Uma vida que não cabe outra vida
Ou que não permite mais outra
Talvez por tanto tempo só
Que não sabe mais reconhecer o outro
Solidão que doía e que
De tanto bater, esvaziou.
Ansiou uma vida nova
Apenas para preencher o que não se tinha
Acostumou com a dor só sua
Imaginava poder abrir uma porta
Que de tanto tempo fechada, travou
Desejo, sonho e reparação
Tentou amar quando já achava poder andar sozinha
E na agonia de querer ser amada
Não pôde amar
Pois amar é doar, não esperar ganhar
Do sonho que virou pesadelo
A constatação de que a ânsia e a solidão
fez do desejo de amor
O não-amor. Desilusão.
Eu já fui personagem. Eu já fui real. Hoje estou no caminho entre um e outro. Espaço para devaneios, reflexões, impressões subjetivas, construções meta-teóricas ou apenas uma forma de se aproximar do Real... ou de fugir dele. Literatura outsider, música e paixões.
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quarta-feira, 12 de julho de 2017
domingo, 23 de outubro de 2016
Vojão
Era uma manhã cinzenta. Aquela cena nunca mais sairia de minha mente. Meu avô descendo do carro. Amarelo. Seu semblante não era de dor. Resignação. Eu nunca o havia visto daquela maneira. Olhar perdido. O soldado finalmente havia batido em retirada.
Os dias iluminados de céu azul da Ucrânia haviam ficado para trás. E minha breve adolescência também. Good bye blue sky. "Os homens bons não morrem. Sobem aos céus para tornarem-se anjos". E o meu anjo se foi naquela tarde de 17 de setembro de 1998.
Ele era o modelo de homem. Meu referencial de ser humano. Era extremamente bondoso, mas ao mesmo tempo justo. Honesto e inteligente. Um tanto quanto ranzinza, e tinha um senso de humor implacável. Abriu-me as portas do mundo ao ensinar-me a ler. Valorizava o saber acima de tudo e sabia o quanto isso transformaria completamente minha vida. Foi meio pai, meio avô. Avôhai. Vojão.
O princípio da juventude havia sido brilhante e delicioso. O mundo se abria com toda sua força e esplendor. A vontade era de apenas viver intensamente, voar, navegar livre em um mar de liberdade e contemplação. Pela primeira vez sentia que podia abrir-me, sair do enclausuramento e encarar a vida de frente. E como em um golpe, ela veio logo com tudo. Seca, dura e incompreensível. Bateu forte e foi embora, levando junto os últimos sopros de inocência e serenidade.
Os anos que se seguiram foram de escuridão. Incompreensão, revolta e dor. Mergulhado em tristeza, eu via o mundo a minha volta desaparecer e esfalecer-se. A louca felicidade juvenil deu lugar à angustia e encerramento em si mesmo.
Eu não tinha mais referências. Procurava cegamente uma saída para o quê eu mesmo não conhecia. Apegava-me a quem meramente estendia uma mão, buscando não afundar. Não sei bem como eu sai dessa. Foi a fase mais obscura de minha vida. Foram anos tentando elaborar essa perda que até agora repercute e coloca-me a refletir sobre uma parte do passado que ainda não superei completamente.
Passaram-se dezessete anos, e essa é a primeira vez que consigo escrever sobre o Seu João, ou melhor, sobre a sua perda. A dor é ainda grande, assim como são as doces lembranças dos anos incríveis que passei junto desse ser iluminado que participou ativamente de minha infância e adolescência, contribuindo para minha formação enquanto homem, ser humano, e agora, pai. Saudades!
Trilha Sonora: "Little Wing" - Jimi Hendrix; "Sailing" - Rod Stewart; "Goodbye Blue Sky" e "Mother" - Pink Floyd; "My Friend of Misery" - Metallica.
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Vojão
Era uma manhã cinzenta. Aquela cena nunca mais sairia de minha mente. Meu avô descendo do carro. Amarelo. Seu semblante não era de dor. Resignação. Eu nunca o havia visto daquela maneira. Olhar perdido. O soldado finalmente havia batido em retirada.
Os dias iluminados de céu azul da Ucrânia haviam ficado para trás. E minha breve adolescência também. Good bye blue sky. "Os homens bons não morrem. Sobem aos céus para tornarem-se anjos". E o meu anjo se foi naquela tarde de 17 de setembro de 1999.
Ele era o modelo de homem. Meu referencial de ser humano. Era extremamente bondoso, mas ao mesmo tempo justo. Honesto e inteligente. Um tanto quanto ranzinza, e tinha um senso de humor implacável. Abriu-me as portas do mundo ao ensinar-me a ler. Valorizava o saber acima de tudo e sabia o quanto isso transformaria completamente minha vida. Foi meio pai, meio avô. Avôhai. Vojão.
O princípio da juventude havia sido brilhante e delicioso. O mundo se abria com toda sua força e esplendor. A vontade era de apenas viver intensamente, voar, navegar livre em um mar de liberdade e contemplação. Pela primeira vez sentia que podia abrir-me, sair do enclausuramento e encarar a vida de frente. E como em um golpe, ela veio logo com tudo. Seca, dura e incompreensível. Bateu forte e foi embora, levando junto os últimos sopros de inocência e serenidade.
Os anos que se seguiram foram de escuridão. Incompreensão, revolta e dor. Mergulhado em tristeza, eu via o mundo a minha volta desaparecer e esfalecer-se. A louca felicidade juvenil deu lugar à angustia e encerramento em si mesmo.
Eu não tinha mais referências. Procurava cegamente uma saída para o quê eu mesmo não conhecia. Apegava-me a quem meramente estendia uma mão, buscando não afundar. Não sei bem como eu sai dessa. Foi a fase mais obscura de minha vida. Foram anos tentando elaborar essa perda que até agora repercute e coloca-me a refletir sobre uma parte do passado que ainda não superei completamente.
Passaram-se dezessete anos, e essa é a primeira vez que consigo escrever sobre o Seu João, ou melhor, sobre a sua perda. A dor é ainda grande, assim como são as doces lembranças dos anos incríveis que passei junto desse ser iluminado que participou ativamente de minha infância e adolescência, contribuindo para minha formação enquanto homem, ser humano, e agora, pai. Saudades!
Trilha Sonora: "Little Wing" - Jimi Hendrix; "Sailing" - Rod Stewart; "Goodbye Blue Sky" e "Mother" - Pink Floyd; "My Friend of Misery" - Metallica.
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
O peso do Eu
Há dias em que o mundo pesa. Após as horas se arrastarem continuamente surge a sensação de que se carrega muito mais que o próprio peso.
A alma está cheia, repleta de impressões, afetos confusos e principalmente ideias absurdas.
Ai chega-se a conclusão de que é muito difícil ser-o-que-se-é.
Ser aquilo que você projeta como ideal. O profissional capacitado. O bom marido e trabalhador. A pessoa compreensiva e sociável. O cidadão de bem que paga seus impostos. O “Eu” abrange tudo isso e muito mais.
Há ainda – e que pode ser muito mais intensa - a pressão interna de querer realmente corresponder a esses modelos, de dar conta e, mais ainda, ser “perfeito”.
Internamente as coisas se tornam mais complexas. Há um passado que às vezes clama por reparações. Há as expectativas futuras. Há uma cobrança de si que foge da livre consciência.
Essa apercepção de que há algo te puxando, exigindo cada vez mais, torna-se aparente quando confrontamos nossos desejos com a realidade, e nesse embate surge a culpa, a angústia de não poder-ser-o-que-se-almeja.
Dói, mas não se sabe por que.
Prefere anular-se a enfrentar os caminhos tortuosos que levariam ao final épico, grandioso e sublime. A mente perde-se em tantos devaneios e artifícios a fim de se suportar o não-enfrentamento do desejo e suas consequências.
E eis que se chega à questão: por que suportar esse peso?
Trilha Sonora: Radiohead – Amnesiac (álbum); Remy Zero – “Hermes Bird” e “Life in Rain”; Black Rebel Motorcycle Club – “Long Way Down”.
quinta-feira, 21 de março de 2013
[Conto] A Woman Left Lonely Again
Trilha Sonora para este post:
Ela partiu sozinha novamente. Acordou de sonhos horríveis e decidiu apenas viajar. A realidade estava a torturando demais. Em meio a um delírio teve a ideia de ir a Foz. Sempre sonhara conhecer as Cataratas. Desde que o pai a deixara na Rodoviária de Paranaguá, aos sete.
Foram tantas coisas nestes anos. Foi a Mãe adoecendo e caindo aos seus braços. Pedro que nunca mais viu. Como será que ele está? Grande? Bonito?
O que é minha vida? No que se transformou?
Lembrou de quando era uma garotinha e a última imagem do Pai, fumando um cigarro enquanto prendia o gado. Eram tão felizes. Sua Mãe não. Ao chegar na cidade veio a perdição. Promessas e encantos, jovens e velhos. Tudo era novidade. A Mãe cada vez mais infeliz. O Pai e o Bar.
Perambulando pelas ruas conheceu tudo. O Inferno e o Céu estavam ali, tão próximos e fugazes. João foi o primeiro. Depois veio Francisco, o Velho. E Papai, onde estava?
Foi a primeira vez que partiu, e o seu coração junto. Queria a vida, os infortúnios e a felicidade. Podia ser a dor, mas era a liberdade, acima de tudo, o que buscava.
Andou e andou por ai. Rodou os tantos cantos deste país. Conheceu Maria e também a Solidão. Parou no Hospício, por três anos, e ali desconstruiu tudo. Achou seu Pai, seus Fantasmas e o Diabo. Saiu. Viajou, novamente, demais.
E agora, indo novamente, onde dará?
Trilha Sonora: "Jukebox", álbum - Cat Power. "Woman left lonely" - Janis Joplin.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Breathe (respire)
Uma Guerreira
Foi uma longa madrugada ao seu lado. Pena ter sido nessas condições. Eu havia pedido para você viver mais. Agora percebo que era apenas egoísmo meu. Foram 45 dias de agonia, de dor, expectativas descontroladas. E então você pode finalmente respirar...
Foram com estes versos da bela música do Pink Floyd que eu acordei (acordei? será que consegui dormir?) hoje pela manhã. Eram 7 horas em ponto, quando ligo o rádio e tocava esta que é uma de minhas músicas preferidas, uma das mais lindas que já ouvi. Era algum prenúncio? Será que indicava que naquela hora você estava realmente indo? Ao som do Pink Floyd vó?
Aquelas máquinas ligadas à você. O esforço enorme para conseguir retirar um pouco, apenas o mínimo de ar. Seus suplícios para obter gotas de água... tudo isso acabou vó. Agora tudo está bem. "There is no pain, you are receding".
Nossa dor está quase insuportável. Mas vai se aliviando ao pensarmos que a sua terminou. Há meses não a reconhecíamos mais. Tanto tempo afastada de sua vida cotidiana, de suas coisas, das pessoas que ama. Tantos dias apenas lutando pelos resquícios de vida que ainda haviam. E você era incansável, enquanto nós penávamos para encarar cada visita naquele lugar inóspito.
Sentiremos muito sua falta, de sua personalidade forte, das suas tiradas, do jeito azedo e ranzinza que na verdade escondia muito amor e vida. Eu era fã e continuarei sendo do seu modo espontâneo e verdadeiro de ser, de encarar a vida dando murros nas portas que tentam se fechar, de dizer ao mundo e a todos tudo o que pensa, mesmo que isso as vezes custe inimizades e mágoas.
Vá. Apenas respire, respire o ar que agora te cerca, que nós continuaremos aqui sempre a te relembrar.
Breathe, breathe in the air.
Respire, respire o ar
Don't be afraid to care.
Não tenha medo de se preocupar
Leave but don't leave me.
Vá embora, mas não me deixe
Look around and choose your own ground.
Olhe ao redor e escolha seu próprio caminho
quarta-feira, 4 de julho de 2012
Viva
Eu poderia pedir tantas coisas a você.
Mas quero apenas uma coisa.
Para que você viva mais.
Não desse jeito, sofrendo tanto.
Viver é prazer. Quero que você viva assim: viva.
Quero te ver do jeito que sempre foi.
Meio chata, resmungona. Mas viva.
Quero te ver encher o saco. Viva.
Quero tudo de volta, como era. Viva.
Só peço isso.
Eu só quis escrever isso,
para que você viva mais.
Mas de um jeito que eu possa vê-la. Viva.
Então, apenas, por favor, viva.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
A arte de amar
Eu já amei em silêncio. Já o escancarei ao mundo dezenas de vezes. Subi montanhas e caí em precipícios atrás dele (ou do que eu pensava ser ele). Já imaginei ser apenas uma criação de minha mente fantasiosa. Quis um dia que ele não existisse, para no outro arrepender-me até o último por ter desejado isso.
Um dia apaixonei-me por uma idéia. Passei anos tentando compreender o porquê disso e tentando superar o golpe que foi constatar que ela não iria se materializar e tornar-se "real". Depois disso sobrou apenas a incredulidade.
Então ocorreu-me de constatar que não era o "amar" que eu procurava, mas sim eu buscava ser amado. Mas esta busca durou pouco, pois um dia senti ser invadido por um sentimento muito intenso de quem supostamente amava-me. Fui sugado, devorado. O que era isso? Se ser amado é isso? Então não quero amar.
Porém isso aconteceu também. Em meio ao ceticismo, ao desespero de quem não sabe esperar e sem saber o que virá fui acometido por um turbilhão de sentimentos incógnitos. Fui arremeçado a um mar desconhecido onde meu corpo lutava para não afundar. Era uma sede, uma tensão insuportável, era o desejo. Queimava-me, sufocava-me e o alívio que vinha diante do objeto amado era inebriante. Mas ao distanciar-se uma sombra cobria-me, um vazio tomava conta e a dor era insuportável. Fugi e prometi nunca mais viver isso.
Anos se passaram e as lembranças da intensidade desse sentimento não se apagavam. A culpa pela fuga - fuga de si mesmo - torturava. Por que evitar seu próprio desejo e não pagar o seu preço? A lição ficou para a prosperidade.
Hoje já não penso, não busco e nem fujo do amor. Apenas o vivo. As marcas que ficaram fortaleceram-me. A intensidade foi substituída pela extensionalidade. A busca por uma compreensão, uma racionalidade, do que é inexplicável foi substituída pela experiência e vivência livre do afeto, daquilo que não pode ser quantificável e nem controlado. Enfim, desisti de buscar a ciência do amor para viver a arte de amar.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Luto
Minha vida. Não sei se quero acordar e aceitar o que aconteceu. Ainda ouço os gritos.
Ando por ai a procura de alguém. Um abraço. Ela vai aparecer. Ando. Novamente.
O que está havendo com minha memória? Por que não lembro o seu rosto? Lembro de sua mão tocando minha face. E só... mas não esqueço do buraco. Seu corpo descendo. Eu querendo atirar-me. Meu pai segurou. Aquele desgraçado. Tenho raiva dele por isso, por permitir eu viver neste pesadelo. Eu só queria o fim.
Vejo pessoas por ai. Encontro muitas mulheres. Mas por que não ela? A única que quero encontrar. Não tenho mais ninguém. Só tinha ela. Todos esses ao meu redor não são minha família. São sombras, e a única sombra que gostaria de ver, não vejo.
Acordo em lágrimas. Gritos, flores, chuva. A cena não pára de passar. Como num videotape. Ela está lá: linda, dançando pelo salão, sorrindo para os convidados. Cortamos o bolo. As taças de champagne. A promessa de que sempre estaríamos juntos. Ela mentiu! Peraí, foi eu que a enterrei, estou lembrando agora. Sou eu o culpado! Eu a matei. Não, é mais uma cena errada.
Todos desistiram de mim. Ficou apenas minha dor. Não cabia mais ninguém. Eu, minha dor e este videotape.
Trilha Sonora: Radiohead - "Videotape"; "All I Need" (do álbum "[2007] In Rainbows")
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Little Girl Blue
"I want you to count, oh, count your fingers,
Ah, my unhappy, my unlucky
And my little, oh, girl blue.
I know you're unhappy,
Ooh ah, honey, I know,
Baby, I know, just how you feel".
"Little Girl Blue - Janis Joplin"
Ela sonhava com o amor perfeito. Tinha apenas 16. Tudo era novo e intenso. As vezes por demais. Sentia-se diferente. E embora isso seja algo que todo adolescente em algum momento já sentiu, com Flávia parecia um sentimento real demais . Não sabia explicar. Era uma apreensão estranha, uma sensação de não se encaixar a nada e de não pertencer a lugar algum. Não era apenas uma época de maturação e uma fase de transição. Era incompreensão. Total.
Suas amigas estranhavam quando sumia. Às vezes era por horas. Ficava à beira do rio, olhando fixadamente para o horizonte. Em sua mente fervilhavam idéias, sonhos e desejos. Um mundo todo a ser descoberto. Mas ao mesmo tempo tudo estagnava.
Não se dava com sua família. Os pais sempre fora. Um ou outro almoço de domingo. Suas amizades logo desistiram dela. Restava os cd's de Janis Joplin e uma garrafa de conhaque guardada debaixo da cama. Foram muitos sábados assim. O cigarro queimando entre os dedos. Estrelas a contar. Little Girl Blue...
Trilha Sonora: Janis Joplin "Little Girl Blue"; Legião Urbana "Depois das 6".
terça-feira, 29 de junho de 2010
Co-dependência
Acabou-se tudo. Guarde essas coisas. Ele já se foi. Foram meses de agonia, de insônia, de duros sentimentos de pena. Não sei o que doía mais se era o seu corpo definhando ou minha alma sendo consumida. Sua dependência já não era física, era existencial. Ele entregava-se à morte ao mesmo tempo que me arrastava junto. Seria isso necessidade ou simplesmente narcisismo? Eu não sei. Apenas que acabei adentrando nesse mundo perturbado, sem saber onde eu estava, onde larguei meu corpo e deixei minha alma prosseguir.
A cama dele fedia. Não era apenas suor e incontinências fisiológicas. Era os restos de um ser humano vivo em decomposição. Era o cheiro da angústia, a mesma que o paralisava, o deixava cada vez mais entregue à morte. Mas havia eu impedindo um ciclo natural de auto-destruição. Havia o desejo dele de que alguém cumprisse esse papel. E eu cumpri. Como ninguém. Abandonei uma existência medíocre para tentar salvar alguém a beira da morte. Ali eu poderia ser alguém, poderia representar tudo o que alguém precisa. Mas ao custo de anular-me? Reduzir meu desejo a satisfazer um outro que suplica por migalhas de amor humano? Há existência possível ai?
Para ele os últimos lampejos de vida, de humanidade, era isso que eu representava. Para mim, algo maior e mais digno que apenas me entregar a compulsão, a busca insaciável de algo que preencha o vazio que há dentro de mim. Um vazio de amor, dignidade, compreensão. Era ser alguém para alguém e não um resto.
Sei que nesse tempo me perdi. E quis isso. Quis me apagar, quis que toda minha realidade sumisse. Que meu Eu explodisse. Que meu desejo cessasse. Que minha vida desaparecesse. Mas esse lento tormento que surge a cada respiração, essa doce agonia que me invade e preenche minhas entranhas não para de pulsar. E só um vazio maior que o meu para poder aliviar. Só a desgraça maior pode me consolar. E nesse mundo de dor, mas uma dor não minha, que busquei refúgio. A dor dos outros sempre é menor, por maior que seja. E agora que ele morreu, me dê uma razão para existir. Algo para amar. Algo para me sentir uma mulher novamente.
Trilha Sonora: Portishead "Third"; "Live in Roseland".
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Anesthesia
Há um paradoxo na anestesia. Em um tratamento dentário é a infiltração de uma substância analgésica no local onde se pretende tratar. Ela é utilizada para que o paciente não sinta a dor provocada pelas brocas e outros instrumentos assustadores. Porém a sua aplicação é através de uma injeção diretamente na gengiva, causando uma "picada" horrível. A dor da picada é muito mais psicológica do que físiológica, ao ponto de haver pessoas que preferem fazer o tratamento sem anestesia - o caso de minha mãe, por exemplo.
O paradoxo é justamente esse: uma dor pequena para anular uma dor maior, mesmo assim, alguns preferem encarar a dor maior sem aditivos. Eu lembro de uma música muito curiosa do Metallica - minha banda favorita na adolescência - que era um solo de baixo com distorção e que chamava-se "Anesthesia (Pulling Teeth)". A sonoridade desta música faz referência a um tratamento dentário, e parece representar o que é subjetivamente a anestesia para o autor: algo etéreo, entorpecedor, porém perturbador.
É assim que me sinto em um tratamento dentário. A anestesia dói um pouco na picada, tudo se amortece e você não sente mais os procedimentos. Porém você não vê a hora daquilo acabar, daquele som da broca sumir e sair logo dali. É um processo que mesmo sem dor é assustador. Mas você encararia tudo sem a anestesia?
Mesmo aqueles que preferem sem anestesia, há procedimentos que não é possível sem. Não há pessoa que suporte um estímulo doloroso tão grande. E se há situações em que ainda é possível escolher com ou sem anestesia, surge a dúvida.
domingo, 21 de junho de 2009
Perdas
Talvez eu esteja a semana toda tentando me preservar. Ou esteja a semana toda tentando chorar. E eis que estou aqui me achando rídiculo novamente. Pensando sobre o absurdo da vida simples. Só queria dizer que sofri algumas perdas esta semana. E dói tanto dizer isto. Algumas são coisas simples, outras tão doloridas. Mas por que estou falando tanto em perdas? Porque talvez perdi demais. Só posso falar de algo que aconteceu agora, pouco tempo.
Perdi mais um cachorro. E isso não é pouco. Era a Magrela. Ela se foi. Sem ao menos qualquer elaboração minha. Se foi assim como chegou: uma cachorra de rua, sem alarmes, sem surpresas, apareceu, conquistou a todos. E foi. Só foi. Novamente fui eu quem encontrou. Dessa vez doeu menos, pois da última vez foi o Kiko. Doeu a dor de minha mãe. Isso doeu demais. O Kiko era o sonho de minha infância indo embora. A Magrela foi mais uma parte de minhã mãe se indo.
Estou tão triste e não é só por isso. Por tudo. Só por tudo.
Dói a minha solidão. Dói eu mesmo. E essa dor só posso eu encarar.
Trilha Sonara: Carissa's Wierd "September Come Take This Heart Away".
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