quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Que Pena

É impressionante como a lembrança de fatos e coisas tão doces podem um dia se apresentarem tão amargas. A memória está sempre sendo reescrita. Alguns afetos são diretamente vinculados à lembrança, porém algumas acabam surtindo outros sentimentos com o passar do tempo.

Aqueles momentos felizes e deliciosos que vivemos em um passado próximo, e que eram guardados com zelo e carinho, agora afligem. Incomodam por que havia a ilusão de que eles seriam para sempre rememorados e reatualizados quando vivenciaríamos coisas novas. É aquele fim de tarde gostoso com a pessoa amada, tomando uma cerveja gelada, e de repente um dos dois fala: "se lembra aquela tarde que passamos na praia? Foi tão bom!". E essa frase simples surge justamente para apontar que continuamos desfrutando momentos maravilhosos assim como aquele que passamos há um bom tempo atrás. Esse fio de continuidade que apenas pessoas que conviveram muito tempo juntas podem desfrutar. E é justamente o rompimento deste fio que faz com que momentos lindos de um passado recente sejam relembrados agora com um pesar, uma sensação de que com aquela pessoa você nunca mais irá vivenciar isso. É a amarga melancolia.

O que resta é esperar que aquelas lembranças boas voltem a serem o que são, que causem aquela nostalgia boa, e não que surjam como sustos no meio daquela madrugada solitária. É tentar seguir Jorge Ben, conjugando alegria com a desilusão.

Que Pena
Jorge Ben

Ela já não gosta mais de mim
Mas eu gosto dela mesmo assim
Que pena, que pena
Ela já não é mais a minha pequena
Que pena, que pena

Pois não é fácil recuperar
Um grande amor perdido
Pois ela era uma rosa
As outras eram manjericão
Ela era uma rosa
Que mandava no meu coração
Coração, coração

Mas eu não vou chorar
Eu vou é cantar
Pois a vida continua
E eu não vou ficar sozinho
No meio da rua
Esperando que alguém me dê a mão

Trilha Sonora: Jorge Ben "Que Pena", do disco Jorge Ben (1969);

4 comentários:

Anônimo disse...

vc vai ver q td passa. e um dia desses vc vai notar que nem gosta mais dessa pessoa e q na verdade ela nem foi tao importante assim! eu juro!
ja passei por isso...
e vai ver tb q as pessoas nem sao tao especiais , a gente que fica idealizando.
Vai ver q existem outras pessoas tao ou mais interessantes.
E q na verdade aquela pessoa tb tem algo de vulgar, grosseiro, egoista, q desencanta. de longe, a gente ve melhor os defeitos, com tempo. O lado bom é q nao se sofre tanto. passa o periodo de luto. hehe...
Falo por experiencia propria. Depois te conto melhor.
N.

Psicoalcoolista disse...

Pode ser que sim. Com certeza idealizamos muito as pessoas com quem nos relacionamos, e isso é a parte mais difícil de descontruir. E a memória sempre dá um jeito de nos pregar peças. Beijos

Anônimo disse...

As vezes não é o ato de destruir o que houve de bom que o livrará da dor, nada é perfeito, nem nunca será isso é fato, mas tudo dura o necessário e só...

Psicoalcoolista disse...

Anônimo,
Concordo que destruir o que houve de bom não livra da dor. Acho que a intenção do texto não é essa. É pensar que a parte mais difícil de um luto é justamente lembrar dos momentos bons, pois eles não poderão mais ser relembrados com o mesmo sentido. E as coisas duram mesmo somente o necessário, mas há uma tendência das pessoas eternizarem as coisas e constatar que nada dura pra sempre também é duro... Enfim, um texto de quem sofreu recentemente uma perda sempre será carregado de nostalgia.