quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Luto

Quando irei acordar deste pesadelo? Que pesadelo? 
Minha vida. Não sei se quero acordar e aceitar o que aconteceu. Ainda ouço os gritos.
Ando por ai a procura de alguém. Um abraço. Ela vai aparecer. Ando. Novamente.

O que está havendo com minha memória? Por que não lembro o seu rosto? Lembro de sua mão tocando minha face. E só... mas não esqueço do buraco. Seu corpo descendo. Eu querendo atirar-me. Meu pai segurou. Aquele desgraçado. Tenho raiva dele por isso, por permitir eu viver neste pesadelo. Eu só queria o fim.

Vejo pessoas por ai. Encontro muitas mulheres. Mas por que não ela? A única que quero encontrar. Não tenho mais ninguém. Só tinha ela. Todos esses ao meu redor não são minha família. São sombras, e a única sombra que gostaria de ver, não vejo. 

Acordo em lágrimas. Gritos, flores, chuva. A cena não pára de passar. Como num videotape. Ela está lá: linda, dançando pelo salão, sorrindo para os convidados. Cortamos o bolo. As taças de champagne. A promessa de que sempre estaríamos juntos. Ela mentiu! Peraí, foi eu que a enterrei, estou lembrando agora. Sou eu o culpado! Eu a matei. Não, é mais uma cena errada.

Todos desistiram de mim. Ficou apenas minha dor. Não cabia mais ninguém. Eu, minha dor e este videotape.

Trilha Sonora: Radiohead - "Videotape"; "All I Need" (do álbum "[2007] In Rainbows")

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Little Girl Blue




"I want you to count, oh, count your fingers,
Ah, my unhappy, my unlucky
And my little, oh, girl blue.
I know you're unhappy,
Ooh ah, honey, I know,
Baby, I know, just how you feel".

"Little Girl Blue - Janis Joplin"






Ela sonhava  com o amor perfeito. Tinha apenas 16. Tudo era novo e intenso. As vezes por demais. Sentia-se diferente. E embora isso seja algo que todo adolescente em algum momento já sentiu, com Flávia parecia um sentimento real demais . Não sabia explicar. Era uma apreensão estranha, uma sensação de não se encaixar a nada e de não pertencer a lugar algum. Não era apenas uma época de maturação e uma fase de transição. Era incompreensão. Total.

Suas amigas estranhavam quando sumia. Às vezes era por horas. Ficava à beira do rio, olhando fixadamente para o horizonte. Em sua mente fervilhavam idéias, sonhos e desejos. Um mundo todo a ser descoberto. Mas ao mesmo tempo tudo estagnava.

Não se dava com sua família. Os pais sempre fora. Um ou outro almoço de domingo. Suas amizades logo desistiram dela. Restava os cd's de Janis Joplin e uma garrafa de conhaque guardada debaixo da cama. Foram muitos sábados assim. O cigarro queimando entre os dedos. Estrelas a contar. Little Girl Blue...

Trilha Sonora: Janis Joplin "Little Girl Blue"; Legião Urbana "Depois das 6".

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Psicanálise I - ou o retorno do recalcado

É a castração. Mas é o desejo também. Desejo que pulsa - e o que faço com isso? Grande dilema. Andamos e desandamos, entre um e outro. Tão difícil encontrar este caminho. Onde começa um, e onde irá levar-me? Vou. Quero ir, simplesmente ir. Mas esbarro, tropeço, caio. Gosto de cair, mas não de levantar-me. Sei que preciso disso. Caído, desjuntado, não vou a lugar algum. Mas dói levantar, ver o erro, ou melhor, dói não querer ver o erro. Aquilo que me derruba pode fortalecer-me. Mas por que então evito tanto?

O caminho livre, tão sonhado e procurado. Não se quer os obstáculos. Mas eles estão lá, quase sempre parados. Às vezes são tão dinâmicos que não os visualizamos. Mas quase sempre estão ali, a nossa frente, esperando para cairmos. Se sabemos que são assim, para que evitar? 

Somente quero ir, assim, do meu jeito. Procuro isso. Vivo buscando isso. Parece tão distante... Mesmo assim só quero ir. Quero meu caminho e ele só me escapa. Mesmo assim quero. Desejo. É frustração, e assim mesmo, desejo. Entre um e outro, construo minha via, talvez uma via única, ou a única via que posso seguir. 

Trilha Sonora: Giancarlo Rufatto "Machismo" (álbum).

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

On the Road

"Out of gas
Out of road
Out of car
I don't know how I'm going to go and
I had a drink the other day

(...) You will come down soon too
You will come down too soon..."
(Modest Mouse: "Out of Gas")



"Na estrada. Apenas seguindo, rodando.
Eu sei o caminho onde irá dar.
Escolhi isto.
Mas demora tanto a chegar..."


Sei que a graça de tudo está em "andar" e não em "chegar". Quando chegamos o caminho acaba. O objetivo é cumprido. Fim. Passamos a outro destino então. E a vida vai indo assim, sempre passageira, momentânea, pronta a apontar novos desafios.

Mas e quando este fim começa a se tornar longínquo, e a espera de realizar se prolonga demais? Sei que isso tem a ver com a velha questão de viver o presente que tanto indaguei. Tem-se uma sensação de que nada saí do lugar. Estamos rodando sim, rodando e rodando. A paisagem parece ser sempre a mesma. Talvez estamos em um deserto. Infinita highway...


É a ânsia pelo novo. A busca por algo que traga algum sentido. Como falei, sei que o sentido não está nos fins, mas nos meios. Está no próprio caminho. Já disseram para não se buscar a felicidade ou colocar a busca por um amor como objetivo, pois na fixação ou alienação da busca perde-se o essencial, que é justamente as idas e vindas, falhas e acertos, dias bons, dias ruins.


Mas às vezes apenas se cansa. Desilusão. Há dias em que tudo tende a se prolongar. É a velha Espera. Tem que haver sentido maior que isso. Deve haver um lugar, um limbo, entre a espera e o fim, onde se encontre algo de concreto. Algo que fuja desta tortura imaginária que é a busca. 


É a vida on the road. Mas não é no sentido que Kerouac delirou tão fantasticamente. Ali o prazer era não ter rumo, pegar a primeira via que se apresentasse, nem a mais interessante, nem a melhor, apenas a que se oferecesse. Aqui falo de uma estrada só, longa, lenta, com poucas curvas e paisagens, praticamente sem fim. 


Trilha Sonora: Modest Mouse - "Out of Gas", "Trailer Trash" e "Bankrupt on Selling".

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

By Starlight - Smashing Pumpkins


By Starlight

By starlight I'll kiss you
And promise to be your one and only
I'll make you feel happy
And leave you to be lost in mine
And where will we go, what will we do?
Soon said I, will know
Dead eyes, are you just like me?
Cause her eyes were as vacant as the seas
Dead eyes, are you just like me?
And all along, we knew we'd carry on
Just to belong
By starlight I know you
As lovely as a wish granted true
My life has been empty, my life has been untrue
And does she really know, who I really am?
Does she really know me at last
Dead eyes, are you just like me?

Sob a Luz da Estrela

Sob a luz da estrela eu te beijarei
E prometo ser o seu primeiro e único
Eu farei você se sentir feliz
E deixarei você se perder em mim
E aonde nós iremos, o que nós vamos fazer?
Logo que dizer, saberás
Olhos mortos, vocês são simplesmente como eu?
Porque os olhos dela eram tão vagos como os mares
Olhos mortos, vocês são simplesmente como eu?
E ao longo de tudo nós soubemos que continuaríamos
Somente para pertencer
Sob a luz da estrela eu conheçerei você
Tão amavelmente como um desejo concedido.
Minha vida foi vazia, minha vida foi ilusão
E ela realmente sabe quem eu realmente sou?
Ela realmente me conhece ao menos
Olhos mortos, vocês são simplesmente como eu?