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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Uma dose de ilusão

Hoje eu só queria uma dose de ilusão. Somente uma.
Há um ar carregado. Há essa preguiça que arrasta meu corpo.
Sono. 

Qualquer som, qualquer coisa que distraía. 
Tudo menos começar o dia. 
Voltar a si, ao redor. Por que?

Deve haver algum lugar onde tudo some.
Onde não se possa encontrar ninguém. Nem eu.
Apenas imagens e ruídos.

Se faz necessário sair. Respirar.
Abrir o que não se quer. 
Não deixar apenas calar. 

Trilha Sonora: Portishead: "Live in Rosenland" (álbum).

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O peso do Eu

Há dias em que o mundo pesa. Após as horas se arrastarem continuamente surge a sensação de que se carrega muito mais que o próprio peso. 

A alma está cheia, repleta de impressões, afetos confusos e principalmente ideias absurdas. 

Ai chega-se a conclusão de que é muito difícil ser-o-que-se-é.

Ser aquilo que você projeta como ideal. O profissional capacitado. O bom marido e trabalhador. A pessoa compreensiva e sociável. O cidadão de bem que paga seus impostos. O “Eu” abrange tudo isso e muito mais. 

Há ainda – e que pode ser muito mais intensa - a pressão interna de querer realmente corresponder a esses modelos, de dar conta e, mais ainda, ser “perfeito”. 

Internamente as coisas se tornam mais complexas. Há um passado que às vezes clama por reparações. Há as expectativas futuras. Há uma cobrança de si que foge da livre consciência. 

Essa apercepção de que há algo te puxando, exigindo cada vez mais, torna-se aparente quando confrontamos nossos desejos com a realidade, e nesse embate surge a culpa, a angústia de não poder-ser-o-que-se-almeja. 

Dói, mas não se sabe por que.

Prefere anular-se a enfrentar os caminhos tortuosos que levariam ao final épico, grandioso e sublime. A mente perde-se em tantos devaneios e artifícios a fim de se suportar o não-enfrentamento do desejo e suas consequências. 

E eis que se chega à questão: por que suportar esse peso? 

Trilha Sonora: Radiohead – Amnesiac (álbum); Remy Zero – “Hermes Bird” e “Life in Rain”; Black Rebel Motorcycle Club – “Long Way Down”.  

segunda-feira, 4 de março de 2013

[Série Psicanálise] Alma Melancólica


"The Murderess" (1906) - Edvard Munch

Trilha Sonora para este post: Can't Stop by Elbow on Grooveshark



Tem dias por mais que estejamos bem, dispostos e até alegres, somos tomados de repente por uma sombra. Podem ser sentimentos nostálgicos, certa introspecção ou apenas uma mudança repentina de humor e sensações. Às vezes é uma música que ouvimos que nos remete a um passado que já algum tempo não tomamos contato, e que talvez tenhamos tentado esquecer ou afastá-lo, mas, que mesmo assim, ele insiste em retornar. Ou um flash contendo imagens e sensações que surgem do nada em nossa consciência, deixando-nos assim, meio parados, com o pensamento distante.

Já cheguei a conclusão que existem pessoas, que como eu, tem uma “alma melancólica”, e isso muitas vezes faz muito sentido. Quando penso no mundo de hoje, com seu imediatismo, superficialidade e excesso de informação, vejo-me deslocado, como se vivesse em outro tempo. Tento adaptar-me ao tal ritmo e as diferentes configurações atuais, mas parece que sempre chega uma hora em que falho, penso comigo mesmo: “eu não sou assim, não consigo ser desse jeito”, e então sinto culpa e logo em seguida uma certa tristeza por “ter falhado”.

Quando reflito (a reflexão, outra ação que os habitantes na vida atual tentam desprezar ou ignorar) sobre o porquê desse sentimento, percebo que não há nada de errado em sentir-me assim, que a “tristeza” (seria a angústia o termo mais correto) é condicionante humana e que os tempos modernos tendem  a querer eliminá-la de qualquer forma, e sabemos, ela irá retornar, de alguna forma, talvez como sintoma ( como depressão, ansiedade, fobias e pânico, p. ex.).

Então penso que minha angústia é “sadia”, no sentido de que não quero abrir mão de um sentimento que é o que me faz humano, na medida em que ainda tento sentir e viver este mundo da forma como ele é: imperfeito e incerto, e que uma hora ou outra irei falhar, ou não conseguirei “acompanhar” o ritmo da “carruagem”, e então “cairei”, e por que não, levantarei meio “ralado” e começarei tudo de novo! É assim que as coisas são e livrar-me desta tristeza fará com que eu deixe de realmente vivenciar a complexidade que é esta experiência de existir.