quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O peso do Eu

Há dias em que o mundo pesa. Após as horas se arrastarem continuamente surge a sensação de que se carrega muito mais que o próprio peso. 

A alma está cheia, repleta de impressões, afetos confusos e principalmente ideias absurdas. 

Ai chega-se a conclusão de que é muito difícil ser-o-que-se-é.

Ser aquilo que você projeta como ideal. O profissional capacitado. O bom marido e trabalhador. A pessoa compreensiva e sociável. O cidadão de bem que paga seus impostos. O “Eu” abrange tudo isso e muito mais. 

Há ainda – e que pode ser muito mais intensa - a pressão interna de querer realmente corresponder a esses modelos, de dar conta e, mais ainda, ser “perfeito”. 

Internamente as coisas se tornam mais complexas. Há um passado que às vezes clama por reparações. Há as expectativas futuras. Há uma cobrança de si que foge da livre consciência. 

Essa apercepção de que há algo te puxando, exigindo cada vez mais, torna-se aparente quando confrontamos nossos desejos com a realidade, e nesse embate surge a culpa, a angústia de não poder-ser-o-que-se-almeja. 

Dói, mas não se sabe por que.

Prefere anular-se a enfrentar os caminhos tortuosos que levariam ao final épico, grandioso e sublime. A mente perde-se em tantos devaneios e artifícios a fim de se suportar o não-enfrentamento do desejo e suas consequências. 

E eis que se chega à questão: por que suportar esse peso? 

Trilha Sonora: Radiohead – Amnesiac (álbum); Remy Zero – “Hermes Bird” e “Life in Rain”; Black Rebel Motorcycle Club – “Long Way Down”.  

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O Sonho da Encruzilhada


Eu estava trabalhando. Era uma sexta-feira chuvosa e um pouco fria. Fiquei um pouco invejoso de saber de duas colegas que estavam indo comprar cerveja, pois já havia acabado o expediente para elas. De repente eu estava em Morretes, na estradinha que vai para o Parque Cascatinha. Parei para perguntar qual era a mercearia mais próxima, se a do Cascatinha ou do Bonito (na realidade Bonito é uma localidade próxima à Lapa, onde faço visitas de vez em quando devido ao trabalho). O senhor informou-me que Bonito era logo ali. Segui então por esta estrada e cheguei num local cheio de pousadas, e ao lado de uma dessas iniciava uma trilha que era cercada pela mata ao lado e o chão era todo de madeira. Quando eu ia adentrar à trilha, fui acordado, já era hora de levantar-me. 

Esse sonho ocorreu em um cochilo de talvez dez minutos, entre o primeiro momento que acordei e acabei por cair no sono novamente. Foi um sonho interrompido, e devido a isso lembrei-me dele completamente ao acordar. E ele não me saiu da cabeça até agora. Aquela trilha já apareceu em outros sonhos meus. Era uma trilha muito bonita, que me despertou diversos significados e tentativas de compreendê-los.

A estradinha para o Cascatinha, lugar mágico em que passei muitos momentos inesquecíveis em minha infância e adolescência. Era por ali que íamos buscar cerveja na mercearia quando ficávamos no sítio da Vó em Morretes. Era libertador fazer aquele caminho. Por quantas vezes voltávamos à noite, numa escuridão total e aquilo era demais! Ficávamos perto do rio, bebendo, observando aquela linda paisagem. Um lugar que com a passagem do tempo se perdeu, restou apenas em minha memória. Não frequentamos mais o Cascatinha, e aquele doce tempo ficou para trás...

Mas no sonho havia uma trilha, e ela ficava em Bonito. Eu optei por ir por ali e não até o Cascatinha. Era um lugar desconhecido, mas lindo (como o próprio nome). É uma trilha nova (a do futuro) a ser descoberta e que não é mais a de Morretes (a do passado). É melancólico chegar a essa interpretação, mas significa a infância e adolescência que ficou para trás, e que deve ser superada. Há outras trilhas igualmente bonitas e que poderão me trazer diversas outras lembranças no futuro, e eu devo procurá-las e trilhá-las. E quanto àquela trilha, resta-me as doces lembranças e a certeza de que um dia fui muito feliz em caminhar por ali, com pessoas muito especiais que fizeram parte disso tudo. 

Trilha Sonora: Doves - "The Sea Song", "You Break me Gently", Snowden". 

sábado, 28 de dezembro de 2013

Balanço 2013

Eis que outro ano se passa, e eu vejo-me novamente tentando escrever sobre o "balanço" do ano. Um ano que tive pressa de acontecer. Sei que isso se deu por estar sendo uma época de transição para mim. Tentei ler os posts de fim de ano passado - os outros balanços - e ler os posts desse ano a fim de tentar alguma síntese. E nada.

O sentimento parece ser esse. E sei que foi muito mais que isso. Foi um ano de conquistas, de concretizações de antigos planos. Foi acima de tudo um ano de estabilidade, e é isso que parece estar incomodando-me. 

Se busquei tão incansavelmente essa tal "estabilidade" e agora cheguei, pergunto, e daí? - a música do Raul não sai de minha cabeça. Não que eu tenha conquistado tudo o que pretendia, longe disso. Penso justamente no sentido da música, de que nunca podemos achar que tudo esteja ganho, que o caminho chegou ao fim, pelo contrário, há muitas coisas para se buscar e isto não limita-se ao plano concreto. Lógico que com o quê eu consegui poderei estender-me e ir muito mais longe. É nisso que estou pensando, e que este ano serviu para alcançar uma base, algo estável para, a partir daí, buscar vôos mais longos.

Foi um ano de tentar cicatrizar perdas que ainda doem - e como! Mas a vivência destas perdas tornaram-me mais forte. Pude localizar no meio ao turbilhão de sentimentos e descompassos que posso enfrentá-los, e que superando-os posso assumir lugares que nunca imaginei ser capaz - de ser um referencial, um apoio vital para outras pessoas que tanto amo. 

Sei que deixei a desejar em vários pontos, e isso me entristece. Ao mesmo tempo sei de minha mania de perfeição, e nesse sentido, consegui deixá-la para trás em vários momentos. Não sei se com isso tornei-me uma pessoa melhor, mas consegui ao menos ter uma consciência mais leve. 

Tive muitos sonhos, muitos desejos que foram realizados e tantos outros que não pude alcançar. E isso deixa-me com a vontade de que nesse ano poderei melhorar, alcançar outras tantas coisas que não dependem apenas de minha condição material, mas sim, muito mais de minha vontade e principalmente de minha dedicação. Enfim, coisas que necessitarão muito mais de mim mesmo de que dos fatores externos, e isso é muito bom! Um ano que surge cheio de esperanças, e só por isso fico feliz. Um ano que seja apenas mais um de tantos outros que desejo serem assim!

Trilha Sonora: "Talking Shit About Pretty Sunset", "Blame it on the Tetons" - Modest Mouse; "Ouro de Tolo" - Raul Seixas. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

...

Eu ainda continuo buscando palavras para tentar descrever o meu sentimento agora. Um ano vai se aproximando de seu fim, e em um contexto que tudo foi diferente. Ainda procuro adiar o tradicional balanço, pois espero outros desfechos. A vida se mostra ainda incontornável em suas surpresas, sejam elas boas ou ruins. 

Busco trechos de músicas, fragmentos de textos perdidos em algum lugar do meu notebook, ou de minha mente perdida e solta em seus devaneios. Ando sonhando com coisas recentes, perdas que ainda não cicatrizaram totalmente. Ao mesmo tempo vislumbro um horizonte belo e possível, que vai de encontro aos meus planos e daquilo que sonhei. Tenho que me conformar com o passível e inadiável da vida, e ainda sim olhar para a frente e acreditar. As coisas vão indo assim, nesse ritmo meio incessante e quase incerto.

De tudo, tiro a lição de que aos poucos vou compreendendo coisas que posso nesse momento entender, e outras que em seu momento certo irão se revelar. Afinal viver é um eterno ensinamento, e, para isso, pausas e retrocessos serão necessários, assim como um tanto de fé inabalável naquilo que se acredita ser o percurso certo. E dessa forma, continuo apenas seguindo. E esperando.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

The Blower's Daughter

(Livremente inspirado em "The Blower's Daughter", música de Damien Rice)



Então é isso. Tudo acabou como começou. Uma brisa passageira, mas que me derrubou. A vida andava fácil para mim. Nada demais acontecia, porém tudo ia bem. Até você chegar.

Eu sei, eu não pude ser seu herói, nem construir seu castelo encantado. Não pude nem ser eu mesmo. Fiquei paralisado, com medo, e os meus olhos não saiam de você.

Apostei todas as minhas fichas, entreguei minha alma. Nada mais importaria, agora era tudo ou nada. Eu não conseguia tirar os olhos de você.

Minha mente se perdeu, as coisas ficaram confusas. Não acreditei que a história seria tão curta e que seus sentimentos eram como o vento. Desculpe, eu apenas quis fugir. Aquilo tudo seria demais para mim. E eu não seria digno de seu amor.

O tempo foi cruel, e quando quis voltar não havia mais nada. Eu sei que você não disse que tudo estava perdido, mas eu senti. E eu estava, e não conseguia parar de te olhar.

Mesmo longe eu a sentia. Vi você andar por ai. Procurava seu rosto em todas as mulheres. E foi assim, como um vento que passou. Ficaram as imagens e seu cheiro. A dor. E mesmo assim, eu não consigo parar de pensar em você. Até...