quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Fitter Happier


Resultado de imagem para ok computerDias de ócio. Dias de perdição. O contato consigo mesmo é inevitável. Busca-se algo dentro e encontra-se o vazio. Deve haver mais, penso. Mas onde?

Onde foi que nos perdemos? A ciência iria salvar o mundo. Freud também pensou assim - arrependeu-se.

A busca por um lugar onde pudesse existir. Caber, situar-se, pertencer. Os versos de "Creep" caíram como uma bomba nos idos finais dos anos 90. Quem não é dessa geração não compreende o porque dessa música ser um hino daquela geração. "I don't belong here...".

Eu nunca pertenci a lugar algum. Não sei o que é o sentimento de ter uma origem e um referencial para onde ir. Sou o "Nowhere Man". A sociedade. Os grupos. As modas e os costumes. Nada me serviu como base identitária. Só a música. Pink Floyd e Radiohead dizem mais de mim do que qualquer livro ou teoria. Belchior e Lou Reed. Tim Maia e Kurt Cobain. Neles eu me vi, reconheci ali a mesma angústia incrustada e o horror ao lugar comum, ao establishment  e as estruturas de poder.

Eu não compreendo como a grande maioria consegue conceber uma certa normalidade, uma ordem natural das coisas. Não há! Só o caos e a brutalidade. Sim, fomos jogados nesse mundo já rodando. Não há sentido aqui e muito menos fora, no além ou outras dimensões. Elas não existem. 

"Fake plastic World". "Crushed like a bug on ground". A modernidade só foi capaz de criar isso. Ela não desenvolveu uma resposta adequada para a angústia. Criou semblantes. Simulacros. Falsos apoios vendidos como soluções mágicas. E isso não pára. 

"A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas"

Freud acertou em cheio o que seria a modernidade e ajuda indispensável das "medidas paliativas" (leia-se: drogas, sexo, consumismo, ideologias e religião). O mundo é absurdo. É surreal. Quem não vê isso pode ser feliz. Na alienação e na ignorância encontra-se a felicidade. Os poetas já haviam nos alertado.

Você vai ter uma infância bacana cheia de brinquedos e guloseimas. Vai crescer. Vai estudar, encontrar uma pessoa legal. Vai amar e casar. Ter filhos e cachorros. Um emprego estável. Almoço de domingo. Essa é a estória que nos ensinaram e quem não seguir está fadado à infelicidade. Quem não conseguir entrar nesse roteiro irá se foder. 

Independente da vida medíocre que você tem, tentando ser esse personagem preconcebido, você vai compartilhar sua pretensa vida feliz nas redes sociais e ganhar curtidas. Fotos de viagens legais. Pratos bacanas que você pode pagar. Vai se irritar com as críticas e desfazer amizades por diferenças políticas.  Vai seguir a nova dieta da moda. Vai postar tudo isso com uma selfie e uma frase de efeito de um autor conceituado que você nunca leu - e que provavelmente não é de autoria dele. Sim amiguinho, também estou nessa. 

Há saídas? Deve haver. Dentro de mim ou fora. Talvez no Outro. 


Fitter Happier - Radiohead

Em forma Mais feliz
Em forma, mais feliz, mais produtivo,
Confortável,
Sem beber demais,
Exercícios regulares na academia
(3 dias por semana)
Se relacionando melhor com seus sócios e empregados,
À vontade,
Comendo bem
(Nada de comidas de microondas e gorduras saturadas),
Um motorista mais paciente e melhor,
Um carro mais seguro
(Um bebê sorrindo no banco de trás),
Dormindo melhor
(Sem pesadelos),
Sem paranoia,
Cuidadoso com todos os animais
(Nunca lavando aranhas nos buracos das tomadas),
Mantendo contato com velhos amigos
(Desfrutar de uma bebida de vez em quando),
Frequentemente checar o crédito no banco (moral)(um buraco na parede),
Favores por favores,
Afeiçoado, mas não amando,
Ordens permanentes de caridade,
Aos domingos super-mercados "anéis viários"
(Não matar traças ou colocar água fervente em formigas),
Lavar o carro
(Também aos domingos),
Já sem medo do escuro ou das sombras do meio-dia
Nada tão ridiculamente adolescente e deseperado,
Nada tão infantil - em um ritmo melhor,
Mais devagar e calculado,
Sem chance de escapar,
Agora empregado de si mesmo,
Em causa (mas impotente),
Um membro da sociedade informado e habilitado
(pragmatismo, não idealismo),
Não vai chorar em público,
Menos chances de doenças,
Pneus que aderem no molhado
(Foto do bebê com cinto de segurança no banco traseiro),
Uma boa memória,
Ainda chora em um filme bom,
Ainda beija com saliva,
Não mais vazio e frenético como um gato amarrado a um pedaço de pau,
Que é levado à merda do inverno congelado
(A capacidade de rir de fraqueza),
Calmo,
Em forma,
Mais saudável e mais produtivo
Um porco em uma gaiola de antibióticos.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Amor e o Não-amor

Uma vida que não cabe outra vida
Ou que não permite mais outra
Talvez por tanto tempo só
Que não sabe mais reconhecer o outro

Solidão que doía e que
De tanto bater, esvaziou.
Ansiou uma vida nova
Apenas para preencher o que não se tinha

Acostumou com a dor só sua
Imaginava poder abrir uma porta
Que de tanto tempo fechada, travou
Desejo, sonho e reparação

Tentou amar quando já achava poder andar sozinha
E na agonia de querer ser amada
Não pôde amar
Pois amar é doar, não esperar ganhar

Do sonho que virou pesadelo
A constatação de que a ânsia e a solidão
fez do desejo de amor
O não-amor. Desilusão.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Minha Doce Morretes...

O fim pareceu tão natural. Era algo que nós estávamos tentando nos preparar há muito tempo. Nós sabíamos que Morretes logo ia desaparecer. Para sempre. E foi assim, como em um piscar de olhos, e Ela se foi...

Não, nossas lembranças não foram junto. Estão aqui mais vivas que nunca. Lembranças de uma infância perfeita. Sonhos que vivi por muito tempo com pessoas tão amadas e que não posso mais contar com elas. E ao mesmo tempo sei que não poderia mais ir lá sem ter elas ao meu lado.

Foi um pedaço de minha infância. Na verdade foi muito tempo de minha infância que se passou lá. Foi o inicio de minha adolescência. Foi a vida enquanto era apenas bela. E nada mais. Era o tempo de apenas vagar pelo mato, catar mexerica e conversar muito com o Vojão. Foi o tempo de apenas esperar o dia acabar, enquanto nos divertíamos muito.

Era o tempo de brincar muito. De ter cachorros o tempo todo ao nosso lado. Era a época de ir de férias e chorar na hora de voltar porque haviam passados quase 30 dias de curtição. Era a hora de largar a nossa doce liberdade e voltar a ser apenas estudantes...

O pão que assava próximo da meia-noite. As óperas, músicas rancheiras e todas as músicas que quiséssemos ouvir. Por que a Avó ouvia de tudo, e adorava que nós ficássemos com ela ouvindo música.

Eram os banhos de rio com o Kiko, Branquinho e Minhoca. Eram as conversas na plantação enquanto o Vô colhia as verduras. Eram os churrascos ao som de música gaúcha que detestávamos e que agora fazem tanta falta.

Era o Vô e a Vó esperando a gente chegar com pão fresco, churrasqueira acesa, botas de borracha para irmos à roça. Era a Tobata ligando e todos os cachorros subindo. Eram os banhos de rio. Era a doce alegria de apenas estar curtindo um fim de semana em Morretes com nossos avós...

Tudo isso faz tanta falta há tanto tempo. E eu sei que a Chácara ficou tanto tempo assim, largada, esperando um fim, um desfecho. E eu sabia que aquele tempo não ia voltar nunca mais. E que o velho sonho acabou. Mas agora que eu tenho certeza de que tudo se foi, e que nada voltará...

Bateu uma tristeza. Uma saudade absurda que nunca será vencida. De algo que eu sei que nunca irei viver de novo, nem ao menos recuperar... O sentimento que tive por tudo o que significou Morretes...

É o fim, eu sei, de toda uma época, de uma juventude. Mas suas lembranças estarão sempre aqui, em minha memória, nos sonhos juvenis que tive em Morretes. E nunca mais esquecerei tudo isso. Adeus minha doce Morretes...

A imagem pode conter: árvore, planta, atividades ao ar livre, natureza e água


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

2016: o ano que não quer acabar

Um ano que aconteceu de tudo. Estamos todos cansados, com a impressão de ter vivido tantas coisas em tão pouco tempo. O ano que não quer acabar porque parece haver a sensação que até o seu fim muitas surpresas ainda virão. 

De alguma forma senti que 2016 foi um ano histórico muito importante, seja para o bem ou para o mal. Alguns fatos e acontecimentos ocorridos irão repercutir muito ainda em um futuro próximo. Foi o ano que metade dos brasileiros descobriram a política, e acreditaram tê-la exercida plenamente, enquanto a outra metade, politizada há mais tempo, sentiu justamente o contrário: a demonstração de que nossa democracia é frágil e precária, ao ponto de ter permitido que os velhos barões voltassem ao poder de forma legal, mas não legítima. 

Foi um ano de perdas duríssimas na música. O mago Bowie, Prince, Cohen, George Michael, Sharon Jones, e Keith Emerson e Greg Lake do Emerson, Lake & Palmer. O pior é a constatação que a geração atual (e da última década) não contará com praticamente nenhum artista da envergadura dos que foram citados. 

Pessoalmente foi um ano cansativo e atribulado, mas pleno. Foi o ano que eu descobri o real sentido da palavra "pai". Aprendi mais de Psicologia Infantil do que em toda graduação e quatro anos atuando na Infância do Tribunal de Justiça.

Percebi que cuidar é muito mais do que acompanhar e tal vivência fez-me perceber o quanto é belo o desenvolvimento da criança, assim como a importância do papel que exerço ao estar tão próximo dela nesses momentos tão importantes. Sentir que a sua presença é fundamental, e que ela precisa tanto do pai nesse momento fez-me reestruturar toda minha vida e rotina em torno dela. E que ser pai não é questão de dom ou vocação. É, acima de tudo, entrega e renuncia ao desejo individual. 

No trabalho vi o número de processos aumentarem e ao mesmo tempo um reconhecimento maior de minha função no sistema jurídico, aumentando a responsabilidade. E foi o ano em que coordenei sozinho e coloquei em prática um projeto que vinha pesquisando e avaliando há alguns anos: um protocolo de atendimento interinstitucional para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. 

Foi um ano que esforcei-me em tocar todas essas atividades ao mesmo tempo. E que em alguns momentos levaram-me a pensar que não conseguiria dar conta de tudo - pelo menos com a qualidade que sempre exigi de mim mesmo - mas que novamente surpreendi-me por ter conseguido. 

Foi o primeiro ano que desejei profundamente: férias.

Trilha Sonora: "A Moon Shaped Pool" - Radiohead (melhor disco do ano!)


domingo, 23 de outubro de 2016

Vojão

Era uma manhã cinzenta. Aquela cena nunca mais sairia de minha mente. Meu avô descendo do carro. Amarelo. Seu semblante não era de dor. Resignação. Eu nunca o havia visto daquela maneira. Olhar perdido. O soldado finalmente havia batido em retirada.

Os dias iluminados de céu azul da Ucrânia haviam ficado para trás. E minha breve adolescência também. Good bye blue sky. "Os homens bons não morrem. Sobem aos céus para tornarem-se anjos". E o meu anjo se foi naquela tarde de 17 de setembro de 1999.

Ele era o modelo de homem. Meu referencial de ser humano. Era extremamente bondoso, mas ao mesmo tempo justo. Honesto e inteligente. Um tanto quanto ranzinza, e tinha um senso de humor implacável. Abriu-me as portas do mundo ao ensinar-me a ler. Valorizava o saber acima de tudo e sabia o quanto isso transformaria completamente minha vida. Foi meio pai, meio avô. Avôhai. Vojão.

O princípio da juventude havia sido brilhante e delicioso. O mundo se abria com toda sua força e esplendor. A vontade era de apenas viver intensamente, voar, navegar livre em um mar de liberdade e contemplação. Pela primeira vez sentia que podia abrir-me, sair do enclausuramento e encarar a vida de frente. E como em um golpe, ela veio logo com tudo. Seca, dura e incompreensível. Bateu forte e foi embora, levando junto os últimos sopros de inocência e serenidade. 

Os anos que se seguiram foram de escuridão. Incompreensão, revolta e dor. Mergulhado em tristeza, eu via o mundo a minha volta desaparecer e esfalecer-se. A louca felicidade juvenil deu lugar à angustia e encerramento em si mesmo. 

Eu não tinha mais referências. Procurava cegamente uma saída para o quê eu mesmo não conhecia. Apegava-me a quem meramente estendia uma mão, buscando não afundar. Não sei bem como eu sai dessa. Foi a fase mais obscura de minha vida. Foram anos tentando elaborar essa perda que até agora repercute e coloca-me a refletir sobre uma parte do passado que ainda não superei completamente. 

Passaram-se dezessete anos, e essa é a primeira vez que consigo escrever sobre o Seu João, ou melhor, sobre a sua perda. A dor é ainda grande, assim como são as doces lembranças dos anos incríveis que passei junto desse ser iluminado que participou ativamente de minha infância e adolescência, contribuindo para minha formação enquanto homem, ser humano, e agora, pai. Saudades!

Para meu anjo Vojão. Fly on little wing!

Trilha Sonora: "Little Wing" - Jimi Hendrix; "Sailing" - Rod Stewart; "Goodbye Blue Sky" e "Mother" - Pink Floyd; "My Friend of Misery" - Metallica.