa, tarefa esta que Raul não conseguia exercer muito bem. Em seu último dia Raul cumpriu sua tarefa, alimentou seus amigos, únicos companheiros e resolveu partir. Ser era muito dificil para ele. Não-Ser foi sua escolha. Dizem que na última vez que Raul foi visto e ouvido, estava entregue a insanidade do mundo. Não suportara a abstinência ao alcool e num surto paranóico entregou-se a seus fantasmas, a dor, a solidão, ao vazio que remetia o simples ato de existir. Raul nunca existiu. Ninguém lembrou-se quem era Raul. Quem conseguia responder esta simples questão exprimia: "era um bebâdo qualquer, meio louco, meio mendigo". Seus filhos esqueceram que Raul estava vivo. Seus patrões esqueceram também. Seus amigos, se é que existiam, também. Esqueceram também que ele estava morto, pois há muito Raul havia morrido. Somente uma carcaça, cheia de marcas e uma expressão sempre gélida. Raul caiu após o surto. A cirrose estorou. E ficou ali, perto da terra onde encerraria sua mísera existência. Ainda morto, Raul serviu aos seus amigos com aquilo somente que pôde servir em toda sua existência: seu corpo.
Trilha Sonora: Radiohead "How to Disappear Completely"

Um comentário:

Cris disse...

Sinistroooo!!!
Fuja loko!!!
Agora virou lenda...rsrs...
Bjos!!!