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terça-feira, 3 de setembro de 2019

A fuga - ou uma crônica da vida atual

Quando a vida liga o seu modo automático e o passar dos dias torna-se um continuum intercalado por pequenas quebras na rotina. Aquela sensação de estar apenas indo, deixando a vida te levar, sem saber ao certo onde irá dar. 
De repente, nesses intervalos, ter a sensação de que não há outro sentido além de tocar adiante. O tempo corre, e escorre pelas mãos. A fome de viver já não é mais a mesma, embora tente-se lutar todos os dias atrás dela. Onde ela estará?

Eu sei, é preciso matar um leão por dia. Começar tudo de novo a cada momento. Buscar saídas, modos de satisfação. O peso do mundo vai maltratando aos poucos, e tenta-se fugir (ou amenizá-lo) a todo momento.

Satisfações substitutivas, breves fugas da realidade. Tempo desperdiçado no mundo (imaginário) das redes sociais. Viver a vida dos outros. Sonhar com a vida dos outros, enquanto a sua é também emulada nos filtros de fotografia e stories previamente pensados.

Pequenos momentos de diversão planejada, retratados nos posts de viagem ou naquele restaurante estrelado do Tripadvisor  ganham o status de ápice da felicidade. É a recompensa por horas dedicadas e abdicadas devido ao trabalho e a vida frenética. Ilusões (des)necessárias.

O pior é olhar tudo isso e querer achar normal. Ver algum sentido além. E não há. Onde está a essência, se a existência à precede? Esse modo de existir seria o único possível agora?

Onde antes havia subterfúgios, fugas corporais e alguma contemplação, não há mais. Onde construir um novo sentido? A trilha sonora continua tocando, quase sempre presa ao passado. As vezes lutando para resignificar o agora.

Tempos sombrios. O mundo explode inflado pela irracionalidade e o culto à bestialidade. Nunca a ignorância ocupou tão bem um lugar de defesa frente ao absurdo. Acreditar em tudo o que se quer acreditar, menos no real.

As pessoas estão deprimidas por não conseguir (ou querer) sentir. Aí só resta fugir.

Trilha Sonora: 'Without You I'm Nothing (Álbum)" - Placebo.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Fitter Happier


Resultado de imagem para ok computerDias de ócio. Dias de perdição. O contato consigo mesmo é inevitável. Busca-se algo dentro e encontra-se o vazio. Deve haver mais, penso. Mas onde?

Onde foi que nos perdemos? A ciência iria salvar o mundo. Freud também pensou assim - arrependeu-se.

A busca por um lugar onde pudesse existir. Caber, situar-se, pertencer. Os versos de "Creep" caíram como uma bomba nos idos finais dos anos 90. Quem não é dessa geração não compreende o porque dessa música ser um hino daquela geração. "I don't belong here...".

Eu nunca pertenci a lugar algum. Não sei o que é o sentimento de ter uma origem e um referencial para onde ir. Sou o "Nowhere Man". A sociedade. Os grupos. As modas e os costumes. Nada me serviu como base identitária. Só a música. Pink Floyd e Radiohead dizem mais de mim do que qualquer livro ou teoria. Belchior e Lou Reed. Tim Maia e Kurt Cobain. Neles eu me vi, reconheci ali a mesma angústia incrustada e o horror ao lugar comum, ao establishment  e as estruturas de poder.

Eu não compreendo como a grande maioria consegue conceber uma certa normalidade, uma ordem natural das coisas. Não há! Só o caos e a brutalidade. Sim, fomos jogados nesse mundo já rodando. Não há sentido aqui e muito menos fora, no além ou outras dimensões. Elas não existem. 

"Fake plastic World". "Crushed like a bug on ground". A modernidade só foi capaz de criar isso. Ela não desenvolveu uma resposta adequada para a angústia. Criou semblantes. Simulacros. Falsos apoios vendidos como soluções mágicas. E isso não pára. 

"A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas". 

Freud acertou em cheio o que seria a modernidade e ajuda indispensável das "medidas paliativas" (leia-se: drogas, sexo, consumismo, ideologias e religião). O mundo é absurdo. É surreal. Quem não vê isso pode ser feliz. Na alienação e na ignorância encontra-se a felicidade. Os poetas já haviam nos alertado.

Você vai ter uma infância bacana cheia de brinquedos e guloseimas. Vai crescer. Vai estudar, encontrar uma pessoa legal. Vai amar e casar. Ter filhos e cachorros. Um emprego estável. Almoço de domingo. Essa é a estória que nos ensinaram e quem não seguir está fadado à infelicidade. Quem não conseguir entrar nesse roteiro irá se foder. 

Independente da vida medíocre que você tem, tentando ser esse personagem preconcebido, você vai compartilhar sua pretensa vida feliz nas redes sociais e ganhar curtidas. Fotos de viagens legais. Pratos bacanas que você pode pagar. Vai se irritar com as críticas e desfazer amizades por diferenças políticas.  Vai seguir a nova dieta da moda. Vai postar tudo isso com uma selfie e uma frase de efeito de um autor conceituado que você nunca leu - e que provavelmente não é de autoria dele. Sim amiguinho, também estou nessa. 

Há saídas? Deve haver. Dentro de mim ou fora. Talvez no Outro. 


Fitter Happier - Radiohead

Em forma Mais feliz
Em forma, mais feliz, mais produtivo,
Confortável,
Sem beber demais,
Exercícios regulares na academia
(3 dias por semana)
Se relacionando melhor com seus sócios e empregados,
À vontade,
Comendo bem
(Nada de comidas de microondas e gorduras saturadas),
Um motorista mais paciente e melhor,
Um carro mais seguro
(Um bebê sorrindo no banco de trás),
Dormindo melhor
(Sem pesadelos),
Sem paranoia,
Cuidadoso com todos os animais
(Nunca lavando aranhas nos buracos das tomadas),
Mantendo contato com velhos amigos
(Desfrutar de uma bebida de vez em quando),
Frequentemente checar o crédito no banco (moral)(um buraco na parede),
Favores por favores,
Afeiçoado, mas não amando,
Ordens permanentes de caridade,
Aos domingos super-mercados "anéis viários"
(Não matar traças ou colocar água fervente em formigas),
Lavar o carro
(Também aos domingos),
Já sem medo do escuro ou das sombras do meio-dia
Nada tão ridiculamente adolescente e deseperado,
Nada tão infantil - em um ritmo melhor,
Mais devagar e calculado,
Sem chance de escapar,
Agora empregado de si mesmo,
Em causa (mas impotente),
Um membro da sociedade informado e habilitado
(pragmatismo, não idealismo),
Não vai chorar em público,
Menos chances de doenças,
Pneus que aderem no molhado
(Foto do bebê com cinto de segurança no banco traseiro),
Uma boa memória,
Ainda chora em um filme bom,
Ainda beija com saliva,
Não mais vazio e frenético como um gato amarrado a um pedaço de pau,
Que é levado à merda do inverno congelado
(A capacidade de rir de fraqueza),
Calmo,
Em forma,
Mais saudável e mais produtivo
Um porco em uma gaiola de antibióticos.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Amor e o Não-amor

Uma vida que não cabe outra vida
Ou que não permite mais outra
Talvez por tanto tempo só
Que não sabe mais reconhecer o outro

Solidão que doía e que
De tanto bater, esvaziou.
Ansiou uma vida nova
Apenas para preencher o que não se tinha

Acostumou com a dor só sua
Imaginava poder abrir uma porta
Que de tanto tempo fechada, travou
Desejo, sonho e reparação

Tentou amar quando já achava poder andar sozinha
E na agonia de querer ser amada
Não pôde amar
Pois amar é doar, não esperar ganhar

Do sonho que virou pesadelo
A constatação de que a ânsia e a solidão
fez do desejo de amor
O não-amor. Desilusão.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A vida não começa segunda-feira

Mais um dia vazio. Perdido entre a inércia e os devaneios. Essa sensação esmagadora de que não é possível produzir nada - e pior, que sem produzir, sou nada. 

Só rezar para que o dia logo acabe. Isso não é vida. Saber disso, reproduzir isso constantemente - é uma tortura. Não buscar saída por não se querer sair, apenas ficar no lodo da perdição e deixar-se afundar. Mas não afunda. Pelo menos o suficiente para interromper toda essa merda. 

Eu sei, foi apenas mais um dia ruim, como todas as segundas-feiras que se optou por não viver. A vida.

sábado, 14 de março de 2015

Reflexões sobre a vida e a morte


Estou anestesiado. Ando tentando não entrar em contato com a tristeza. Que insiste em voltar. Tomado por lembranças, sensações, questões que ainda não foram resolvidas. Por acontecimentos tão
tristes.

A vida ainda teima em insistir, em pulsar. Mas a morte tem chegado tão perto...

Ao perceber que somente a vontade de viver por si só não é algo tão palatável. Não é Real. Que há sempre algo mais...

Somos tão jovens. E quantos não são?

A vida nos confronta. Testa. Somente o meu desejo de viver não basta?

Não.

Here comes the pain. Again.

A luta pela vida. Alguns temem a morte. Alguns vivem sem querer saber de suas consequências. E sim, ela vai chegar. Para aqueles que rezaram. Para aqueles que a temiam. Pra quem se quer pensava nela...

E eu tenho medo. Não queria ter. Queria apenas não saber. Mas você ainda está por ai. Tão perto.
Aqui a vida continua. E nós ainda teimamos em querê-la. De todas as formas lutamos. Mas tem sido tão difícil ao constatar o quão frágil somos?

Eu sei, o tempo nos dirá como agir, como será novamente. Mas como?

Trilha Sonora: Sigur Ròs; Pearl Jam; Sparklehorse. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

...

Eu ainda continuo buscando palavras para tentar descrever o meu sentimento agora. Um ano vai se aproximando de seu fim, e em um contexto que tudo foi diferente. Ainda procuro adiar o tradicional balanço, pois espero outros desfechos. A vida se mostra ainda incontornável em suas surpresas, sejam elas boas ou ruins. 

Busco trechos de músicas, fragmentos de textos perdidos em algum lugar do meu notebook, ou de minha mente perdida e solta em seus devaneios. Ando sonhando com coisas recentes, perdas que ainda não cicatrizaram totalmente. Ao mesmo tempo vislumbro um horizonte belo e possível, que vai de encontro aos meus planos e daquilo que sonhei. Tenho que me conformar com o passível e inadiável da vida, e ainda sim olhar para a frente e acreditar. As coisas vão indo assim, nesse ritmo meio incessante e quase incerto.

De tudo, tiro a lição de que aos poucos vou compreendendo coisas que posso nesse momento entender, e outras que em seu momento certo irão se revelar. Afinal viver é um eterno ensinamento, e, para isso, pausas e retrocessos serão necessários, assim como um tanto de fé inabalável naquilo que se acredita ser o percurso certo. E dessa forma, continuo apenas seguindo. E esperando.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Redemoinhos

Trilha Sonora para este Post: 
Sol no escuro by Fabio Góes on Grooveshark


A vida e seus redemoinhos. Movimentos que vão e voltam, nos jogando quase sempre ao centro, e algumas
vezes às beiradas. Ao centro tudo é mais tranquilo. Vê-se tudo e tem-se a impressão de se estar no controle. E às vezes é uma mesmice só.

Mas é na beira que se entra em contato com outros corpos, com o estranho. Pode-se chocar com outros redemoinhos e desse encontro surgir algo novo. Saí-se do conforto do centro, desestabiliza-se.

Tem dias que quero apenas ficar em meu centro. Não quero nada e ninguém perto de mim. Deixe-me apenas estar aqui e permanecer. A angústia trava qualquer movimento. Parece menos doloroso, a sensação é de estar mais protegido, mais distante de possíveis rotas incertas. Mas corre-se o risco de estagnar, ficar preso a um mundo certo, porém limitado. A mesma angústia que te trava alerta para o risco da morte. 

Se ficar é fácil, sair não é tão simples. Procurar caminhos, rotas e possibilidades se faz necessário. É incômodo, as vezes o redemoinho te joga longe, e com muita força. O choque com o desconhecido pode ser brutal. Mas é preciso enfrentar os riscos e aceitar o que vier. Caso contrário resta apenas ver o mundo girar à sua volta.

Trilha Sonora: "Sol no Escuro" - Fabio Góes; "Venus in Furs" - The Velvet Underground.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Da Existência à Essência


Entre sonhos e devaneios vou tentando achar o que há de real em mim, 
onde no meio disso tudo eu simplesmente existo. 
Realidade torta e malfadada.

Há no cotidiano um misto de complacência e entrega ao simples devir. 
Reflexão. Por quê? E para o quê?
A vida simplesmente insinua possíveis caminhos, deixando-nos à livre escolha. 
Há realmente apenas uma opção que possa ser escolhida? 

Caminho entre fendas aleatórias e caminhos pré-estabelecidos. 
A cada tropeço volto atrás e penso: não poderia ter sido diferente? 
E se naquela queda eu tivesse escolhido apenas cair e entregar-se? 
Quando devo reconhecer que foi uma derrota e devo aceitar? 

Vida cheia de respostas não dadas.
A experiência supera a essência, até onde? 

Há uma natureza da qual eu fujo e sempre acabo voltando. 
Posso realmente acreditar? 
Dúvidas que servem apenas para tentar fundamentar o que já está dado.
Dependerá do que eu puder conciliar e até certo ponto conformar.


Trilha Sonora: "Hey You" - Pink Floyd; "Talking Shit About Pretty Sunset" - Modest Mouse; "Paper Boats" - Nada Surf.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ao Nada

Tento escrever sobre um vazio que de tempos em tempos abate-me.
Uma vontade que remete ao nada, 
à ausência de todo e qualquer sentido.
É a inércia do corpo somada ao desejo de esvaziar a mente.

Pode ser uma luta, mas uma luta sem razão ou motivos.
É algo como um querer ser o que não se é,
ir contra uma natureza que as vezes se demonstra impassível.

Deve haver alguma essência ai,
mas não é ela que se busca conhecer.

Busca-se fugir.
Não corresponder a este lugar que de alguma forma lhe foi conferido,
seja por seu desejo,
seja pelo trágico destino.

Desejo agora, apenas, apagar.
Desaparecer, nem que seja por um mísero instante.
Sustentar isso que não sei o que é, pesa.
E muito.

Saudades dos momentos de leveza,
de sonho e imensidão.

Agora apenas o silêncio
e um desejo que não cede ao real.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Fake Plastic World

Trilha para este post:


Como querer adequar-se a um mundo em que tudo torna-se superficial, efêmero e aparente? As formas sobrepõe-se aos conteúdos. Seres humanos ganhando o aspecto de semblantes. Fogem da vivência de uma existência autêntica para assumirem a forma de um avatar, construído apenas com imagens criadas idealmente e constantemente projetadas para o outro observar, desfrutar e logo depois descartar. 

Querem ostentar o que não são, apresentar apenas o "seu melhor". Não há espaço nem tempo para erros, defeitos e desvios de uma normalidade rigidamente construída e consumida por todos. Os fluxos constantes de informação virtual sufocam, entopem todos os sentidos com imagens, sons, e todo tipo de dados. 

Conectados? Com o quê? À uma nuvem?

Vícios novos, vícios cada vez mais inúteis que já não sustentam o sujeito, o levam a uma autodestruição. Busca-se o sentido onde não há algum. Na tradição, religião, ideologias? Faliram há muito. Ai só há destroços, pequenos suportes frágeis e momentâneos. 

O excesso de informação leva apenas a ignorância. Sabe-se muito pouco sobre tudo. E julga-se tudo a partir desta ignorância-pretensa-inteligência. E mais, é obrigatório divulgá-la. "É o meu ponto de vista!". As individualidades exacerbadas diluíram o senso social. Se não se consegue o olhar-para-si-mesmo, imagina para-um-outro? Alteridade? O que é isso?

São apenas os tempos atuais. Fake plastic world. 


Trilha Sonora: "Fake Plastic Trees" - Radiohead; The National "Sad Songs for Dirty Lovers" - álbum. 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Id


Trilha Sonora para este Post:
Uma lembrança antiga fez despertar imagens que talvez há muito tempo estavam adormecidas: de um ser passional, louco e inconsequente. Inconformado com todas as regras e adequações. Um espirito livre em busca de novidades e aventuras em um mundo inteiro a ser explorado.

Este lado há muito tempo foi sendo sufocado e na verdade nunca pôde se expressar completamente. Porque este ser libertário era também amargurado e consumido pela angústia e que por isso encontrou poucas vezes um lugar para manifestar-se. E o pior que esta prisão fora criada por si mesmo, sempre buscando subterfúgios para justificá-la.

Tinha a mente cheia de ideais e desejos, assim como uma vontade absurda de realiza-los e coloca-los em prática. Mas sempre sucumbiu a alguma força que o reprimia. Andava muito mais à sombra do que à revelia. Vivia mais em um mundo de ideias do que na realidade terrena. Por muitas vezes sentia em seu peito uma vontade extrema de explodir, mas quase sempre acabava implodido.

Por alguns instantes a lembrança tentou trazer esse lado à tona novamente, e foi muito mais difícil. A rebeldia e a indignação estão caladas há um bom tempo. Surgem às vezes de forma civilizada e amena. É possível identificar esse desejo quase apagado, mas querer provocá-lo novamente é tarefa em vão. Há muito ele vem se apagando para quase não mais existir.

Sempre houve o medo e a insegurança, e mais, a sensação de uma iminente autodestruição. Nunca se soube os limites, e não foi possível chegar perto deles. Mas sempre a porra da sensação de que algo prendia, que não se poderia viver essas emoções livremente, e pior, que talvez não se merecesse tal dádiva. E por que não?

O simples deixar fluir e trazer os sentimentos à tona assustavam. Fugia, desesperadamente. As intensas emoções o faziam regredir, fechar-se em torno de si e esperar o turbilhão passar. Mas nunca apenas deixar sair. Quando escapavam, era o terror, o medo, a desilusão.

E por alguns minutos surgiu novamente a sensação de que esse lado pudesse ainda emergir e, dessa vez, talvez espontaneamente ter uma existência autêntica. 

sábado, 30 de março de 2013

Páscoa

Trilha Sonora para este post:

Esta noite acordei de um sonho em que meu avô havia "retornado" à vida e ele questionava quando seria o meu casamento. Eu respondi consternado: "foi em dezembro, vô". A música do Led Zeppelin não parava de martelar em minha cabeça: "babe, babe, I'm gonna leave you". Pensei em como seria se meu avô (e agora também minha avó) estivessem ainda vivos hoje, e o quanto eu sinto falta deles nessas datas importantes.

Isso se deu em meio à Páscoa, feriado talvez o mais importante em uma família ucraniana católica. Lembrei de quantas vezes repetimos os mesmos rituais de Páscoa a cada ano, e o quanto isso era fundamental para meus avós e pais, e de como isso traz à minha memória doces lembranças quando eu era criança e meus avós ainda estavam vivos.

A Sexta-feira Santa era o dia "mais chato", pois todos faziam jejum e nós não podíamos fazer nada, era preciso guarda a sexta, fazer silêncio, e nós crianças não podíamos brincar. O pai e o vô ficavam o dia todo vendo filmes bíblicos, sempre os mesmos! E nós arranjávamos uma maneira de brincar sem fazer barulho e perturbá-los.

Sábado era bem mais legal. Os pães e carnes assando para a benção dos alimentos à tarde. O cheiro do pão da vó assando era inconfundível, e nós já ficávamos morrendo de vontade de experimentar! A noite vinha a missa mais longa do ano, e nós dávamos um jeito de "escapar" da igreja para não ficar o tempo todo lá dentro. Na volta era só alegria, a Ceia e depois ganhar os ovos de chocolate. Impossível esquecer as vezes em que a vó escondia os ovos e nós tinhamos que achá-los!

Domingo era toda a família reunida na casa do vô e da vó: churrasco, adultos bebendo e a criançada solta pela casa. De vez em quando apareciam uns familiares não sei da onde. Era a maior bagunça. E como faz falta lembrar de como era tudo isso.

Essa será a primeira páscoa sem a vó, que veio a falecer em setembro passado, e tudo já parece estar sendo diferente. Fica uma sensação de que todas essas tradições só faziam sentido com eles por perto, mas sabemos que não deve ser assim. Por isso resolvi fazer a minha própria Paska ucraniana, pois agora tenho também minha família (que por enquanto é só eu e a Hildinha!), e quero muito manter estas tradições que dizem tanto sobre  minhas origens e o que representa minha família: uma união, uma linda união que vai se mantendo, mesmo com a geração mais velha não mais existindo. E acima de tudo quero que meus filhos tenham as mesmas doces lembranças que tenho de minha infância durante a Páscoa!

Trilha Sonora: "Your time is gonna come" - Led Zeppelin
Obs.: "Babe I'm gonna leave you" ficaria muito pesado para este post!

terça-feira, 26 de março de 2013

Consciência/Ausência



Trilha Sonora para este post:

Tudo tão quieto. Tem dias que minha mente voa tão longe que chego a ouvir o silêncio das alturas.   

Como se flutuasse na imensidão azul e apenas o lento passar das nuvens dispersasse minha atenção.

Perco-me nesta ausência de sentidos e quando me dou conta estou ainda aqui, na terra, realidade mundana. Sei que é uma maneira de ausentar-me e fugir de minhas pequenas obrigações. É um “deixar-de-ser-a-si-mesmo” momentâneo, espaço temporal necessário para recomeçar tudo de novo.

É sempre assim, e tenho plena certeza disso. Já conheço o roteiro, as fugas rápidas da realidade e a entrega em livres pensamentos. Memórias antigas, sensações atuais e desejos futuros misturam-se constantemente. Gostaria de poder relatá-los, mas logo os perco na troca por tantos outros.

E assim a minha segunda-feira passa, mesmo com toda procrastinação e o lento arrasto das horas. 

Trilha Sonora: Nada Surf "Neither Heaven Nor Space".

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Trem da História [Conto]


Onde estou? Em que mundo ou realidade paralela eu vivo – pensou Carlos enquanto tomava uma xícara de café observado o bosque que circunda sua sala de trabalho. Lembrou de uma sessão de análise em que formulou uma metáfora de que achava ser sua vida um filme que ao invés de ele ser o diretor era mero expectador. Era como se ele posiciona-se fora de si e visse as coisas acontecerem quase sem ter controle. E à essa ideia chegou após constatar que perdera muitas oportunidades na vida apenas por não percebê-las, negando sua realidade e sempre desligado com a mente vagando por longos devaneios e sonhos acordados.

Enquanto sua mente perdia-se na criação destas estórias fictícias, a vida concreta acontecia bem em frente aos seus olhos e boa parte disso ele perdia, ausentava-se ou mesmo negava. Assim não aceitou um emprego por achar que não era bem o que ele imaginava, que poderia esperar por uma vaga que correspondesse exatamente o que sonhara, e assim viu um colega seu assumir a vaga e meses depois ser transferido para Florianópolis, como diretor.

Teve a vez em que estava numa crise terrível no seu namoro com Sabrina. Esta queria abandoná-lo, mas não tinha coragem. Ao invés de terminar o relacionamento, Sabrina o enrolava, dava desculpas para não vê-lo e fingia tudo estar bem. Enquanto isso Carlos foi deprimindo-se, buscando alívio no álcool e internet. Em uma das noites de bebedeira em frente ao computador conheceu Larissa, que estava solteira e apaixonou-se por Carlos. Este ficou com o dilema entre tentar reerguer o namoro capenga ou arriscar uma nova aventura. Por sua lógica fantasiosa e medrosa preferiu continuar aquela relação insatisfatória, mas confortável. Teve medo de perder Sabrina e ao mesmo tempo não dar certo com Larissa. Ficou com o álcool, pois logo Larissa caiu fora ao ver que ele não daria um passo a mais e não a chamaria para um encontro.

Era um medo do novo, de arriscar-se em busca de outras saídas e uma aceitação quase cega de que tudo aquilo que acreditava ser seu destino. “Era para ser assim e pronto”. “Larissa seria um sonho de mulher caso não houvesse Sabrina”. “Aquele emprego seria ótimo se eu já não estivesse empregado agora” – era assim que ele pensava naquela época.

Passado algum tempo, ao constatar que perdera algo que poderia ser muito recompensador, angustiava-se em diversos pensamentos culposos,  imaginando como teria sido. Ou como seria se estivesse vivendo outra vida agora, como por exemplo, com um emprego legal, uma mulher que lhe desse atenção e fosse maravilhosa. E quando olhava o que tinha, um emprego medíocre mas garantido e uma falsa namorada mas que não o abandonava, achava que era o que podia ter, que deveria aceitar sua realidade ao invés de ficar criando estórias fantasiosas e idealizadas.  

Era uma constante luta entre sua realidade mesquinha e constante e seus sonhos loucos e idealizados. Ele se imaginava com aquela gata estagiária do setor de compras, mas no dia-a-dia mal a encarava para cumprimenta-la. Achava que pelo fato do gerente ter saído com ela não daria bola para um mero assistente.  Mas nunca tentou uma investida para confirmar se isso era verdade.

Na real era muito mais fácil sonhar e criar estórias maravilhosas em sua mente do que tentar procurar soluções concretas e reais. Com certeza a realidade seria bem diferente de sua imaginação e as coisas não teriam um andamento e fim como ele havia fantasiado. Poderia ser bom, ruim ou nada. Mas seria real. Melhor ou pior, teria uma existência verdadeira ao invés de serem apenas estórias irreais que além de só existirem em sua cabeça apenas serviam para desviá-lo da realidade que acontecia irredutível à sua frente e que ele quase que inconscientemente não a via.

“Quantas vezes você perdeu o “Trem da História”Carlos?” – perguntou sua analista certo dia. “Muitas vezes, e em quase todas eu ainda vi o trem saindo da estação, Doutora” – respondeu abismado e completamente confuso. 

Trilha Sonora: "Vida Que Não Pára" - Odair José. 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Depressão pós-feriado

Eu e minha existência banal. Há dias que eu escolho simplesmente não viver. Explico melhor. Não é querer tirar a própria vida, é apenas deixá-la de lado por um dia. É acordar já esperando que o dia acabe logo. E isso não é viver. É enrolar, escapar, perder-se nas ações mais fúteis possíveis. É ficar vagando pela internet (principalmente Facebook), a fim de encontrar alguma notícia interessante, é ver albuns de fotos de pessoas que você não conhece apenas pelo prazer medíocre de bisbilhotar a vida alheia. 

Nesses dias, quase obrigatoriamente segundas-feira, eu tento fazer de tudo para não fazer nada. Não consigo encarar minhas obrigações mais simples. Postergo tudo. Sonho com o meu sofá que trocarei apenas pela minha cama. Parece deprimente, não? Mas é bom. Pior que é bom. 

Quando trata-se de uma segunda-feira pós-feriado a tendência é os sintomas agravarem-se. Dores no corpo, bocejos constantes. Café, café, água, água. Café de novo. Parece que a mente não quer se ligar, está em standby desde o início do Programa do Faustão no fim da tarde de domingo. Talvez até quarta-feira ela pegue no tranco, quando já começa-se a vislumbrar o próximo fim de semana.

É somos assim. Pelo menos eu sou assim. Minha preguiça atinge as vezes níveis alarmantes. E o que mata não é essa preguiça em si, mas a culpa neurótica de estar disperdinçando (ou seria curtindo?) um tempo útil. Talvez se eu simplesmente deixasse essa preguiça tomar conta de mim e desistir de lutar contra ela eu compreenderia que este é só mais um episódio de depressão pós-feriado.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Realidades Paralelas

Eu sempre pensei viver em uma realidade paralela. Não tem nada a ver com outras dimensões metafísicas. Simplesmente sempre achei que nunca compartilhei totalmente da mesma realidade que todos em minha volta. E sei também que muito disso é devido a minha capacidade enorme de desviar a atenção e perder-me em pensamentos diversos e longíquos.

Lembro-me que esta situação era bem mais frequente no final da infância e durante boa parte de minha adolescência. Seria algo parecido com essa televisões em que é possível abrir outro canal em um pequeno frame no canto esquerdo superior da tela. Comigo acontece algo parecido. Abre este outro "canal", menor do que o canal principal, mas que desvia minha atenção, sendo que esta permanece dividida. E assim vou vivendo com a impressão de estar o tempo todo dividido entre esses dois "canais".

Não é preciso citar que logicamente o outro canal é mais interessante que a realidade que se projeta aqui. Já tratei disso muitas vezes como fuga. E é mais do que isso.

Em minha infância a realidade era quase que totalmente deixada de lado para dar espaço a fantasia. Eu vivia realmente em outros mundos. O mais importante é que era eu quem criava estes mundos. E ali eu poderia ser tudo. Já fui rei, piloto famoso, artista, revolucionário. Eram os meus devaneios. Criava enredos complexos e vivia tudo aquilo de forma intensa. Mas havia um problema: a realidade continuava a coexistir, e muitas vezes eu era convocado a assumir o "posto" novamente. Era duro. Na realidade e eu era apenas um garoto fechado, tímido, com milhões de sonhos e vontades a concretizar.

O garoto cresceu mas os devaneios continuaram. Com certeza bem mais amenos e próximos da realidade. Isso que eu relato faz parte da vida de todos, em menor ou maior grau. Estamos o tempo todo criando fantasias, estórias, sonhos, projetando coisas. Isso por si só é bom. Porém muitas vezes nos deixamos levar por um enredo desses, que criamos sem saber como, e nossa realidade se mistura com isso.

De modo geral nunca experenciamos a realidade como ela é, crua, viva, sem subterfúgios ou maneiras de encará-la. Usamos diversos instrumentos para lidar com ela: fantasias, mentiras, bebidas, e muita procrastinação. Criamos histórias e passamos a vivê-las. Distorcemos fatos, os misturamos com lembranças falhas e com muitas expectativas. 

E nessa construção contínua muitas vezes deixamos o que se passa na vida diária de lado. Deixamos de perceber coisas que talvez realmente importam. Coisas que podem ser doloridas, mas muitas vezes necessárias. É muito mais fácil e confortável viver em sonhos em que conservamos apenas as coisas boas, onde tudo está dado, pronto ali, só deixar-se levar e deleitar-se. A realidade não. É cheia de baixos, dificuldades, barreiras, empecilhos. Precisamos nos esforçar, brigar, lutar, perder e aceitar diversas coisas que não gostamos. É a vida real, dura, intransigente e mutante. E há muito prazer nela, porém é preciso ir atrás e não apenas fechar os olhos e curtir.

E parece que é só a realidade começar a aparecer um pouco intensa demais que já vejo aquela telinha pequena pipocar no canto esquerdo da tela...

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Contato

Céu carregado de nuvens pesadas. Leve frio e sentimento de nostalgia. O dia passa rapidamente. Houve tempo para tudo, inclusive para apenas gastá-lo. Há tempos não se via isso. Vontade de nada, apenas deixar tudo passar.

A ânsia de tudo logo acontecer dá uma pausa. O dia bucólico exige isso. Apenas esperar... por nada, só o dia acabar para outro recomeçar! 

Recolher-se e dentro de si e encontrar algo há muito tempo abandonado. O contato consigo mesmo, fragmentos da alma dispersos por ali. Não é felicidade, nem quer ser. Apenas viver um momento qualquer, que por ser assim, engrandece-se.

A vida cotidiana pode ser muito boa, desde que deixe-a ser. 

Trilha Sonora: Band of Horses, álbum "Infinite Arms".