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terça-feira, 3 de setembro de 2019

A fuga - ou uma crônica da vida atual

Quando a vida liga o seu modo automático e o passar dos dias torna-se um continuum intercalado por pequenas quebras na rotina. Aquela sensação de estar apenas indo, deixando a vida te levar, sem saber ao certo onde irá dar. 
De repente, nesses intervalos, ter a sensação de que não há outro sentido além de tocar adiante. O tempo corre, e escorre pelas mãos. A fome de viver já não é mais a mesma, embora tente-se lutar todos os dias atrás dela. Onde ela estará?

Eu sei, é preciso matar um leão por dia. Começar tudo de novo a cada momento. Buscar saídas, modos de satisfação. O peso do mundo vai maltratando aos poucos, e tenta-se fugir (ou amenizá-lo) a todo momento.

Satisfações substitutivas, breves fugas da realidade. Tempo desperdiçado no mundo (imaginário) das redes sociais. Viver a vida dos outros. Sonhar com a vida dos outros, enquanto a sua é também emulada nos filtros de fotografia e stories previamente pensados.

Pequenos momentos de diversão planejada, retratados nos posts de viagem ou naquele restaurante estrelado do Tripadvisor  ganham o status de ápice da felicidade. É a recompensa por horas dedicadas e abdicadas devido ao trabalho e a vida frenética. Ilusões (des)necessárias.

O pior é olhar tudo isso e querer achar normal. Ver algum sentido além. E não há. Onde está a essência, se a existência à precede? Esse modo de existir seria o único possível agora?

Onde antes havia subterfúgios, fugas corporais e alguma contemplação, não há mais. Onde construir um novo sentido? A trilha sonora continua tocando, quase sempre presa ao passado. As vezes lutando para resignificar o agora.

Tempos sombrios. O mundo explode inflado pela irracionalidade e o culto à bestialidade. Nunca a ignorância ocupou tão bem um lugar de defesa frente ao absurdo. Acreditar em tudo o que se quer acreditar, menos no real.

As pessoas estão deprimidas por não conseguir (ou querer) sentir. Aí só resta fugir.

Trilha Sonora: 'Without You I'm Nothing (Álbum)" - Placebo.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

A Casinha Verde

Para Zenilda Felsinger,


Foi lá naquela casinha verde, situada no Jardim Bela Vista, em Porto União-SC, que eu conheci a Dona Ida. Eu lembro bem até hoje. Eu trazia a Hilda de volta para casa após nossos primeiros encontros. Desde a primeira vez ela perguntava: "quer descer, conhecer meus pais?". Na primeira vez eu recusei. Na segunda senti que aquela história ia desenrolar, e muito ainda. "Sim".

O Seu Hugo fez um interrogatório digno de um policial, como eu esperava que seria. Estava preocupado com quem a filha dele estava saindo. A Ida era só sorrisos, como sempre foi comigo. Foram umas duas horas de papo e chimarrão. E aquela altura, eu já me sentia membro da família.

Foi assim que ela sempre me tratou. Do primeiro minuto ao último. Como um filho, alguém muito próximo.

Eu não tinha como não gostar da Ida. Ela era uma outsider como eu. Alguém que simplesmente se negava a enquadrar-se em uma sociedade tão quadrada e pronta. Ela era do jeito que era. E não dava a mínima para quem não a aceitava.

A Casinha Verde era o tesouro da Dona Ida. Era lá que ela guardava tudo o que achava e considerava belo. Para aqueles que não conhecem o mundo de um acumulador, tudo aquilo que eles guardam tem um significado. Pode ser uma simples embalagem de um sorvete, uma caixa vazia de bombom. Para eles, esta é a lembrança física de algo muito bom e que eles gostariam de guardar como memória. O acumulador ergue barreiras de coisas para tentar ocultar uma dor. Uma dor que possivelmente você também não seria capaz de sentir.

Havia atrás de todos aqueles sorrisos lindos da Ida uma tristeza. Uma tristeza que talvez nós não sejamos capaz de desvendar. Algo que sua doçura e paz ocultavam. A dor do mundo.

Eu que nunca me achei melhor que ninguém, via uma identificação direta com a Ida. Ela sabia das coisas. Ela era muito inteligente, e quem não percebia isso não a conhecia. Toda a vez que a Hilda falava da sua dor de estar longe de sua família, vivendo comigo e Gabi na Lapa, a Ida sempre amenizava: "é a sua vida minha filha. A vida que você escolheu com o seu marido. Você está bem na Lapa".

Eu nunca pude perceber um pensamento negativo se quer na Ida. Ela vivia a vida intensamente, sem bloqueios, sem receios, sem qualquer pudor quanto ao que os outros pensavam sobre ela. E muitos não a compreendiam por ela ser assim. Eu a admirava. Era assim que eu queria ser. E foi assim que eu apreendi com ela como encarar a vida. Sem portas, sem medo de ser feliz.

Naquela tarde de dezembro de 2018, quando eu voltei à Casinha Verde depois de tanto tempo, eu desabei. Seu Hugo havia feito praticamente um santuário. Na parede vários quadros com fotos da Ida desde os 15 anos. Fotos da Cristina, da Hilda, pequenininhas. Momentos sagrados de uma família feliz. Eu vendo tudo aquilo, em tão pouco tempo após sua morte, tive que sair. E rodei pelo bairro do Santa Rosa por alguns minutos até me recompor.

Sim, foi naquela Casinha Verde que uma família construiu sua vida. Foi ali que eu tive a honra de ser aceito como membro dessa mesma família. Foi ali que Ida viveu seus últimos anos. E ali ela deixou sua marca, sua história, sua vida. Saudades.

Trilha Sonora: Black Rebel Motorcycle Club: "Lose Yourself", "Sweet Feeling".

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Esperanza

Eu sei, está sendo muito difícil. As nuvens negras insistem em aproximarem-se cada vez mais. O céu anda cinzento e o frio insiste em permanecer. A primavera chegou, mas as flores resistem em desabrochar. Uma angústia pesada paira no ar.

A mente insiste em vagar por cantos obscuros. O corpo parece pesar cada vez mais e querer padecer. Não há tempo para descansar. Apenas continuar andando. Eu sei, nós iremos seguir em frente. Sempre adiante. Mas em cada parada surge o medo de não conseguir seguir. De tudo apenas... acabar. Desabar.

O céu insiste em apresentar um norte. As estrelas querem nos guiar. E mais do que nunca devemos olhar para os céus. A realidade terrena está muito dura. Procuramos forças dentro de nós onde já não vislumbramos mais haver. E haverá.

A força está em nós e além. É preciso concentrar-se no presente e olhar para frente com esperança. A mente tenta nos enganar. O coração insiste em bater cada vez mais forte e procurar alívio. É de boas energias que precisamos nos encher. É preciso mais do que nunca apegar-se ao amor.

A vida segue seu rumo. Pode ser apenas mais um temporal. Pode ser a temporada de chuvas que insiste em não parar. Mas há de surgir um arco-íris no fim. E a certeza de que não podemos parar de lutar para, ao fim, contemplar suas cores novamente.

Pode parecer distante ver a luz no fim, mas sabemos que ela ainda está lá. E logo veremos o sol brilhar novamente. A caminhada é dura, e os momentos de tranquilidade estão cada vez mais escassos.

Agora precisamos fortalecemo-nos. Encher os corações de amor, esperança e boas energias. Dar tempo ao tempo, esperar e ter fé. Acima de tudo a fé, de que tudo irá acabar bem. Por mais de que tudo aponte para o contrário. Esperança.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Fitter Happier


Resultado de imagem para ok computerDias de ócio. Dias de perdição. O contato consigo mesmo é inevitável. Busca-se algo dentro e encontra-se o vazio. Deve haver mais, penso. Mas onde?

Onde foi que nos perdemos? A ciência iria salvar o mundo. Freud também pensou assim - arrependeu-se.

A busca por um lugar onde pudesse existir. Caber, situar-se, pertencer. Os versos de "Creep" caíram como uma bomba nos idos finais dos anos 90. Quem não é dessa geração não compreende o porque dessa música ser um hino daquela geração. "I don't belong here...".

Eu nunca pertenci a lugar algum. Não sei o que é o sentimento de ter uma origem e um referencial para onde ir. Sou o "Nowhere Man". A sociedade. Os grupos. As modas e os costumes. Nada me serviu como base identitária. Só a música. Pink Floyd e Radiohead dizem mais de mim do que qualquer livro ou teoria. Belchior e Lou Reed. Tim Maia e Kurt Cobain. Neles eu me vi, reconheci ali a mesma angústia incrustada e o horror ao lugar comum, ao establishment  e as estruturas de poder.

Eu não compreendo como a grande maioria consegue conceber uma certa normalidade, uma ordem natural das coisas. Não há! Só o caos e a brutalidade. Sim, fomos jogados nesse mundo já rodando. Não há sentido aqui e muito menos fora, no além ou outras dimensões. Elas não existem. 

"Fake plastic World". "Crushed like a bug on ground". A modernidade só foi capaz de criar isso. Ela não desenvolveu uma resposta adequada para a angústia. Criou semblantes. Simulacros. Falsos apoios vendidos como soluções mágicas. E isso não pára. 

"A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas". 

Freud acertou em cheio o que seria a modernidade e ajuda indispensável das "medidas paliativas" (leia-se: drogas, sexo, consumismo, ideologias e religião). O mundo é absurdo. É surreal. Quem não vê isso pode ser feliz. Na alienação e na ignorância encontra-se a felicidade. Os poetas já haviam nos alertado.

Você vai ter uma infância bacana cheia de brinquedos e guloseimas. Vai crescer. Vai estudar, encontrar uma pessoa legal. Vai amar e casar. Ter filhos e cachorros. Um emprego estável. Almoço de domingo. Essa é a estória que nos ensinaram e quem não seguir está fadado à infelicidade. Quem não conseguir entrar nesse roteiro irá se foder. 

Independente da vida medíocre que você tem, tentando ser esse personagem preconcebido, você vai compartilhar sua pretensa vida feliz nas redes sociais e ganhar curtidas. Fotos de viagens legais. Pratos bacanas que você pode pagar. Vai se irritar com as críticas e desfazer amizades por diferenças políticas.  Vai seguir a nova dieta da moda. Vai postar tudo isso com uma selfie e uma frase de efeito de um autor conceituado que você nunca leu - e que provavelmente não é de autoria dele. Sim amiguinho, também estou nessa. 

Há saídas? Deve haver. Dentro de mim ou fora. Talvez no Outro. 


Fitter Happier - Radiohead

Em forma Mais feliz
Em forma, mais feliz, mais produtivo,
Confortável,
Sem beber demais,
Exercícios regulares na academia
(3 dias por semana)
Se relacionando melhor com seus sócios e empregados,
À vontade,
Comendo bem
(Nada de comidas de microondas e gorduras saturadas),
Um motorista mais paciente e melhor,
Um carro mais seguro
(Um bebê sorrindo no banco de trás),
Dormindo melhor
(Sem pesadelos),
Sem paranoia,
Cuidadoso com todos os animais
(Nunca lavando aranhas nos buracos das tomadas),
Mantendo contato com velhos amigos
(Desfrutar de uma bebida de vez em quando),
Frequentemente checar o crédito no banco (moral)(um buraco na parede),
Favores por favores,
Afeiçoado, mas não amando,
Ordens permanentes de caridade,
Aos domingos super-mercados "anéis viários"
(Não matar traças ou colocar água fervente em formigas),
Lavar o carro
(Também aos domingos),
Já sem medo do escuro ou das sombras do meio-dia
Nada tão ridiculamente adolescente e deseperado,
Nada tão infantil - em um ritmo melhor,
Mais devagar e calculado,
Sem chance de escapar,
Agora empregado de si mesmo,
Em causa (mas impotente),
Um membro da sociedade informado e habilitado
(pragmatismo, não idealismo),
Não vai chorar em público,
Menos chances de doenças,
Pneus que aderem no molhado
(Foto do bebê com cinto de segurança no banco traseiro),
Uma boa memória,
Ainda chora em um filme bom,
Ainda beija com saliva,
Não mais vazio e frenético como um gato amarrado a um pedaço de pau,
Que é levado à merda do inverno congelado
(A capacidade de rir de fraqueza),
Calmo,
Em forma,
Mais saudável e mais produtivo
Um porco em uma gaiola de antibióticos.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Amor e o Não-amor

Uma vida que não cabe outra vida
Ou que não permite mais outra
Talvez por tanto tempo só
Que não sabe mais reconhecer o outro

Solidão que doía e que
De tanto bater, esvaziou.
Ansiou uma vida nova
Apenas para preencher o que não se tinha

Acostumou com a dor só sua
Imaginava poder abrir uma porta
Que de tanto tempo fechada, travou
Desejo, sonho e reparação

Tentou amar quando já achava poder andar sozinha
E na agonia de querer ser amada
Não pôde amar
Pois amar é doar, não esperar ganhar

Do sonho que virou pesadelo
A constatação de que a ânsia e a solidão
fez do desejo de amor
O não-amor. Desilusão.

domingo, 23 de outubro de 2016

Vojão

Era uma manhã cinzenta. Aquela cena nunca mais sairia de minha mente. Meu avô descendo do carro. Amarelo. Seu semblante não era de dor. Resignação. Eu nunca o havia visto daquela maneira. Olhar perdido. O soldado finalmente havia batido em retirada.

Os dias iluminados de céu azul da Ucrânia haviam ficado para trás. E minha breve adolescência também. Good bye blue sky. "Os homens bons não morrem. Sobem aos céus para tornarem-se anjos". E o meu anjo se foi naquela tarde de 17 de setembro de 1998.

Ele era o modelo de homem. Meu referencial de ser humano. Era extremamente bondoso, mas ao mesmo tempo justo. Honesto e inteligente. Um tanto quanto ranzinza, e tinha um senso de humor implacável. Abriu-me as portas do mundo ao ensinar-me a ler. Valorizava o saber acima de tudo e sabia o quanto isso transformaria completamente minha vida. Foi meio pai, meio avô. Avôhai. Vojão.

O princípio da juventude havia sido brilhante e delicioso. O mundo se abria com toda sua força e esplendor. A vontade era de apenas viver intensamente, voar, navegar livre em um mar de liberdade e contemplação. Pela primeira vez sentia que podia abrir-me, sair do enclausuramento e encarar a vida de frente. E como em um golpe, ela veio logo com tudo. Seca, dura e incompreensível. Bateu forte e foi embora, levando junto os últimos sopros de inocência e serenidade. 

Os anos que se seguiram foram de escuridão. Incompreensão, revolta e dor. Mergulhado em tristeza, eu via o mundo a minha volta desaparecer e esfalecer-se. A louca felicidade juvenil deu lugar à angustia e encerramento em si mesmo. 

Eu não tinha mais referências. Procurava cegamente uma saída para o quê eu mesmo não conhecia. Apegava-me a quem meramente estendia uma mão, buscando não afundar. Não sei bem como eu sai dessa. Foi a fase mais obscura de minha vida. Foram anos tentando elaborar essa perda que até agora repercute e coloca-me a refletir sobre uma parte do passado que ainda não superei completamente. 

Passaram-se dezessete anos, e essa é a primeira vez que consigo escrever sobre o Seu João, ou melhor, sobre a sua perda. A dor é ainda grande, assim como são as doces lembranças dos anos incríveis que passei junto desse ser iluminado que participou ativamente de minha infância e adolescência, contribuindo para minha formação enquanto homem, ser humano, e agora, pai. Saudades!

Para meu anjo Vojão. Fly on little wing!

Trilha Sonora: "Little Wing" - Jimi Hendrix; "Sailing" - Rod Stewart; "Goodbye Blue Sky" e "Mother" - Pink Floyd; "My Friend of Misery" - Metallica.


Vojão

Era uma manhã cinzenta. Aquela cena nunca mais sairia de minha mente. Meu avô descendo do carro. Amarelo. Seu semblante não era de dor. Resignação. Eu nunca o havia visto daquela maneira. Olhar perdido. O soldado finalmente havia batido em retirada.

Os dias iluminados de céu azul da Ucrânia haviam ficado para trás. E minha breve adolescência também. Good bye blue sky. "Os homens bons não morrem. Sobem aos céus para tornarem-se anjos". E o meu anjo se foi naquela tarde de 17 de setembro de 1999.

Ele era o modelo de homem. Meu referencial de ser humano. Era extremamente bondoso, mas ao mesmo tempo justo. Honesto e inteligente. Um tanto quanto ranzinza, e tinha um senso de humor implacável. Abriu-me as portas do mundo ao ensinar-me a ler. Valorizava o saber acima de tudo e sabia o quanto isso transformaria completamente minha vida. Foi meio pai, meio avô. Avôhai. Vojão.

O princípio da juventude havia sido brilhante e delicioso. O mundo se abria com toda sua força e esplendor. A vontade era de apenas viver intensamente, voar, navegar livre em um mar de liberdade e contemplação. Pela primeira vez sentia que podia abrir-me, sair do enclausuramento e encarar a vida de frente. E como em um golpe, ela veio logo com tudo. Seca, dura e incompreensível. Bateu forte e foi embora, levando junto os últimos sopros de inocência e serenidade. 

Os anos que se seguiram foram de escuridão. Incompreensão, revolta e dor. Mergulhado em tristeza, eu via o mundo a minha volta desaparecer e esfalecer-se. A louca felicidade juvenil deu lugar à angustia e encerramento em si mesmo. 

Eu não tinha mais referências. Procurava cegamente uma saída para o quê eu mesmo não conhecia. Apegava-me a quem meramente estendia uma mão, buscando não afundar. Não sei bem como eu sai dessa. Foi a fase mais obscura de minha vida. Foram anos tentando elaborar essa perda que até agora repercute e coloca-me a refletir sobre uma parte do passado que ainda não superei completamente. 

Passaram-se dezessete anos, e essa é a primeira vez que consigo escrever sobre o Seu João, ou melhor, sobre a sua perda. A dor é ainda grande, assim como são as doces lembranças dos anos incríveis que passei junto desse ser iluminado que participou ativamente de minha infância e adolescência, contribuindo para minha formação enquanto homem, ser humano, e agora, pai. Saudades!

Para meu anjo Vojão. Fly on little wing!

Trilha Sonora: "Little Wing" - Jimi Hendrix; "Sailing" - Rod Stewart; "Goodbye Blue Sky" e "Mother" - Pink Floyd; "My Friend of Misery" - Metallica.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A vida não começa segunda-feira

Mais um dia vazio. Perdido entre a inércia e os devaneios. Essa sensação esmagadora de que não é possível produzir nada - e pior, que sem produzir, sou nada. 

Só rezar para que o dia logo acabe. Isso não é vida. Saber disso, reproduzir isso constantemente - é uma tortura. Não buscar saída por não se querer sair, apenas ficar no lodo da perdição e deixar-se afundar. Mas não afunda. Pelo menos o suficiente para interromper toda essa merda. 

Eu sei, foi apenas mais um dia ruim, como todas as segundas-feiras que se optou por não viver. A vida.

domingo, 10 de maio de 2015

Thirty-Three


Dedico este texto à mulher de meus sonhos e minha vida, Hildinha, e a minha pequena que está quase chegando, Gabriela.


Trinta e três anos. Uma vida. É o que eu posso afirmar sobre esse tempo que passou. Há alguns anos atrás eu não gostava de comemorar meu aniversário. Era um dia triste. Hoje eu entendo a razão disso. Eu sentia não viver uma vida plena. Não encontrava motivos para comemorar. 

Thirty-Three" é a minha música preferida do Smashing Pumpkins. Marcou um período significativo em minha vida. Justamente na época em que uma sombra tomou conta de mim e os aniversários não tinham graça. Era como se naquele período não houvesse vida. Apenas recortes isolados de felicidade  fugaz permeados por muita angústia. 

Talvez a vida em sua essência seja angústia pura. Mas esta mesma angústia, quando não paralisante, é a base de onde se pode construir caminhos infinitos de felicidade. Basta começar. Às vezes, basta apenas uma chance. Foi o que eu fiz. Eu só precisava de uma única chance para poder ser feliz. E ela veio, no fatídico dia em que eu deixei tudo para trás para viver uma aventura. E eu não tinha a mínima ideia onde aquilo ia me levar. Eu estava indo para "Darklands". E no fim do túnel encontrei uma luz.

A partir daí a vida aconteceu. Muito. Um anjo desses que aparecem somente de vez em quando na Terra surgiu e estendeu sua mão. E logo ofereceu seu coração e todo um universo de possibilidades de ser feliz. Bastava eu apenas aceitar. E demorei um pouco para perceber isso. E aceitei. Hoje estou aqui, ouvindo Thirty-Three e resignificando toda a minha vida. 

Hoje senti-me plenamente feliz e realizado. Um filme passou em minha mente com imagens dessa história que acabo de lhes contar. Fiquei emocionado, pois a vida em cinco anos foi maior que nos vinte e oito anteriores. Não que não valeu a pena, pelo contrário, permitiu agora que eu seja quem sou e em um momento que posso viver tudo isso de forma aberta e espontânea. Sem sombras, sem medos. 

Aquele anjo, não contente com a sua bondade, resolveu presentear-me com uma dádiva. Um novo anjo que irá pintar minha vida com cores fantásticas. Surreais. Irá transformar nossas vidas para sempre. E já mudou. Acordo todos os dias pensando nela. Como será, o que farei. Serei suficientemente bom para ela? Só posso afirmar que dedicarei todos os meus esforços em fazê-las felizes.  Aos trinta e três anos, elas são a minha vida. E agora finalmente plena.




sábado, 14 de março de 2015

Reflexões sobre a vida e a morte


Estou anestesiado. Ando tentando não entrar em contato com a tristeza. Que insiste em voltar. Tomado por lembranças, sensações, questões que ainda não foram resolvidas. Por acontecimentos tão
tristes.

A vida ainda teima em insistir, em pulsar. Mas a morte tem chegado tão perto...

Ao perceber que somente a vontade de viver por si só não é algo tão palatável. Não é Real. Que há sempre algo mais...

Somos tão jovens. E quantos não são?

A vida nos confronta. Testa. Somente o meu desejo de viver não basta?

Não.

Here comes the pain. Again.

A luta pela vida. Alguns temem a morte. Alguns vivem sem querer saber de suas consequências. E sim, ela vai chegar. Para aqueles que rezaram. Para aqueles que a temiam. Pra quem se quer pensava nela...

E eu tenho medo. Não queria ter. Queria apenas não saber. Mas você ainda está por ai. Tão perto.
Aqui a vida continua. E nós ainda teimamos em querê-la. De todas as formas lutamos. Mas tem sido tão difícil ao constatar o quão frágil somos?

Eu sei, o tempo nos dirá como agir, como será novamente. Mas como?

Trilha Sonora: Sigur Ròs; Pearl Jam; Sparklehorse. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

E no fim havia o meio

"O prazer é a redução do desconforto físico de existir" - Platão



Tento resgatar algo de mim que se perdeu. Não sei ao certo o que seria. Nem como se foi. É uma parte considerável de mim que mudou, sem eu querer. Talvez seja apenas uma transição, e essas fases costumam ser confusas.

Essa sensação de que alguma coisa importante está faltando e, ao mesmo tempo, de que algo precisa ser feito para reverter isso. Mas o quê?

Toda vez que certo equilibro (ou seria estabilidade?) é alcançado, o mesmo e velho sentimento surge gerando inquietação. "Ainda é cedo". É muito cedo para apenas parar. Onde estão as novidades, a agitação e o desconforto? 

Será que a vida não pode ser apenas contemplada? 

Por que a necessidade de sempre se querer e arriscar mais?

Talvez a paz e a tranquilidade não sejam um fim. São só um meio.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Uma dose de ilusão

Hoje eu só queria uma dose de ilusão. Somente uma.
Há um ar carregado. Há essa preguiça que arrasta meu corpo.
Sono. 

Qualquer som, qualquer coisa que distraía. 
Tudo menos começar o dia. 
Voltar a si, ao redor. Por que?

Deve haver algum lugar onde tudo some.
Onde não se possa encontrar ninguém. Nem eu.
Apenas imagens e ruídos.

Se faz necessário sair. Respirar.
Abrir o que não se quer. 
Não deixar apenas calar. 

Trilha Sonora: Portishead: "Live in Rosenland" (álbum).

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O peso do Eu

Há dias em que o mundo pesa. Após as horas se arrastarem continuamente surge a sensação de que se carrega muito mais que o próprio peso. 

A alma está cheia, repleta de impressões, afetos confusos e principalmente ideias absurdas. 

Ai chega-se a conclusão de que é muito difícil ser-o-que-se-é.

Ser aquilo que você projeta como ideal. O profissional capacitado. O bom marido e trabalhador. A pessoa compreensiva e sociável. O cidadão de bem que paga seus impostos. O “Eu” abrange tudo isso e muito mais. 

Há ainda – e que pode ser muito mais intensa - a pressão interna de querer realmente corresponder a esses modelos, de dar conta e, mais ainda, ser “perfeito”. 

Internamente as coisas se tornam mais complexas. Há um passado que às vezes clama por reparações. Há as expectativas futuras. Há uma cobrança de si que foge da livre consciência. 

Essa apercepção de que há algo te puxando, exigindo cada vez mais, torna-se aparente quando confrontamos nossos desejos com a realidade, e nesse embate surge a culpa, a angústia de não poder-ser-o-que-se-almeja. 

Dói, mas não se sabe por que.

Prefere anular-se a enfrentar os caminhos tortuosos que levariam ao final épico, grandioso e sublime. A mente perde-se em tantos devaneios e artifícios a fim de se suportar o não-enfrentamento do desejo e suas consequências. 

E eis que se chega à questão: por que suportar esse peso? 

Trilha Sonora: Radiohead – Amnesiac (álbum); Remy Zero – “Hermes Bird” e “Life in Rain”; Black Rebel Motorcycle Club – “Long Way Down”.  

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

The Blower's Daughter

(Livremente inspirado em "The Blower's Daughter", música de Damien Rice)



Então é isso. Tudo acabou como começou. Uma brisa passageira, mas que me derrubou. A vida andava fácil para mim. Nada demais acontecia, porém tudo ia bem. Até você chegar.

Eu sei, eu não pude ser seu herói, nem construir seu castelo encantado. Não pude nem ser eu mesmo. Fiquei paralisado, com medo, e os meus olhos não saiam de você.

Apostei todas as minhas fichas, entreguei minha alma. Nada mais importaria, agora era tudo ou nada. Eu não conseguia tirar os olhos de você.

Minha mente se perdeu, as coisas ficaram confusas. Não acreditei que a história seria tão curta e que seus sentimentos eram como o vento. Desculpe, eu apenas quis fugir. Aquilo tudo seria demais para mim. E eu não seria digno de seu amor.

O tempo foi cruel, e quando quis voltar não havia mais nada. Eu sei que você não disse que tudo estava perdido, mas eu senti. E eu estava, e não conseguia parar de te olhar.

Mesmo longe eu a sentia. Vi você andar por ai. Procurava seu rosto em todas as mulheres. E foi assim, como um vento que passou. Ficaram as imagens e seu cheiro. A dor. E mesmo assim, eu não consigo parar de pensar em você. Até...



quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Redemoinhos

Trilha Sonora para este Post: 
Sol no escuro by Fabio Góes on Grooveshark


A vida e seus redemoinhos. Movimentos que vão e voltam, nos jogando quase sempre ao centro, e algumas
vezes às beiradas. Ao centro tudo é mais tranquilo. Vê-se tudo e tem-se a impressão de se estar no controle. E às vezes é uma mesmice só.

Mas é na beira que se entra em contato com outros corpos, com o estranho. Pode-se chocar com outros redemoinhos e desse encontro surgir algo novo. Saí-se do conforto do centro, desestabiliza-se.

Tem dias que quero apenas ficar em meu centro. Não quero nada e ninguém perto de mim. Deixe-me apenas estar aqui e permanecer. A angústia trava qualquer movimento. Parece menos doloroso, a sensação é de estar mais protegido, mais distante de possíveis rotas incertas. Mas corre-se o risco de estagnar, ficar preso a um mundo certo, porém limitado. A mesma angústia que te trava alerta para o risco da morte. 

Se ficar é fácil, sair não é tão simples. Procurar caminhos, rotas e possibilidades se faz necessário. É incômodo, as vezes o redemoinho te joga longe, e com muita força. O choque com o desconhecido pode ser brutal. Mas é preciso enfrentar os riscos e aceitar o que vier. Caso contrário resta apenas ver o mundo girar à sua volta.

Trilha Sonora: "Sol no Escuro" - Fabio Góes; "Venus in Furs" - The Velvet Underground.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Da Existência à Essência


Entre sonhos e devaneios vou tentando achar o que há de real em mim, 
onde no meio disso tudo eu simplesmente existo. 
Realidade torta e malfadada.

Há no cotidiano um misto de complacência e entrega ao simples devir. 
Reflexão. Por quê? E para o quê?
A vida simplesmente insinua possíveis caminhos, deixando-nos à livre escolha. 
Há realmente apenas uma opção que possa ser escolhida? 

Caminho entre fendas aleatórias e caminhos pré-estabelecidos. 
A cada tropeço volto atrás e penso: não poderia ter sido diferente? 
E se naquela queda eu tivesse escolhido apenas cair e entregar-se? 
Quando devo reconhecer que foi uma derrota e devo aceitar? 

Vida cheia de respostas não dadas.
A experiência supera a essência, até onde? 

Há uma natureza da qual eu fujo e sempre acabo voltando. 
Posso realmente acreditar? 
Dúvidas que servem apenas para tentar fundamentar o que já está dado.
Dependerá do que eu puder conciliar e até certo ponto conformar.


Trilha Sonora: "Hey You" - Pink Floyd; "Talking Shit About Pretty Sunset" - Modest Mouse; "Paper Boats" - Nada Surf.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ao Nada

Tento escrever sobre um vazio que de tempos em tempos abate-me.
Uma vontade que remete ao nada, 
à ausência de todo e qualquer sentido.
É a inércia do corpo somada ao desejo de esvaziar a mente.

Pode ser uma luta, mas uma luta sem razão ou motivos.
É algo como um querer ser o que não se é,
ir contra uma natureza que as vezes se demonstra impassível.

Deve haver alguma essência ai,
mas não é ela que se busca conhecer.

Busca-se fugir.
Não corresponder a este lugar que de alguma forma lhe foi conferido,
seja por seu desejo,
seja pelo trágico destino.

Desejo agora, apenas, apagar.
Desaparecer, nem que seja por um mísero instante.
Sustentar isso que não sei o que é, pesa.
E muito.

Saudades dos momentos de leveza,
de sonho e imensidão.

Agora apenas o silêncio
e um desejo que não cede ao real.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Fake Plastic World

Trilha para este post:


Como querer adequar-se a um mundo em que tudo torna-se superficial, efêmero e aparente? As formas sobrepõe-se aos conteúdos. Seres humanos ganhando o aspecto de semblantes. Fogem da vivência de uma existência autêntica para assumirem a forma de um avatar, construído apenas com imagens criadas idealmente e constantemente projetadas para o outro observar, desfrutar e logo depois descartar. 

Querem ostentar o que não são, apresentar apenas o "seu melhor". Não há espaço nem tempo para erros, defeitos e desvios de uma normalidade rigidamente construída e consumida por todos. Os fluxos constantes de informação virtual sufocam, entopem todos os sentidos com imagens, sons, e todo tipo de dados. 

Conectados? Com o quê? À uma nuvem?

Vícios novos, vícios cada vez mais inúteis que já não sustentam o sujeito, o levam a uma autodestruição. Busca-se o sentido onde não há algum. Na tradição, religião, ideologias? Faliram há muito. Ai só há destroços, pequenos suportes frágeis e momentâneos. 

O excesso de informação leva apenas a ignorância. Sabe-se muito pouco sobre tudo. E julga-se tudo a partir desta ignorância-pretensa-inteligência. E mais, é obrigatório divulgá-la. "É o meu ponto de vista!". As individualidades exacerbadas diluíram o senso social. Se não se consegue o olhar-para-si-mesmo, imagina para-um-outro? Alteridade? O que é isso?

São apenas os tempos atuais. Fake plastic world. 


Trilha Sonora: "Fake Plastic Trees" - Radiohead; The National "Sad Songs for Dirty Lovers" - álbum. 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Id


Trilha Sonora para este Post:
Uma lembrança antiga fez despertar imagens que talvez há muito tempo estavam adormecidas: de um ser passional, louco e inconsequente. Inconformado com todas as regras e adequações. Um espirito livre em busca de novidades e aventuras em um mundo inteiro a ser explorado.

Este lado há muito tempo foi sendo sufocado e na verdade nunca pôde se expressar completamente. Porque este ser libertário era também amargurado e consumido pela angústia e que por isso encontrou poucas vezes um lugar para manifestar-se. E o pior que esta prisão fora criada por si mesmo, sempre buscando subterfúgios para justificá-la.

Tinha a mente cheia de ideais e desejos, assim como uma vontade absurda de realiza-los e coloca-los em prática. Mas sempre sucumbiu a alguma força que o reprimia. Andava muito mais à sombra do que à revelia. Vivia mais em um mundo de ideias do que na realidade terrena. Por muitas vezes sentia em seu peito uma vontade extrema de explodir, mas quase sempre acabava implodido.

Por alguns instantes a lembrança tentou trazer esse lado à tona novamente, e foi muito mais difícil. A rebeldia e a indignação estão caladas há um bom tempo. Surgem às vezes de forma civilizada e amena. É possível identificar esse desejo quase apagado, mas querer provocá-lo novamente é tarefa em vão. Há muito ele vem se apagando para quase não mais existir.

Sempre houve o medo e a insegurança, e mais, a sensação de uma iminente autodestruição. Nunca se soube os limites, e não foi possível chegar perto deles. Mas sempre a porra da sensação de que algo prendia, que não se poderia viver essas emoções livremente, e pior, que talvez não se merecesse tal dádiva. E por que não?

O simples deixar fluir e trazer os sentimentos à tona assustavam. Fugia, desesperadamente. As intensas emoções o faziam regredir, fechar-se em torno de si e esperar o turbilhão passar. Mas nunca apenas deixar sair. Quando escapavam, era o terror, o medo, a desilusão.

E por alguns minutos surgiu novamente a sensação de que esse lado pudesse ainda emergir e, dessa vez, talvez espontaneamente ter uma existência autêntica. 

terça-feira, 26 de março de 2013

Consciência/Ausência



Trilha Sonora para este post:

Tudo tão quieto. Tem dias que minha mente voa tão longe que chego a ouvir o silêncio das alturas.   

Como se flutuasse na imensidão azul e apenas o lento passar das nuvens dispersasse minha atenção.

Perco-me nesta ausência de sentidos e quando me dou conta estou ainda aqui, na terra, realidade mundana. Sei que é uma maneira de ausentar-me e fugir de minhas pequenas obrigações. É um “deixar-de-ser-a-si-mesmo” momentâneo, espaço temporal necessário para recomeçar tudo de novo.

É sempre assim, e tenho plena certeza disso. Já conheço o roteiro, as fugas rápidas da realidade e a entrega em livres pensamentos. Memórias antigas, sensações atuais e desejos futuros misturam-se constantemente. Gostaria de poder relatá-los, mas logo os perco na troca por tantos outros.

E assim a minha segunda-feira passa, mesmo com toda procrastinação e o lento arrasto das horas. 

Trilha Sonora: Nada Surf "Neither Heaven Nor Space".