sexta-feira, 11 de junho de 2021

O Rato no Armário

Havia um rato em meu armário. Isso era somente um fato, que me conduziu à um dilema moral e existencial. 

A primeira vez que ele havia entrado, foi através de um espaço entre as portas, provavelmente atrás do saco de ração. Ao constatar a invasão e o surrupio da ração, retirei o saco do armário. Mas ainda havia como entrar lá. 

Em uma noite ouvi o larápio novamente dentro armário. E por uma curiosidade momentânea, resolvi testar o fechamento da porta - que eu acreditava não ser possível. Com um pequeno ajuste, as duas portas se fecharam. E o rato lá ficou. 

Passou-se dois dias e para a minha surpresa ouvi o rato novamente, roendo, de dentro do armário. Pensei que ele já havia conseguido escapar, afinal ratos sempre conseguem uma brecha, fazem um buraco e escapam. Mas não, o rato estava lá. 

Aí começou o meu dilema. Que logo se tornou um martírio. O rato conseguiria escapar do armário? O que fazer? Abrir as portas e tentar enfrentá-lo, sabendo que provavelmente ele fugiria rapidamente antes de eu conseguir golpeá-lo, abrindo a possibilidade de ele voltar a me atormentar? Deixá-lo ao desdém, passando fome e sede, propiciando uma morte lenta e agonizante?

No outro dia fiquei pensando o que fazer. No fundo eu queria que o rato saísse sozinho de lá. Seria a saída mais fácil: eu não o enfrentaria e nem saberia se ele iria voltar ou não. Talvez não, e tudo estaria resolvido. Mas se e ele voltasse? Ele já comeu a ração, encheu de fezes e urina por todo o armário. Ele era um inimigo a ser eliminado.

À noite, já um pouco embriagado, resolvi lhe dar uma chance. Abri as duas portas e saí por cerca de cinco minutos. Era sua única chance. Era como se Deus lhe estivesse dizendo: quer viver, saía agora. Voltei, fechei as portas. Passou-se alguns minutos, ouvi ele novamente roendo o fundo do armário, tentando sair.

Ele deveria estar cerca de quatro dias ali. Por quanto tempo um roedor sobrevive sem água e alimentação?  E o buraco no fundo, conseguiu fazer? Nos dias seguintes eu confesso que esqueci do rato. Não fui mais até o armário. Isso que fazemos quando temos um problema para resolver mas que não somos cobrados, ou que o próprio problema não se amplia ou manifesta-se silenciosamente.

Chegou o final de semana. E de repente me dei conta que talvez o meu problema ainda estivesse lá. Resolvido ou não. O rato estaria lá? Vivo ou morto? Escapou? Só havia uma forma de saber: abrir as portas e procurá-lo debaixo de diversos entulhos. Meu desejo era não encontrá-lo. Mas ele ainda estava lá.

Morto. Encolhido, quase em uma posição fetal, como estivesse procurado o modo mais confortável para esperar o seu destino final. E ali minha ficha caiu.

Covarde. Foi a primeira coisa que pensei e senti. O mais correto teria sido ter o enfrentado, tentado matá-lo e dar-lhe a chance de pelo ter uma morte digna. Ou de escapar, o que seria o mais provável. Seria um duelo com chances iguais. Mas não, preferi virar-lhe as costas, fingir que nada estava acontecendo, enquanto o pobre bicho definhou até a morte. Chegou-se ao resultado. Mas o pior possível.

Logo refleti que normalmente é o que fazemos diante de um problema que inicialmente não sabemos como solucioná-lo. Ou que temos medo.
Protelamos, prorrogamos, procrastinamos, esperando ele resolver-se sozinho, ou que alguém o resolva para nós. E fazemos isso achando ser o mais fácil e confortável.

No caso em tela, a saída mais correta, rápida e digna, era encará-lo de frente, ter ao menos tentado lutar e também ter dado chance ao inimigo, afinal ele fugir também poderia ser uma solução (ou não, ele poderia voltar).

Fiquei pensando em quantas vezes escolhi o caminho mais fácil e menos incomodativo. A tal "Zona de Conforto". De quantos duelos já fugi e o que talvez eu já perdi escolhendo apenas fechar os olhos e "esperar passar". Muitas dessas escolhas podem ter dado em nada, ou ter tido consequências ínfimas. Porém com certeza houveram tantas outras, que ao se escolher fugir do problema, acabei protelando um fim longo e agonizante.

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
(Preciso me Encontrar - Cartola)

domingo, 27 de setembro de 2020

Este texto não é sobre um adeus...

 "A única constante na vida é a mudança". Não sou adepto de frases motivacionais. Mas esta máxima resume a dinâmica da vida. Ela simplesmente deve acontecer, e para isso precisamos deixá-la seguir o seu rumo. 

Daqui há sete dias estarei retornado à Porto União. Essa semana foi intensa demais. Em meio à mudança de casa, uma pandemia em curso, dois filhos em quarentena, despedidas incompletas... 

Hoje deveria estar acontecendo uma festa daquelas no Bar do Vinil - cantinho que com tanto amor eu montei para ouvir meus discos, receber meus amigos e familiares e onde aconteceram festas legendárias! Mas devido a essa maldita pandemia não poderei me despedir da forma que mais gostaria: com festa, com todos ao redor da churrasqueira, risadas e alegria. A vida é uma festa! (assim descrevi um capítulo de minha dissertação).

Foram oito anos vivendo na querida Lapinha. Cidade que me acolheu de braços abertos quando cheguei. Lembro do primeiro passeio que fiz com a Hilda e o Floquinho (naquela época a nossa família tinha só três membros!), logo depois de terminada a nossa mudança. Era Festa de Santo Antônio e nos surpreendemos de estarmos morando ao lado da Praça onde ocorria.

O primeiro dia de trabalho no antigo Fórum. Eu sentia-me como um alienígena. Muitos se perguntavam o que um psicólogo estava fazendo ali. E foi ali que fui calorosamente recebido por muitos: a Gracia e sua família (que logo me convidou para a tradicional festa junina na chácara de seu pai), o Ivacir e sua simpatia contagiante, a Flavinha da qual a incubiram de me passar o que seria o trabalho (ela já era a referência de infância na Comarca). A Adri, a Daí, a Carla, o Fio, o Dr. Paulo (figura ímpar) e logo fiz um grande amigo, Rafael. Na sequencia vieram Ge, Juliana, Giovane, Dila. Todos amigos para uma vida (sinto não poder citar todos que fizeram parte dessa história).

Fui o primeiro psicólogo da Comarca e tive que começar do zero a construir um referencial e um norte para a atuação. Nesse início o pessoal do CREAS foram fundamentais: Liziane, Dika, João, Rosângela, Aracéli (e outros tantos) que me cederam uma sala para os atendimentos. Muito estudo, trabalho e quebrar a cabeça para fazer um novo serviço começar. Foram anos riquíssimos, experiências únicas.

Veio o Fórum novo. Lindo, duas salas enormes com ar condicionado (um luxo, como diria Dr. Paulo!). E eu sozinho ainda. Veio a Cristiane de Rio Negro, em um momento delicado de sua vida. Permuta com a Cintia e logo tínhamos uma equipe! (hoje completa com a chegada da Aline).

Nesse meio tempo organizei o fluxo de atendimento às vítima de violência sexual a partir do Protocolo de Contenda (que considero a grande realização do meu trabalho na Comarca da Lapa). Marilisa, Kelly, Pâmela, Ivan, Rubi, Cris e toda a Rede de Proteção de Contenda confiaram no meu trabalho de consultoria e hoje o Protocolo é Lei Municipal! 

Ao mesmo tempo que o trabalho foi se desenvolvendo e crescendo, fiz outros queridos amigos (Teko e Bel, Aleson, Nogueira, Alessandro, Wilian), colegas que passaram e se foram. Logo nossa família foi acolhida pelas famílias de nossos amigos . A Gabi nasceu e foi estudar no Educandário. Agora chegou o Luizinho. Ambos lapeanos. Criei raízes aqui das quais sempre retornarei para revê-las.

Essa é a minha terceira mudança. A primeira de Curitiba para União da Vitória foi simples e aliviante. Parti com meu Ford Ka e uma mala (cheia de ilusões, como na música dos Mutantes). Iniciei minha vida profissional lá e conheci a mulher de minha vida. 

Nossa segunda mudança não foi difícil. Já foi um caminhãozinho com algumas mobílias. Jovens, cheio de sonhos e planos, sem medo de viver a vida e construir uma história. E foi uma linda história aqui! Cheia de afeto, trabalho, alegrias e também perdas. Mas completa. Nossa família cresceu, nós envelhecemos um pouco e agora precisamos seguir.

Por isso essa terceira mudança não está sendo tão fácil. Em meio a uma pandemia, acelerada por questões de trabalho e com pequenas despedidas abruptas. Agora será um caminhão grande, quatro pessoas, dois cachorros e muita tralha! 

Gostaria de que essa mudança fosse com muitas festas, abraços, churrascos e muita cerveja! Mas terá que ser assim. O que não significa que não voltarei para fazer as festas após a pandemia (e arrumem lugar para isso meus amigos!).

Partiremos da querida Lapinha com os corações cheios de esperança e ao mesmo tempo já com muitas saudades de todos que aqui conhecemos e hoje amamos. Pessoas, histórias, lugares incríveis que aqui conhecemos. E voltaremos muitas vezes para nos reencontrar (assim como os quero em Porto União!).

Por isso que esse texto não é sobre um adeus, mas sobre um até logo... e muita gratidão!


Fuga nº. II (Os Mutantes)

Pôr-do-sol no Fórum da Lapa

Hoje eu vou fugir de casa
Vou levar a mala cheia de ilusão
Vou deixar alguma coisa velha
Esparramada toda pelo chão
Vou correr num automóvel enorme e forte
A sorte e a morte a esperar
Vultos altos e baixos
Que me assustavam só em olhar
Pra onde eu vou, ah
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou


terça-feira, 3 de setembro de 2019

A fuga - ou uma crônica da vida atual

Quando a vida liga o seu modo automático e o passar dos dias torna-se um continuum intercalado por pequenas quebras na rotina. Aquela sensação de estar apenas indo, deixando a vida te levar, sem saber ao certo onde irá dar. 
De repente, nesses intervalos, ter a sensação de que não há outro sentido além de tocar adiante. O tempo corre, e escorre pelas mãos. A fome de viver já não é mais a mesma, embora tente-se lutar todos os dias atrás dela. Onde ela estará?

Eu sei, é preciso matar um leão por dia. Começar tudo de novo a cada momento. Buscar saídas, modos de satisfação. O peso do mundo vai maltratando aos poucos, e tenta-se fugir (ou amenizá-lo) a todo momento.

Satisfações substitutivas, breves fugas da realidade. Tempo desperdiçado no mundo (imaginário) das redes sociais. Viver a vida dos outros. Sonhar com a vida dos outros, enquanto a sua é também emulada nos filtros de fotografia e stories previamente pensados.

Pequenos momentos de diversão planejada, retratados nos posts de viagem ou naquele restaurante estrelado do Tripadvisor  ganham o status de ápice da felicidade. É a recompensa por horas dedicadas e abdicadas devido ao trabalho e a vida frenética. Ilusões (des)necessárias.

O pior é olhar tudo isso e querer achar normal. Ver algum sentido além. E não há. Onde está a essência, se a existência à precede? Esse modo de existir seria o único possível agora?

Onde antes havia subterfúgios, fugas corporais e alguma contemplação, não há mais. Onde construir um novo sentido? A trilha sonora continua tocando, quase sempre presa ao passado. As vezes lutando para resignificar o agora.

Tempos sombrios. O mundo explode inflado pela irracionalidade e o culto à bestialidade. Nunca a ignorância ocupou tão bem um lugar de defesa frente ao absurdo. Acreditar em tudo o que se quer acreditar, menos no real.

As pessoas estão deprimidas por não conseguir (ou querer) sentir. Aí só resta fugir.

Trilha Sonora: 'Without You I'm Nothing (Álbum)" - Placebo.

domingo, 18 de agosto de 2019

Dia de Chuva

Resultado de imagem para sergio reis vol. 2"Nestes verso tão singelo
Minha bela, meu amor
Pra você quero contar
O meu sofrer e a minha dor
Eu sou quem nem o sabiá
Quando canta é só tristeza
Desde o gaio onde ele está

Nesta viola eu canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade"

(Tristeza do Jeca - Tonico e Tinoco)



Amanheceu chovendo na chácara. Poderia ser frustrante para uma criança de sete anos, em férias, solto em volta de toda aquela mata de Morretes. Mas eu adorava os dias de chuva. Aliás, desde então eu adoro dias de chuva. 

Quando eu ouvia as primeiras gotas durante a madrugada, eu já sabia. Seria um dia de chuva. Acordava com aquele cheiro gostoso de chuva, de mato molhado, das laranjeiras e limoeiros. A Vó já estava preparando algo para o almoço. Na vitrola tocava Sérgio Reis, Dilarmando Reis, Almir Sater e Cascatinha e Inhana.

Por um longo tempo eu ignorei essas músicas. Mas desde que a Vó se foi, e Morretes se perdeu, toda a vez que ouço cada acorde, é uma emoção que vem novamente à tona. À tarde a Vó ouvia rancheiras. De noite era Ópera. O Vô tinha uma boa definição para músicas mais introspectivas e reflexivas: "é música de chuva".

À tarde, depois do almoço, a Vó se sentava ao lado do som e ficava ouvindo e contemplando a música. Foi com ela e com o pai que eu aprendi a apreciar música. Não basta ligar qualquer música e deixar de fundo. É preciso parar, contemplar, apreciar cada acorde. E as músicas sertanejas que a Vó ouvia não podiam ter sentindo melhor. 

Era o mato molhado. O som alto e calmo com aquelas canções pantaneiras. Eram as crianças mais calmas e tranquilas. Era aquela infância livre e doce que não volta mais. Era dia de inventar uma brincadeira dentro de casa. Poderia ser uma nave intergalática feita em cima da cama. Um navio à deriva pelo oceano. Meus avós, os cachorros, o mato e nada mais....

Trilha Sonora: Sérgio Reis, Vol. 2.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

A Casinha Verde

Para Zenilda Felsinger,


Foi lá naquela casinha verde, situada no Jardim Bela Vista, em Porto União-SC, que eu conheci a Dona Ida. Eu lembro bem até hoje. Eu trazia a Hilda de volta para casa após nossos primeiros encontros. Desde a primeira vez ela perguntava: "quer descer, conhecer meus pais?". Na primeira vez eu recusei. Na segunda senti que aquela história ia desenrolar, e muito ainda. "Sim".

O Seu Hugo fez um interrogatório digno de um policial, como eu esperava que seria. Estava preocupado com quem a filha dele estava saindo. A Ida era só sorrisos, como sempre foi comigo. Foram umas duas horas de papo e chimarrão. E aquela altura, eu já me sentia membro da família.

Foi assim que ela sempre me tratou. Do primeiro minuto ao último. Como um filho, alguém muito próximo.

Eu não tinha como não gostar da Ida. Ela era uma outsider como eu. Alguém que simplesmente se negava a enquadrar-se em uma sociedade tão quadrada e pronta. Ela era do jeito que era. E não dava a mínima para quem não a aceitava.

A Casinha Verde era o tesouro da Dona Ida. Era lá que ela guardava tudo o que achava e considerava belo. Para aqueles que não conhecem o mundo de um acumulador, tudo aquilo que eles guardam tem um significado. Pode ser uma simples embalagem de um sorvete, uma caixa vazia de bombom. Para eles, esta é a lembrança física de algo muito bom e que eles gostariam de guardar como memória. O acumulador ergue barreiras de coisas para tentar ocultar uma dor. Uma dor que possivelmente você também não seria capaz de sentir.

Havia atrás de todos aqueles sorrisos lindos da Ida uma tristeza. Uma tristeza que talvez nós não sejamos capaz de desvendar. Algo que sua doçura e paz ocultavam. A dor do mundo.

Eu que nunca me achei melhor que ninguém, via uma identificação direta com a Ida. Ela sabia das coisas. Ela era muito inteligente, e quem não percebia isso não a conhecia. Toda a vez que a Hilda falava da sua dor de estar longe de sua família, vivendo comigo e Gabi na Lapa, a Ida sempre amenizava: "é a sua vida minha filha. A vida que você escolheu com o seu marido. Você está bem na Lapa".

Eu nunca pude perceber um pensamento negativo se quer na Ida. Ela vivia a vida intensamente, sem bloqueios, sem receios, sem qualquer pudor quanto ao que os outros pensavam sobre ela. E muitos não a compreendiam por ela ser assim. Eu a admirava. Era assim que eu queria ser. E foi assim que eu apreendi com ela como encarar a vida. Sem portas, sem medo de ser feliz.

Naquela tarde de dezembro de 2018, quando eu voltei à Casinha Verde depois de tanto tempo, eu desabei. Seu Hugo havia feito praticamente um santuário. Na parede vários quadros com fotos da Ida desde os 15 anos. Fotos da Cristina, da Hilda, pequenininhas. Momentos sagrados de uma família feliz. Eu vendo tudo aquilo, em tão pouco tempo após sua morte, tive que sair. E rodei pelo bairro do Santa Rosa por alguns minutos até me recompor.

Sim, foi naquela Casinha Verde que uma família construiu sua vida. Foi ali que eu tive a honra de ser aceito como membro dessa mesma família. Foi ali que Ida viveu seus últimos anos. E ali ela deixou sua marca, sua história, sua vida. Saudades.

Trilha Sonora: Black Rebel Motorcycle Club: "Lose Yourself", "Sweet Feeling".