terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Retorno

Tentar um reencontro. Uma volta à algo tão próximo e que por um tempo se perdeu. Um retorno ao Eu. O fluxo de consciência não funciona mais. Um esforço para que as palavras simplesmente surjam. Cada movimento é contido, pensado, se busca uma pretensa fluidez no discurso. Soa falso. A tensão aumenta ao tentar forçar o sentido. Por muito tempo eu quis fugir disso. Cada vez fica mais dificil se aproximar do afeto. A alienação é facilmente buscada e tomada por ela, tudo parece simples. Após ter se entregado ao nada e ser tomado por um sentido de perdição, fico tentando retornar. Uma volta a si mesmo, ao o que eu imagino ser esse Eu-mesmo. E isto é tão dificil. Tão facil somente deixar-se ao nada. A imagem da ilha não sai da minha cabeça, e até agora tento achar sentido e palavras para compreender o que se passou. É a realidade, é a ela que procuro, justamente de onde eu quis fugir e que agora não posso mais.

Trilha Sonora: Yann Tiersen & Shannon Wright, "Dried Sea"; Yann Tiersen, "Rue des Cascades/Le Parade".

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A Long Time Ago...

lembro me agora de minha adolescência perdida. de todas as vezes que vaguei por ai. da minha alma clamando por liberdade. e todas as bebedeiras sem propósito. nunca entendi o que realmente eu queria com a liberdade. sempre utópica, hoje permanece assim, distante. libertar-se de si, que porra é essa quando se tem 13 ANOS? toda essa merda que circula hoje entre o "ser jovem" já existia. na minha pobre incopreensão aquilo não era vida. hoje a glorificação do eterno ser jovem.
que porra era aquela? a vida passava como um filme p/b, algo que hoje não se sabe o que significa. tudo se foi e esvanesceu como um simples bater de asas de uma borboleta... metáfora recente de uma teoria do caos. a vida adulta não se concretizou. os velhos anseios permanecem. aquele momento que se espera que um dia aconteça e que tudo irá se concretizar, continua. o velho cigarrinho. a bera entorpecendo os sentidos, tudo isso permanece. os velhos amigos que se foram. uns encontraram seu rumo, outros estão na procura ainda. mas todos embarcaram nesse rumo sem fim, nessa estrada nebulosa que separa o passado do agora.
aquele velho sonho do prazer a qualquer custo torna-se obscuro. tudo é tão regrado agora. tudo é tão disperso e confuso.
saudades dos tempos de algazarra e loucuras sem preocupação. isso não existe mais, e nem deve-se cogitar sua volta. só eu estou nessa, e nem procuro a nostalgia. somente fico aqui a relembrá-la. bons tempos de doideira. tudo é tão careta nesses tempos neo-globais. fantasmas ressurgem em busca de uma brecha que ficou perdida em tempos remotos e antes inimagináveis. o mundo rodou, os personagens assumiram outros papéis que parecem agora falsos. busca por aquilo que se perdeu numa época em que não se buscava nada, e agora tenta-se recuperar. pobre ilusão. pobre rapaz querendo viver em outros tempos com referenciais antigos.
mas tudo era tão bom. e agora por que não? tirando a minha solidão, por que não?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Marasmo

marasmo. dias e dias passados em vão. espiríto embotado. dias cinzentos desperdiçados. há muito não se produz nada. não há contemplação alguma neste ócio maldito. a alma vagueia em um estado que lembra o purgatório: não caí-se, não levanta-se, não ruma a outro ponto qualquer. permanece-se imutável.
"now the drugs don't work, they just make you worse, but I know I'll see your face again"
preâmbulo de uma nova passagem? estado submerso antes da emersão total? não. tudo parece simplesmente permanecer parado. não há vontade de mudar isso. não há um incomodo que ultrapasse o limiar de "mudanças necessárias urgentes". contente com o prazer barato rapidamente conseguido, tudo tende a cada vez mais ser banal. o fundo do poço está distante, e não há motivos aparentes para procurar tal saída.
a mente está estagnada. nada de vivo ou de novo surge. o horizonte tem a mesma cor todos os dias. o ambiente não mais exerce alguma influência. apela-se ao Radiohead, só assim atinge-se o ponto que o arranca do limiar: a dor que nunca se pode sentir. sem dor não há movimento. sem a angústia, motor nervoso da ação, não há nada. este combustível tão essencial está cada vez mais escasso. a porca mal-dita pós-modernidade tem vencido.
"tudo que é longo e profundo se desmancha no ar"
não há mais o sufoco, a falta de ar. há uma falsa liberdade, uma sensação de extrema neutralidade. vive-se por viver, o sentido cada vez mais distante. significantes e mais significantes. a busca pela vida está cada vez mais longe. a entrega à fantasia é constante. mundo virtual, vida sensorial. subjetividades suprimidas. está cada vez mais difícil ser neurótico em paz.
"let down and hang around. crushed like a bug on ground"
a saída agora? tentativas de se recompor, de buscar a si mesmo em um universo homogêneo e líquido, onde tudo tende a se misturar e a diluir todo e qualquer novo elemento. remontar a imagem do espelho está quase impossível.
"Essa máquina não comunicará.
Aqueles pensamentos e a pressão a que estou submetido.
Será um mundo infantil, formará um círculo.
Antes que todos sucumbamos
E se desvanece de novo. E se desvanece de novo"
Trilha Sonora: Radiohead "Street Spirit (Fade Out)", "Let Down", "Exit Music (for a film)", "Piramid Song"; The Verve "The Drugs Don't Work".

sábado, 17 de maio de 2008

Onde?

Por que nossos caminhos não se encontram mais? Por que de repente, minha vida que era tão próxima de ti, se separou? Saio por ai querendo encontrar uma resposta, para uma questão que não consigo nominar. Será o mundo que mudou? Depois de tanto tempo, será ele mesmo que modificou tudo? Tantas questões, no lugar de onde só havia afirmações. Não havia certezas, disso todos sabem. Mas por quê de tantas dúvidas? Agora vago por ai, sem saber para onde andar. Já trilhei os caminhos mais estranhos, já tropecei em muitos buracos. E agora caio aqui? Aqui onde eu nunca imaginei cair, onde sempre me pareceu o porto seguro?
Onde tudo estava a ser construção, agora caminha a uma descontrução contínua. Eu não sou mais Eu, pois eramos metade. Reconhecemos que não passavamos disso distantes. E agora somos pedaços soltos por ai. Não sei mais onde catar o que restou, nem tentar montar outra imagem. Sou só a dor, em pedaços. A dor contigo era mais singela. Ela vinha em movimentos soltos e leves e quando eu tentava se erguer, você estava lá. Não era forte, nem capaz de tudo. Mas estava ali, onde nada havia. Onde tudo parecia ter desaparecido e a angústia iniciava a sofrer. Estava ali. E isso bastava. Bastava a tua presença. Como uma brisa que teme em surgir quando o calor sufoca. No aperto do meu peito, agora resta um pouco de ar, que se faz suficiente frente ao que não há.
Enquanto vago por ai, penso em ti, em tudo o que se passou. Onde errei, onde acertei ao errar. Onde minha pobre imaginação tenta recompor o que não pode ser reconstruído.
Naquele espaço que deixei aberto, e dali me perdi, tento buscar a solução, tendo em mente que ela não virá tão fácil. E prossigo, porque acredito. Acredito que não nos perdemos tanto, que estamos nadando muito próximos, porém, perdidos.
O silêncio que agora se faz aqui em tristeza, se tornará o recomeço de onde paramos. E de onde iremos retornar. Não será mais a mesma coisa, pois foi esta que nos matou. Será algo diferente, que espero retomar ao início, onde simplesmente duas almas se encontraram e disso fizeram uma só. Voltar a um tempo em que não pensavamos e que simplesmente contemplavamos um ao outro. Quando não nos davamos conta que a vida é simples, desde que permitessemos que ela seguisse o seu curso.
Em você pude ver minha alma. Agora nada.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Carta à Sonia nº 1

Curitiba, 20 de Setembro de 2001.

Há algum tempo eu não faço nada. Não produzo nada. Minha grana está acabando, e sinto que minha criação vai se esvaecendo. As palavras estão fugindo, as letras fragmentam-se. E minha alma segue o mesmo caminho: em pedaços, não sinto vontade de juntá-la.
Apesar de tudo meus dias passam rápidos. Acordo tarde, ligo a TV, fico fumando até a hora do almoço assistindo as piores merdas. Às vezes almoço, às vezes não. Saio caminhar à tarde e tudo me incomoda: o barulho dos carros; as pessoas neuróticas em suas vidinhas automáticas; a felicidade de uns, o rancor de outros; tudo me parece um tédio.
O pior é não conseguir escrever. Estagnação. Sinto-me amarrado, pesado, arrastando meu corpo pelas ruelas do Centro. Nem as putas me distraem mais. E não trata-se de simplesmente ficar paralisado. Faço um esforço tremendo, acordando cedo, começando a ler algo para inspirar-me , assistindo filmes, caminhando pelas ruas; tudo como sempre fiz, buscando forças no velho cotidiano, em tudo o que me cerca, o que me incomoda, o que me toca. Mas nada.
Eu sei que subestimei sua presença Sonia. Que as vezes tratei você como não merecia.
Longe de ti, me perdi. Afastei-me das pessoas, das coisas, do mundo. Perdi contacto com a realidade. Agora tudo é diferente. Lembra como eu ficava quando estava produzindo bem? Absorto, perdido dentro de mim, mas louco com aquilo, vibrando e sofrendo, gritando por dentro e me acabando. Mas vivendo, explodindo, deprimindo, dormindo. Gozando. Agora tudo parece estar perdido, insosso, sem graça. Perdi o tesão.
Não quero dizer com isso que foi sua saída que provocou tudo. Longe disso. Só queria contar-lhe como estou, como foi minha semana, assim como quando você aparecia por aqui conversar. E o pior é pensar que você deve estar se divertindo a beça onde quer que esteja. Te admiro muito por esta sua capacidade de curtir a vida, algo que nunca pude desenvolver. Sempre criei meus subterfúgios, minhas amarras, sempre restringi minha liberdade. Aprendi a viver em um túnel infinito, aberto somente acima, que me leva sempre adiante, mas que não permite ultrapassar suas paredes. Como um trilho que segue constantemente, sem chances de poder quebrar na primeira esquina. Já você escolheu o oposto: a liberdade desmedida, inconsequente e louca. Cruel quase sempre, feliz às vezes, mas sempre pronta a se renovar, a te jogar para lugares inimagináveis.
É minha amiga, somos muito diferentes e mesmo assim acabamos por juntar-nos em alguma centelha da vida onde somos iguais: seres perdidos, dentro de si, presos ou não, condenados ao um destino que escolhemos e sabemos dele muito bem. Talvez isso nos aproxime, talvez o nosso senso de não pertencimento a este mundo comum onde tudo funciona, onde todos supostamente se entendem e vivem suas vidas normais, virando às costas para toda a merda que nos cerca. Só sei que já sinto falta de sua acidez, de sua arrogância até - maravilhosamente dosada e ousada. E mais que tudo, sinto falta do único ser humano em que eu podia me encontrar, me ver e não me sentir "o estrangeiro".
Te cuida Sonia.
Beijos, Jonas
Trilha Sonora: Radiohead, "In Rainbows II" (2007); Mogwai, "Happy Songs for Happy People" (2003); Explosions in the Sky, "The Earth is not a Cold Dead Place" (2003); Interpol, "Turn the Lights Bright" (2002); Wilco, "Sky Blue Sky" (2007); Portishead, "Live in Roseland, NYC" (1998).