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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O Sonho da Encruzilhada


Eu estava trabalhando. Era uma sexta-feira chuvosa e um pouco fria. Fiquei um pouco invejoso de saber de duas colegas que estavam indo comprar cerveja, pois já havia acabado o expediente para elas. De repente eu estava em Morretes, na estradinha que vai para o Parque Cascatinha. Parei para perguntar qual era a mercearia mais próxima, se a do Cascatinha ou do Bonito (na realidade Bonito é uma localidade próxima à Lapa, onde faço visitas de vez em quando devido ao trabalho). O senhor informou-me que Bonito era logo ali. Segui então por esta estrada e cheguei num local cheio de pousadas, e ao lado de uma dessas iniciava uma trilha que era cercada pela mata ao lado e o chão era todo de madeira. Quando eu ia adentrar à trilha, fui acordado, já era hora de levantar-me. 

Esse sonho ocorreu em um cochilo de talvez dez minutos, entre o primeiro momento que acordei e acabei por cair no sono novamente. Foi um sonho interrompido, e devido a isso lembrei-me dele completamente ao acordar. E ele não me saiu da cabeça até agora. Aquela trilha já apareceu em outros sonhos meus. Era uma trilha muito bonita, que me despertou diversos significados e tentativas de compreendê-los.

A estradinha para o Cascatinha, lugar mágico em que passei muitos momentos inesquecíveis em minha infância e adolescência. Era por ali que íamos buscar cerveja na mercearia quando ficávamos no sítio da Vó em Morretes. Era libertador fazer aquele caminho. Por quantas vezes voltávamos à noite, numa escuridão total e aquilo era demais! Ficávamos perto do rio, bebendo, observando aquela linda paisagem. Um lugar que com a passagem do tempo se perdeu, restou apenas em minha memória. Não frequentamos mais o Cascatinha, e aquele doce tempo ficou para trás...

Mas no sonho havia uma trilha, e ela ficava em Bonito. Eu optei por ir por ali e não até o Cascatinha. Era um lugar desconhecido, mas lindo (como o próprio nome). É uma trilha nova (a do futuro) a ser descoberta e que não é mais a de Morretes (a do passado). É melancólico chegar a essa interpretação, mas significa a infância e adolescência que ficou para trás, e que deve ser superada. Há outras trilhas igualmente bonitas e que poderão me trazer diversas outras lembranças no futuro, e eu devo procurá-las e trilhá-las. E quanto àquela trilha, resta-me as doces lembranças e a certeza de que um dia fui muito feliz em caminhar por ali, com pessoas muito especiais que fizeram parte disso tudo. 

Trilha Sonora: Doves - "The Sea Song", "You Break me Gently", Snowden". 

sábado, 28 de dezembro de 2013

Balanço 2013

Eis que outro ano se passa, e eu vejo-me novamente tentando escrever sobre o "balanço" do ano. Um ano que tive pressa de acontecer. Sei que isso se deu por estar sendo uma época de transição para mim. Tentei ler os posts de fim de ano passado - os outros balanços - e ler os posts desse ano a fim de tentar alguma síntese. E nada.

O sentimento parece ser esse. E sei que foi muito mais que isso. Foi um ano de conquistas, de concretizações de antigos planos. Foi acima de tudo um ano de estabilidade, e é isso que parece estar incomodando-me. 

Se busquei tão incansavelmente essa tal "estabilidade" e agora cheguei, pergunto, e daí? - a música do Raul não sai de minha cabeça. Não que eu tenha conquistado tudo o que pretendia, longe disso. Penso justamente no sentido da música, de que nunca podemos achar que tudo esteja ganho, que o caminho chegou ao fim, pelo contrário, há muitas coisas para se buscar e isto não limita-se ao plano concreto. Lógico que com o quê eu consegui poderei estender-me e ir muito mais longe. É nisso que estou pensando, e que este ano serviu para alcançar uma base, algo estável para, a partir daí, buscar vôos mais longos.

Foi um ano de tentar cicatrizar perdas que ainda doem - e como! Mas a vivência destas perdas tornaram-me mais forte. Pude localizar no meio ao turbilhão de sentimentos e descompassos que posso enfrentá-los, e que superando-os posso assumir lugares que nunca imaginei ser capaz - de ser um referencial, um apoio vital para outras pessoas que tanto amo. 

Sei que deixei a desejar em vários pontos, e isso me entristece. Ao mesmo tempo sei de minha mania de perfeição, e nesse sentido, consegui deixá-la para trás em vários momentos. Não sei se com isso tornei-me uma pessoa melhor, mas consegui ao menos ter uma consciência mais leve. 

Tive muitos sonhos, muitos desejos que foram realizados e tantos outros que não pude alcançar. E isso deixa-me com a vontade de que nesse ano poderei melhorar, alcançar outras tantas coisas que não dependem apenas de minha condição material, mas sim, muito mais de minha vontade e principalmente de minha dedicação. Enfim, coisas que necessitarão muito mais de mim mesmo de que dos fatores externos, e isso é muito bom! Um ano que surge cheio de esperanças, e só por isso fico feliz. Um ano que seja apenas mais um de tantos outros que desejo serem assim!

Trilha Sonora: "Talking Shit About Pretty Sunset", "Blame it on the Tetons" - Modest Mouse; "Ouro de Tolo" - Raul Seixas. 

sábado, 30 de março de 2013

Páscoa

Trilha Sonora para este post:

Esta noite acordei de um sonho em que meu avô havia "retornado" à vida e ele questionava quando seria o meu casamento. Eu respondi consternado: "foi em dezembro, vô". A música do Led Zeppelin não parava de martelar em minha cabeça: "babe, babe, I'm gonna leave you". Pensei em como seria se meu avô (e agora também minha avó) estivessem ainda vivos hoje, e o quanto eu sinto falta deles nessas datas importantes.

Isso se deu em meio à Páscoa, feriado talvez o mais importante em uma família ucraniana católica. Lembrei de quantas vezes repetimos os mesmos rituais de Páscoa a cada ano, e o quanto isso era fundamental para meus avós e pais, e de como isso traz à minha memória doces lembranças quando eu era criança e meus avós ainda estavam vivos.

A Sexta-feira Santa era o dia "mais chato", pois todos faziam jejum e nós não podíamos fazer nada, era preciso guarda a sexta, fazer silêncio, e nós crianças não podíamos brincar. O pai e o vô ficavam o dia todo vendo filmes bíblicos, sempre os mesmos! E nós arranjávamos uma maneira de brincar sem fazer barulho e perturbá-los.

Sábado era bem mais legal. Os pães e carnes assando para a benção dos alimentos à tarde. O cheiro do pão da vó assando era inconfundível, e nós já ficávamos morrendo de vontade de experimentar! A noite vinha a missa mais longa do ano, e nós dávamos um jeito de "escapar" da igreja para não ficar o tempo todo lá dentro. Na volta era só alegria, a Ceia e depois ganhar os ovos de chocolate. Impossível esquecer as vezes em que a vó escondia os ovos e nós tinhamos que achá-los!

Domingo era toda a família reunida na casa do vô e da vó: churrasco, adultos bebendo e a criançada solta pela casa. De vez em quando apareciam uns familiares não sei da onde. Era a maior bagunça. E como faz falta lembrar de como era tudo isso.

Essa será a primeira páscoa sem a vó, que veio a falecer em setembro passado, e tudo já parece estar sendo diferente. Fica uma sensação de que todas essas tradições só faziam sentido com eles por perto, mas sabemos que não deve ser assim. Por isso resolvi fazer a minha própria Paska ucraniana, pois agora tenho também minha família (que por enquanto é só eu e a Hildinha!), e quero muito manter estas tradições que dizem tanto sobre  minhas origens e o que representa minha família: uma união, uma linda união que vai se mantendo, mesmo com a geração mais velha não mais existindo. E acima de tudo quero que meus filhos tenham as mesmas doces lembranças que tenho de minha infância durante a Páscoa!

Trilha Sonora: "Your time is gonna come" - Led Zeppelin
Obs.: "Babe I'm gonna leave you" ficaria muito pesado para este post!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Quanto pesa a vida?

Vagava eu durante uma madrugada em um velório. Na capela havia um memorial onde algumas urnas de pessoas cremadas permaneciam por um tempo em um espaço onde os familiares montavam uma homenagem, trazendo diversos objetos, fotos, símbolos, escudos de times, imagens de Nossa Senhora, tudo o que pudesse simbolizar quem era aquela pessoa em vida. Era bonito e emocionante também. Mas me chocou.

Eu estava ali, em pé, observando cada uma das homenagens. Eram dezenas de histórias de vida que estavam sendo contadas ali, a partir da morte. Fiquei pensando que o que estava exposto ali era o quê os familiares consideravam  ser representativo de quem eram aquelas pessoas em vida, algo que pudesse demonstrar brevemente o que faziam, o que gostavam, suas personalidades e modos de ser e existir. E poderia ser eu ali. O que colocariam para representar-me?

A que mais me impressionou foi de uma mulher de 30 anos. Minha idade. Uma foto ao lado de seu cão. Outra em que ela vestia um vestido de festa. Todas as fotografias captavam uma alegria espontânea, havia ali uma vontade de viver. Viver como eu imagino que deva ser: curtindo, brincando, buscando sorrir mesmo com as piores adversidades. Eu não tenho ideia de quem era aquela pessoa, como ela viveu e se realmente  era assim em vida, mas foi o que eu senti ao ver a homenagem que fizeram a ela.

Talvez somente quando nos deparamos com a morte, com a finitude, que conseguimos refletir sobre nossa realidade mais cotidiana, a vida mais simples e banal que simplesmente tocamos dia após dia. É essa a vida que realmente vivemos e não temos muita noção do que significa. Como os outros nos vêem? O que represento para os demais? Quem sou em vida, como me descreveria? O que eu escolheria para simbolizar-me naquele pequeno espaço de menos de um metro quadrado? Questões que embaralhavam minha cabeça durante uma madrugada triste, em que além de estar vivendo a perda de alguém fui confrontado com minha própria existência - e o risco de deixar de existir. E se fosse eu?

Estava eu vendo ali personagens que já foram vidas. Estavam talvez há pouco tempo atrás vivendo suas vidas de forma automática, sem pensar que pouco tempo depois já não existiriam mais. E realmente não conseguimos vislumbrar esta possibilidade. Se pensarmos em todos os riscos que temos de morrer neste exato momento, deixamos de viver e entramos em pânico. A urgência da vida não permite pensar em seu fim. E assim vamos tocando, totalmente certos de que o amanhã chegará. Mas não sabemos, e isso é aterrador. 

Isso faz pensar o quão frágil é nossa existência. Sublime as vezes, triste e penosa muitas vezes. Não temos noção do esforço que dispendemos para mantê-la, e muito menos de todas as formas existentes que podem tirá-la. E isso  nos aparece perfeitamente normal.

Vivemos ignorando o fato de que a qualquer momento não estaremos mais aqui, e mesmo assim insistimos em disperdiçar nosso tempo principalmente com as coisas mais fúteis e banais, deixando de lado o que realmente é importante e significativo.  A vida corre e somente quando ela falta é que pesamos sua existência.

Trilha Sonora: Devastations

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Realidades Paralelas

Eu sempre pensei viver em uma realidade paralela. Não tem nada a ver com outras dimensões metafísicas. Simplesmente sempre achei que nunca compartilhei totalmente da mesma realidade que todos em minha volta. E sei também que muito disso é devido a minha capacidade enorme de desviar a atenção e perder-me em pensamentos diversos e longíquos.

Lembro-me que esta situação era bem mais frequente no final da infância e durante boa parte de minha adolescência. Seria algo parecido com essa televisões em que é possível abrir outro canal em um pequeno frame no canto esquerdo superior da tela. Comigo acontece algo parecido. Abre este outro "canal", menor do que o canal principal, mas que desvia minha atenção, sendo que esta permanece dividida. E assim vou vivendo com a impressão de estar o tempo todo dividido entre esses dois "canais".

Não é preciso citar que logicamente o outro canal é mais interessante que a realidade que se projeta aqui. Já tratei disso muitas vezes como fuga. E é mais do que isso.

Em minha infância a realidade era quase que totalmente deixada de lado para dar espaço a fantasia. Eu vivia realmente em outros mundos. O mais importante é que era eu quem criava estes mundos. E ali eu poderia ser tudo. Já fui rei, piloto famoso, artista, revolucionário. Eram os meus devaneios. Criava enredos complexos e vivia tudo aquilo de forma intensa. Mas havia um problema: a realidade continuava a coexistir, e muitas vezes eu era convocado a assumir o "posto" novamente. Era duro. Na realidade e eu era apenas um garoto fechado, tímido, com milhões de sonhos e vontades a concretizar.

O garoto cresceu mas os devaneios continuaram. Com certeza bem mais amenos e próximos da realidade. Isso que eu relato faz parte da vida de todos, em menor ou maior grau. Estamos o tempo todo criando fantasias, estórias, sonhos, projetando coisas. Isso por si só é bom. Porém muitas vezes nos deixamos levar por um enredo desses, que criamos sem saber como, e nossa realidade se mistura com isso.

De modo geral nunca experenciamos a realidade como ela é, crua, viva, sem subterfúgios ou maneiras de encará-la. Usamos diversos instrumentos para lidar com ela: fantasias, mentiras, bebidas, e muita procrastinação. Criamos histórias e passamos a vivê-las. Distorcemos fatos, os misturamos com lembranças falhas e com muitas expectativas. 

E nessa construção contínua muitas vezes deixamos o que se passa na vida diária de lado. Deixamos de perceber coisas que talvez realmente importam. Coisas que podem ser doloridas, mas muitas vezes necessárias. É muito mais fácil e confortável viver em sonhos em que conservamos apenas as coisas boas, onde tudo está dado, pronto ali, só deixar-se levar e deleitar-se. A realidade não. É cheia de baixos, dificuldades, barreiras, empecilhos. Precisamos nos esforçar, brigar, lutar, perder e aceitar diversas coisas que não gostamos. É a vida real, dura, intransigente e mutante. E há muito prazer nela, porém é preciso ir atrás e não apenas fechar os olhos e curtir.

E parece que é só a realidade começar a aparecer um pouco intensa demais que já vejo aquela telinha pequena pipocar no canto esquerdo da tela...

terça-feira, 22 de maio de 2012

Porto Seguro

"It always feels like I'm waiting for something"
(Waiting for Something - Nada Surf)

Eu já fui um nowhere man. Já houve épocas em que não me achava em nada. Sentia-me dissolvido em um mundo onde nada fazia sentido. Perdido, estagnado, não tendo onde segurar-me.

Esse tempo passou. E passou rápido. Muitas coisas aconteceram. Construi muitas coisas. Conquistei espaços que hoje são caros. Atirei-me ao devir em busca de algo. Acreditei sempre haver uma saída, basta buscá-la. Em algum lugar há de existir um porto seguro, onde eu possa estabelecer-me momentâneamente e poder observar o horizonte, buscar rotas certas. E foi assim que aconteceu.

A vida na estrada ensinou-me muitas coisas. Que rodar é essencial, mas que parar na hora certa é decisivo. Assim como estabelecer um ponto fixo em que se possa voltar sempre e, à partir de ali, olhar o mundo a sua volta e escolher novas rotas. 

sábado, 17 de março de 2012

I know I could

"I feel stained and I'm in pieces
In my mouth the sad taste of the past I had
A thousand wasted kisses
But another glass
And a cigarette
Just anything
To help forget the things that
Every day I still find missing"
(Drugstore "I know I could")




Sábado a tarde. Outono de 2007. Após uma noite de bebedeira, um jovem deita-se em sua cama e passa a projetar seu futuro. Imagina-se em um outro lugar. Já não há mais dor. Está aparentemente feliz. Já não depende de ninguém. As amarras foram cortadas. O clima ainda é frio, mas há calor por onde anda. Humano? A solidão que tanto o apavora está longe dali. Vê possibilidades, caminhos, escolhas a serem feitas. A tristeza ainda existe, mas de maneira amena, como deveria ser. Ele se vê realmente vivendo e é isso que importa. Não interessa se é uma vida plena ou uma felicidade eterna. É uma vida que pode ser vivida. Construída com seus percalços e nuances. Não é fuga. Não é isolamento. É o começo de tudo. E o jovem respira aliviado, mesmo sabendo ser apenas um sonho projetado para o futuro, pois acredita que aquele sonho é o primeiro passo para   viver tudo aquilo.

Trilha Sonora: Drugstore - "I know I could" e "Never come down", do álbum "White Magic for Lovers".