Mostrando postagens com marcador dependência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dependência. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 3 de setembro de 2019

A fuga - ou uma crônica da vida atual

Quando a vida liga o seu modo automático e o passar dos dias torna-se um continuum intercalado por pequenas quebras na rotina. Aquela sensação de estar apenas indo, deixando a vida te levar, sem saber ao certo onde irá dar. 
De repente, nesses intervalos, ter a sensação de que não há outro sentido além de tocar adiante. O tempo corre, e escorre pelas mãos. A fome de viver já não é mais a mesma, embora tente-se lutar todos os dias atrás dela. Onde ela estará?

Eu sei, é preciso matar um leão por dia. Começar tudo de novo a cada momento. Buscar saídas, modos de satisfação. O peso do mundo vai maltratando aos poucos, e tenta-se fugir (ou amenizá-lo) a todo momento.

Satisfações substitutivas, breves fugas da realidade. Tempo desperdiçado no mundo (imaginário) das redes sociais. Viver a vida dos outros. Sonhar com a vida dos outros, enquanto a sua é também emulada nos filtros de fotografia e stories previamente pensados.

Pequenos momentos de diversão planejada, retratados nos posts de viagem ou naquele restaurante estrelado do Tripadvisor  ganham o status de ápice da felicidade. É a recompensa por horas dedicadas e abdicadas devido ao trabalho e a vida frenética. Ilusões (des)necessárias.

O pior é olhar tudo isso e querer achar normal. Ver algum sentido além. E não há. Onde está a essência, se a existência à precede? Esse modo de existir seria o único possível agora?

Onde antes havia subterfúgios, fugas corporais e alguma contemplação, não há mais. Onde construir um novo sentido? A trilha sonora continua tocando, quase sempre presa ao passado. As vezes lutando para resignificar o agora.

Tempos sombrios. O mundo explode inflado pela irracionalidade e o culto à bestialidade. Nunca a ignorância ocupou tão bem um lugar de defesa frente ao absurdo. Acreditar em tudo o que se quer acreditar, menos no real.

As pessoas estão deprimidas por não conseguir (ou querer) sentir. Aí só resta fugir.

Trilha Sonora: 'Without You I'm Nothing (Álbum)" - Placebo.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Fitter Happier


Resultado de imagem para ok computerDias de ócio. Dias de perdição. O contato consigo mesmo é inevitável. Busca-se algo dentro e encontra-se o vazio. Deve haver mais, penso. Mas onde?

Onde foi que nos perdemos? A ciência iria salvar o mundo. Freud também pensou assim - arrependeu-se.

A busca por um lugar onde pudesse existir. Caber, situar-se, pertencer. Os versos de "Creep" caíram como uma bomba nos idos finais dos anos 90. Quem não é dessa geração não compreende o porque dessa música ser um hino daquela geração. "I don't belong here...".

Eu nunca pertenci a lugar algum. Não sei o que é o sentimento de ter uma origem e um referencial para onde ir. Sou o "Nowhere Man". A sociedade. Os grupos. As modas e os costumes. Nada me serviu como base identitária. Só a música. Pink Floyd e Radiohead dizem mais de mim do que qualquer livro ou teoria. Belchior e Lou Reed. Tim Maia e Kurt Cobain. Neles eu me vi, reconheci ali a mesma angústia incrustada e o horror ao lugar comum, ao establishment  e as estruturas de poder.

Eu não compreendo como a grande maioria consegue conceber uma certa normalidade, uma ordem natural das coisas. Não há! Só o caos e a brutalidade. Sim, fomos jogados nesse mundo já rodando. Não há sentido aqui e muito menos fora, no além ou outras dimensões. Elas não existem. 

"Fake plastic World". "Crushed like a bug on ground". A modernidade só foi capaz de criar isso. Ela não desenvolveu uma resposta adequada para a angústia. Criou semblantes. Simulacros. Falsos apoios vendidos como soluções mágicas. E isso não pára. 

"A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas". 

Freud acertou em cheio o que seria a modernidade e ajuda indispensável das "medidas paliativas" (leia-se: drogas, sexo, consumismo, ideologias e religião). O mundo é absurdo. É surreal. Quem não vê isso pode ser feliz. Na alienação e na ignorância encontra-se a felicidade. Os poetas já haviam nos alertado.

Você vai ter uma infância bacana cheia de brinquedos e guloseimas. Vai crescer. Vai estudar, encontrar uma pessoa legal. Vai amar e casar. Ter filhos e cachorros. Um emprego estável. Almoço de domingo. Essa é a estória que nos ensinaram e quem não seguir está fadado à infelicidade. Quem não conseguir entrar nesse roteiro irá se foder. 

Independente da vida medíocre que você tem, tentando ser esse personagem preconcebido, você vai compartilhar sua pretensa vida feliz nas redes sociais e ganhar curtidas. Fotos de viagens legais. Pratos bacanas que você pode pagar. Vai se irritar com as críticas e desfazer amizades por diferenças políticas.  Vai seguir a nova dieta da moda. Vai postar tudo isso com uma selfie e uma frase de efeito de um autor conceituado que você nunca leu - e que provavelmente não é de autoria dele. Sim amiguinho, também estou nessa. 

Há saídas? Deve haver. Dentro de mim ou fora. Talvez no Outro. 


Fitter Happier - Radiohead

Em forma Mais feliz
Em forma, mais feliz, mais produtivo,
Confortável,
Sem beber demais,
Exercícios regulares na academia
(3 dias por semana)
Se relacionando melhor com seus sócios e empregados,
À vontade,
Comendo bem
(Nada de comidas de microondas e gorduras saturadas),
Um motorista mais paciente e melhor,
Um carro mais seguro
(Um bebê sorrindo no banco de trás),
Dormindo melhor
(Sem pesadelos),
Sem paranoia,
Cuidadoso com todos os animais
(Nunca lavando aranhas nos buracos das tomadas),
Mantendo contato com velhos amigos
(Desfrutar de uma bebida de vez em quando),
Frequentemente checar o crédito no banco (moral)(um buraco na parede),
Favores por favores,
Afeiçoado, mas não amando,
Ordens permanentes de caridade,
Aos domingos super-mercados "anéis viários"
(Não matar traças ou colocar água fervente em formigas),
Lavar o carro
(Também aos domingos),
Já sem medo do escuro ou das sombras do meio-dia
Nada tão ridiculamente adolescente e deseperado,
Nada tão infantil - em um ritmo melhor,
Mais devagar e calculado,
Sem chance de escapar,
Agora empregado de si mesmo,
Em causa (mas impotente),
Um membro da sociedade informado e habilitado
(pragmatismo, não idealismo),
Não vai chorar em público,
Menos chances de doenças,
Pneus que aderem no molhado
(Foto do bebê com cinto de segurança no banco traseiro),
Uma boa memória,
Ainda chora em um filme bom,
Ainda beija com saliva,
Não mais vazio e frenético como um gato amarrado a um pedaço de pau,
Que é levado à merda do inverno congelado
(A capacidade de rir de fraqueza),
Calmo,
Em forma,
Mais saudável e mais produtivo
Um porco em uma gaiola de antibióticos.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Amor e o Não-amor

Uma vida que não cabe outra vida
Ou que não permite mais outra
Talvez por tanto tempo só
Que não sabe mais reconhecer o outro

Solidão que doía e que
De tanto bater, esvaziou.
Ansiou uma vida nova
Apenas para preencher o que não se tinha

Acostumou com a dor só sua
Imaginava poder abrir uma porta
Que de tanto tempo fechada, travou
Desejo, sonho e reparação

Tentou amar quando já achava poder andar sozinha
E na agonia de querer ser amada
Não pôde amar
Pois amar é doar, não esperar ganhar

Do sonho que virou pesadelo
A constatação de que a ânsia e a solidão
fez do desejo de amor
O não-amor. Desilusão.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

The Blower's Daughter

(Livremente inspirado em "The Blower's Daughter", música de Damien Rice)



Então é isso. Tudo acabou como começou. Uma brisa passageira, mas que me derrubou. A vida andava fácil para mim. Nada demais acontecia, porém tudo ia bem. Até você chegar.

Eu sei, eu não pude ser seu herói, nem construir seu castelo encantado. Não pude nem ser eu mesmo. Fiquei paralisado, com medo, e os meus olhos não saiam de você.

Apostei todas as minhas fichas, entreguei minha alma. Nada mais importaria, agora era tudo ou nada. Eu não conseguia tirar os olhos de você.

Minha mente se perdeu, as coisas ficaram confusas. Não acreditei que a história seria tão curta e que seus sentimentos eram como o vento. Desculpe, eu apenas quis fugir. Aquilo tudo seria demais para mim. E eu não seria digno de seu amor.

O tempo foi cruel, e quando quis voltar não havia mais nada. Eu sei que você não disse que tudo estava perdido, mas eu senti. E eu estava, e não conseguia parar de te olhar.

Mesmo longe eu a sentia. Vi você andar por ai. Procurava seu rosto em todas as mulheres. E foi assim, como um vento que passou. Ficaram as imagens e seu cheiro. A dor. E mesmo assim, eu não consigo parar de pensar em você. Até...



domingo, 3 de fevereiro de 2013

[Conto] A paixão-droga

Não consigo descrever o que senti naquele momento. Foi uma chance, apenas uma. E fugi. Talvez isso já tenha começado da primeira vez que a vi sentada naquele sofá. As pernas dobradas, cabelos longos e soltos, um olhar lânguido e sorriso dissimulado. Pareceu uma cena de filme: eu entrando, meio que perdido sem ter onde ir, esperando encontrar algum conhecido para sentir-me mais familiarizado com o ambiente, e dou de cara com toda aquela beleza esparramada pelo sofá. Dei um “oi” tímido, quase que as palavras não saem da minha boca. Ela voltou o olhar para mim e retribuiu com um “olá” firme e um sorriso que encheu a sala. Tremi, suei frio. E agora?

Fiz de  conta que procurava alguém que não achei e sai da sala. Demorei uns dez minutos para recompor-me e entender minha atitude. Depois daquele “encontro” relâmpago ela tornou-se meu amor platônico, minha “musa imaginária”. Nunca interpretei aquele “oi” sexy como algo concreto. Para minha ingenuidade juvenil ela era assim, sempre simpática com todos. Muito tempo depois pude compreender que ali havia uma brecha e que meu “platonismo” poderia tornar-se algo real. Porém emocionalmente eu era muito imaturo. Era alguém incapaz de acreditar que uma garota como aquela iria querer alguém como eu. Tinha uma autoimagem degenerativa e muito deturpada. Resultado de uma série de perdas e fracassos que minaram minha autoestima.

Mas eis que um dia, quase um ano após essa primeira vez em que nos esbarramos, encontro minha musa em uma festa. Ela já de cabelos mais curtos e um visual “cult”. Por que além de linda e sexy ela era uma intelectual. O que fazia com que eu tremesse mais ainda perto de sua presença. Toda minha inteligência e saber acadêmico – que talvez fosse minha maior qualidade – sumiam perto dela. Porém aquele dia tudo foi diferente.

 Quando chegamos, eu mais meus amigos junkies (só andava com as piores espécies), a festa estava um “porre” (no mau sentido). Quero dizer, todos estavam extremamente comportados e civilizados, “bebendo socialmente” e conversando como legítimos acadêmicos que receberam uma educação primorosa. Logo fomos fazendo jarras de bebidas realmente alcóolicas e distribuindo pela festa. Uma mesa de baralho foi acionada e a gritaria do Truco começou. Rock n’roll na vitrola e agora estávamos em uma legítima festa universitária. Não demorou uma hora para o ambiente virar de ponta cabeça. Todos conversando - praticamente gritando, alguns copos e pratos quebrando e aquela louca euforia juvenil. Alguém teve a ideia de fazermos um baile, e por aquelas horas, um baile no mínimo freak. Após as danças mais bizarras e as músicas mais agitadas, começou o mela-cueca. Casaizinhos colados mais se esfregando do que dançando, assim como nos bailinhos que nossos pais faziam pelos anos 70. Logo trocavam o meio do salão para os cantos e paredes mais escuras.

Eis que retiro minha musa para dançar. Para mim, na minha “cabacisse”, seria apenas uma chance de chegar perto de meu objeto de desejo, que até aquele momento existia somente em minha imaginação e sonhos. Era a “chance” de tocá-la, sentir seu calor e perfume. E foi muito mais do que minha vã imaginação poderia criar. Foram minutos mágicos, de uma intensidade inebriante. De repente tudo sumiu naquele salão. Eu não estava mais em uma festa com outras tantas pessoas bêbadas. Era eu e minha deusa flutuando em um limbo temporário. Para mim esta dança bastava, era muito mais do que eu imaginava um dia desfrutar.  Mas foi além. Quando consegui olhar em seu rosto e ver aqueles olhos amendoados fitando-me, entrei em êxtase, minha consciência sumiu e quando me dei conta do que estava acontecendo, ela beijou-me loucamente. Além de linda, sexy, inteligente, era devassa. Enlouqueci enquanto ela praticamente engolia-me num beijo ensandecido. Nossos corpos fundiram-se em pleno salão.

Depois daquela reação química explosiva, inexplicável, sentamos e conversamos muito. Sobre tudo. E cada palavra que saia daquela linda boca se tornava poesia, fascinava pela forma como se articulava, como seu pensamento era vivo e perspicaz. Havia senso crítico ali, bom humor e nenhuma vaidade. Ela era assim, não forçava ser outra coisa, parecer diferente ou impressionar. A sedução estava em seu sangue, em cada pedaço de seu corpo e em cada gesto, olhar ou ação. Ou era apenas meu deslumbramento que atingia níveis inimagináveis.

E foi ai que me perdi. Cheguei onde imaginava nunca chegar. Experimentei a droga mais potente que há em nossa civilização judaico-cristã: a paixão romântica. A paixão-droga, aquela que repentinamente te tira da realidade e proporciona prazeres intensos e voláteis, que causa uma abstinência terrível ao faltar. Por minutos é como se tudo fizesse sentido, toda a angústia e dores do mundo sumissem. Você projeta um futuro sem sofrimento só pela presença de seu objeto. Sua ausência causa terror e sua proximidade pânico. Neste caso ausência significaria rejeição. “Estávamos bêbados, e se ela não quiser mais?”. Este pensamento colocava-me em pavor. Como chegar perto novamente? O que fazer?

No outro dia minha vontade era correr, sumir, ficar longe daquela substância tão poderosa que fez meu mundo desaparecer. Fez esquecer por minutos quem eu era e o que fazia ali. Por um instante desapareceu o menino tímido e fechado, porém sem a droga, tudo voltaria novamente: a dificuldade em relacionar-se, em exprimir o que queria e sentia, a falta de iniciativa e melancolia. Eu precisaria daquelas sensações novamente para achar que eu era normal, que era extremamente confiante e sedutor. Ao lado dela eu seria um super-homem, o “cara”, e conseguiria tudo o que desejasse. Teria forças para enfrentar o mundo e todas suas adversidades. Teria planos, realizaria sonhos e caminharia sempre para algo melhor. Mas sem ela eu era nada. Triste, fechado e complacente com minhas incapacidades em realizar-se.

Era isso que assustava.  E foi isso que me levou longe dela. Fugi, pois aquela realidade era intensa demais. Era meu desejo em sua concretude extrema. Era um poder maior do que eu e minha simples existência. Retirei-me novamente para meu casulo e ali permaneci por anos culpando-me por não ter conseguido resistir à angústia e ter transformado aquele sonho colorido em uma realidade próxima e tranquila. A idealização fugia do controle. E o sentir foi real demais para mim. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Trem da História [Conto]


Onde estou? Em que mundo ou realidade paralela eu vivo – pensou Carlos enquanto tomava uma xícara de café observado o bosque que circunda sua sala de trabalho. Lembrou de uma sessão de análise em que formulou uma metáfora de que achava ser sua vida um filme que ao invés de ele ser o diretor era mero expectador. Era como se ele posiciona-se fora de si e visse as coisas acontecerem quase sem ter controle. E à essa ideia chegou após constatar que perdera muitas oportunidades na vida apenas por não percebê-las, negando sua realidade e sempre desligado com a mente vagando por longos devaneios e sonhos acordados.

Enquanto sua mente perdia-se na criação destas estórias fictícias, a vida concreta acontecia bem em frente aos seus olhos e boa parte disso ele perdia, ausentava-se ou mesmo negava. Assim não aceitou um emprego por achar que não era bem o que ele imaginava, que poderia esperar por uma vaga que correspondesse exatamente o que sonhara, e assim viu um colega seu assumir a vaga e meses depois ser transferido para Florianópolis, como diretor.

Teve a vez em que estava numa crise terrível no seu namoro com Sabrina. Esta queria abandoná-lo, mas não tinha coragem. Ao invés de terminar o relacionamento, Sabrina o enrolava, dava desculpas para não vê-lo e fingia tudo estar bem. Enquanto isso Carlos foi deprimindo-se, buscando alívio no álcool e internet. Em uma das noites de bebedeira em frente ao computador conheceu Larissa, que estava solteira e apaixonou-se por Carlos. Este ficou com o dilema entre tentar reerguer o namoro capenga ou arriscar uma nova aventura. Por sua lógica fantasiosa e medrosa preferiu continuar aquela relação insatisfatória, mas confortável. Teve medo de perder Sabrina e ao mesmo tempo não dar certo com Larissa. Ficou com o álcool, pois logo Larissa caiu fora ao ver que ele não daria um passo a mais e não a chamaria para um encontro.

Era um medo do novo, de arriscar-se em busca de outras saídas e uma aceitação quase cega de que tudo aquilo que acreditava ser seu destino. “Era para ser assim e pronto”. “Larissa seria um sonho de mulher caso não houvesse Sabrina”. “Aquele emprego seria ótimo se eu já não estivesse empregado agora” – era assim que ele pensava naquela época.

Passado algum tempo, ao constatar que perdera algo que poderia ser muito recompensador, angustiava-se em diversos pensamentos culposos,  imaginando como teria sido. Ou como seria se estivesse vivendo outra vida agora, como por exemplo, com um emprego legal, uma mulher que lhe desse atenção e fosse maravilhosa. E quando olhava o que tinha, um emprego medíocre mas garantido e uma falsa namorada mas que não o abandonava, achava que era o que podia ter, que deveria aceitar sua realidade ao invés de ficar criando estórias fantasiosas e idealizadas.  

Era uma constante luta entre sua realidade mesquinha e constante e seus sonhos loucos e idealizados. Ele se imaginava com aquela gata estagiária do setor de compras, mas no dia-a-dia mal a encarava para cumprimenta-la. Achava que pelo fato do gerente ter saído com ela não daria bola para um mero assistente.  Mas nunca tentou uma investida para confirmar se isso era verdade.

Na real era muito mais fácil sonhar e criar estórias maravilhosas em sua mente do que tentar procurar soluções concretas e reais. Com certeza a realidade seria bem diferente de sua imaginação e as coisas não teriam um andamento e fim como ele havia fantasiado. Poderia ser bom, ruim ou nada. Mas seria real. Melhor ou pior, teria uma existência verdadeira ao invés de serem apenas estórias irreais que além de só existirem em sua cabeça apenas serviam para desviá-lo da realidade que acontecia irredutível à sua frente e que ele quase que inconscientemente não a via.

“Quantas vezes você perdeu o “Trem da História”Carlos?” – perguntou sua analista certo dia. “Muitas vezes, e em quase todas eu ainda vi o trem saindo da estação, Doutora” – respondeu abismado e completamente confuso. 

Trilha Sonora: "Vida Que Não Pára" - Odair José. 

sábado, 15 de setembro de 2012

Recaída

Jonas acordara angustiado. Não sabia dizer porque. Fora tomado por um sentimento nostalgico, algo que há muito tempo não sentia mas que a ele era muito familiar: perdição. Era assim que ele chamava uma vontade de perder-se, sumir. How to disappear completely? 

Uma vontade absurda de isolar-se. Uma garrafa de conhaque, carteira de cigarros, Radiohead e seu notebook para escrever compulsivamente. Era assim que esses dias aconteciam antigamente, mas sua vida mudara muito nos últimos anos. A fase "beat" já era. Estava casado, lecionando aulas na faculdade e vivendo relativamente bem sua vidinha burguesa. Escrevia de vez em quando, agora de maneira bem mais leve que aquela pesada atmosfera de seus contos. Ele sabia que se continuasse naquela vida, apesar de render livros brilhantes, iria logo acabar-se. Após conhecer Julia, uma menina linda que realmente o amava, optou por levar uma vida "normal": casa, emprego fixo, cachorro, churrasco com amigos, visitar a mãe de vez em quando e ir ao cinema.

Tudo estava indo bem. Mas de repente este vazio novamente. O principal de toda essa mudança foi largar o álcool. Ele é alcoolátra e só se deu por isso após ter sofrido um grave acidente depois de uma longa noite de intensa bebedeira. Estava "seco" há dois anos e sabia que qualquer descuido o levaria novamente ao buraco. Ele estava gostando da vida atual, de conseguir relacionar-se novamente, tanto afetivamente como manter amizades, de finalmente enquadrar-se em algum lugar nesta sociedade. Porém havia dias que batia uma saudade da época de loucura, de poder "fazer o que dava na telha" - como ele costumava falar. 

O problema que suas fases de loucura não duravam apenas uma noite. Eram meses até que alguma merda acontecesse e ele parava de beber, voltava a atender o celular e entrar em contato com a realidade novamente. Era nesses episódios que seus livros eram escritos e se não fosse o editor ir atrás dele em algum bar, puteiro ou praia, nada seria publicado. Era uma vida desregrada mas intensa, e era isso que sentia falta agora. Não era dos porres, das confusões e até mesmo dos livros. Era da loucura, da vida sem freio, da postura foda-se-tudo-quero-viver. 

E naquela manhã estranha algo realmente mudou. Deixou um bilhete para Julia, saiu de casa com uma mochila e seu notebook. Parou no mercado em frente à rodoviária. Comprou uma garrafa de Domecq, carteira de Camel e passagem para Porto Belo.

Trilha Sonora: Álbum The Division Bell - Pink Floyd; Radiohead.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Saudades

Estou em outra cidade. Outro emprego. Outra vida. Tudo é novidade. Mas uma parte de mim encontra-se   lá, ainda em União. Ainda vejo-me dando aulas à noite, cansado após oito horas de trabalho atendendo à população. Mas feliz, rindo e brincando com os alunos(as), discutindo as mazelas sociais, refletindo sobre as questões atuais.

Cercado de jovens mentes que ainda vislumbram um futuro melhor. Corações doces que talvez ainda não foram contaminados pela dura realidade material e concreta. Em muitas aulas remetia-me ao tempo em que eu era o estudante. Via-me ali, identificando-me com a postura crítica e ao mesmo tempo muito festiva de alguns. Penso: poderiam ser meus amigos naquela época. E são.

Sinto falta agora daquela energia e vitalidade que me passavam, que permitia com que cada aula eu tivesse forças para continuar a acreditar no ensino, que eu seria capaz de ensinar algo a eles. E hoje eu vejo quem aprendeu muito com aquelas criaturas! Vejo o bem que fizeram de sentir-me jovem ainda, apesar da idade que tende a chegar!

Saudades de vocês meus alunos e alunas, da espontaneidade, da beleza de seus sorrisos. Estou feliz aqui, mas não consigo esquecer o que passei com vocês ai. Dos ensinamentos que tornaram-se para mim lições para a vida toda. Sentirei a falta de vocês, mesmo sabendo que estou aqui seguindo meu caminho, que é o que espero de vocês. Vão em busca de seus sonhos que eu estarei aqui feliz por isso. Por ver que cada um pôde fazer a sua escolha. Se consegui passar ao menos isso, esta lição, estarei feliz.

Beijos e abraços, quero muito encontrar vários de vocês por ai, pela vida, pelo lugar que eu sempre almejei prepará-los! 

Trilha Sonora: Eddie Vedder "Hard Sun".

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Luto

Quando irei acordar deste pesadelo? Que pesadelo? 
Minha vida. Não sei se quero acordar e aceitar o que aconteceu. Ainda ouço os gritos.
Ando por ai a procura de alguém. Um abraço. Ela vai aparecer. Ando. Novamente.

O que está havendo com minha memória? Por que não lembro o seu rosto? Lembro de sua mão tocando minha face. E só... mas não esqueço do buraco. Seu corpo descendo. Eu querendo atirar-me. Meu pai segurou. Aquele desgraçado. Tenho raiva dele por isso, por permitir eu viver neste pesadelo. Eu só queria o fim.

Vejo pessoas por ai. Encontro muitas mulheres. Mas por que não ela? A única que quero encontrar. Não tenho mais ninguém. Só tinha ela. Todos esses ao meu redor não são minha família. São sombras, e a única sombra que gostaria de ver, não vejo. 

Acordo em lágrimas. Gritos, flores, chuva. A cena não pára de passar. Como num videotape. Ela está lá: linda, dançando pelo salão, sorrindo para os convidados. Cortamos o bolo. As taças de champagne. A promessa de que sempre estaríamos juntos. Ela mentiu! Peraí, foi eu que a enterrei, estou lembrando agora. Sou eu o culpado! Eu a matei. Não, é mais uma cena errada.

Todos desistiram de mim. Ficou apenas minha dor. Não cabia mais ninguém. Eu, minha dor e este videotape.

Trilha Sonora: Radiohead - "Videotape"; "All I Need" (do álbum "[2007] In Rainbows")

terça-feira, 29 de junho de 2010

Co-dependência

Acabou-se tudo. Guarde essas coisas. Ele já se foi. Foram meses de agonia, de insônia, de duros sentimentos de pena. Não sei o que doía mais se era o seu corpo definhando ou minha alma sendo consumida. Sua dependência já não era física, era existencial. Ele entregava-se à morte ao mesmo tempo que me arrastava junto. Seria isso necessidade ou simplesmente narcisismo? Eu não sei. Apenas que acabei adentrando nesse mundo perturbado, sem saber onde eu estava, onde larguei meu corpo e deixei minha alma prosseguir.

A cama dele fedia. Não era apenas suor e incontinências fisiológicas. Era os restos de um ser humano vivo em decomposição. Era o cheiro da angústia, a mesma que o paralisava, o deixava cada vez mais entregue à morte. Mas havia eu impedindo um ciclo natural de auto-destruição. Havia o desejo dele de que alguém cumprisse esse papel. E eu cumpri. Como ninguém. Abandonei uma existência medíocre para tentar salvar alguém a beira da morte. Ali eu poderia ser alguém, poderia representar tudo o que alguém precisa. Mas ao custo de anular-me? Reduzir meu desejo a satisfazer um outro que suplica por migalhas de amor humano? Há existência possível ai?

Para ele os últimos lampejos de vida, de humanidade, era isso que eu representava. Para mim, algo maior e mais digno que apenas me entregar a compulsão, a busca insaciável de algo que preencha o vazio que há dentro de mim. Um vazio de amor, dignidade, compreensão. Era ser alguém para alguém e não um resto.

Sei que nesse tempo me perdi. E quis isso. Quis me apagar, quis que toda minha realidade sumisse. Que meu Eu explodisse. Que meu desejo cessasse. Que minha vida desaparecesse. Mas esse lento tormento que surge a cada respiração, essa doce agonia que me invade e preenche minhas entranhas não para de pulsar. E só um vazio maior que o meu para poder aliviar. Só a desgraça maior pode me consolar. E nesse mundo de dor, mas uma dor não minha, que busquei refúgio. A dor dos outros sempre é menor, por maior que seja. E agora que ele morreu, me dê uma razão para existir. Algo para amar. Algo para me sentir uma mulher novamente.

Trilha Sonora: Portishead "Third"; "Live in Roseland".