Protelamos, prorrogamos, procrastinamos, esperando ele resolver-se sozinho, ou que alguém o resolva para nós. E fazemos isso achando ser o mais fácil e confortável.
Eu já fui personagem. Eu já fui real. Hoje estou no caminho entre um e outro. Espaço para devaneios, reflexões, impressões subjetivas, construções meta-teóricas ou apenas uma forma de se aproximar do Real... ou de fugir dele. Literatura outsider, música e paixões.
sexta-feira, 11 de junho de 2021
O Rato no Armário
Protelamos, prorrogamos, procrastinamos, esperando ele resolver-se sozinho, ou que alguém o resolva para nós. E fazemos isso achando ser o mais fácil e confortável.
domingo, 27 de setembro de 2020
Este texto não é sobre um adeus...
"A única constante na vida é a mudança". Não sou adepto de frases motivacionais. Mas esta máxima resume a dinâmica da vida. Ela simplesmente deve acontecer, e para isso precisamos deixá-la seguir o seu rumo.
Daqui há sete dias estarei retornado à Porto União. Essa semana foi intensa demais. Em meio à mudança de casa, uma pandemia em curso, dois filhos em quarentena, despedidas incompletas...
Hoje deveria estar acontecendo uma festa daquelas no Bar do Vinil - cantinho que com tanto amor eu montei para ouvir meus discos, receber meus amigos e familiares e onde aconteceram festas legendárias! Mas devido a essa maldita pandemia não poderei me despedir da forma que mais gostaria: com festa, com todos ao redor da churrasqueira, risadas e alegria. A vida é uma festa! (assim descrevi um capítulo de minha dissertação).
Foram oito anos vivendo na querida Lapinha. Cidade que me acolheu de braços abertos quando cheguei. Lembro do primeiro passeio que fiz com a Hilda e o Floquinho (naquela época a nossa família tinha só três membros!), logo depois de terminada a nossa mudança. Era Festa de Santo Antônio e nos surpreendemos de estarmos morando ao lado da Praça onde ocorria.
O primeiro dia de trabalho no antigo Fórum. Eu sentia-me como um alienígena. Muitos se perguntavam o que um psicólogo estava fazendo ali. E foi ali que fui calorosamente recebido por muitos: a Gracia e sua família (que logo me convidou para a tradicional festa junina na chácara de seu pai), o Ivacir e sua simpatia contagiante, a Flavinha da qual a incubiram de me passar o que seria o trabalho (ela já era a referência de infância na Comarca). A Adri, a Daí, a Carla, o Fio, o Dr. Paulo (figura ímpar) e logo fiz um grande amigo, Rafael. Na sequencia vieram Ge, Juliana, Giovane, Dila. Todos amigos para uma vida (sinto não poder citar todos que fizeram parte dessa história).
Fui o primeiro psicólogo da Comarca e tive que começar do zero a construir um referencial e um norte para a atuação. Nesse início o pessoal do CREAS foram fundamentais: Liziane, Dika, João, Rosângela, Aracéli (e outros tantos) que me cederam uma sala para os atendimentos. Muito estudo, trabalho e quebrar a cabeça para fazer um novo serviço começar. Foram anos riquíssimos, experiências únicas.
Veio o Fórum novo. Lindo, duas salas enormes com ar condicionado (um luxo, como diria Dr. Paulo!). E eu sozinho ainda. Veio a Cristiane de Rio Negro, em um momento delicado de sua vida. Permuta com a Cintia e logo tínhamos uma equipe! (hoje completa com a chegada da Aline).
Nesse meio tempo organizei o fluxo de atendimento às vítima de violência sexual a partir do Protocolo de Contenda (que considero a grande realização do meu trabalho na Comarca da Lapa). Marilisa, Kelly, Pâmela, Ivan, Rubi, Cris e toda a Rede de Proteção de Contenda confiaram no meu trabalho de consultoria e hoje o Protocolo é Lei Municipal!
Ao mesmo tempo que o trabalho foi se desenvolvendo e crescendo, fiz outros queridos amigos (Teko e Bel, Aleson, Nogueira, Alessandro, Wilian), colegas que passaram e se foram. Logo nossa família foi acolhida pelas famílias de nossos amigos . A Gabi nasceu e foi estudar no Educandário. Agora chegou o Luizinho. Ambos lapeanos. Criei raízes aqui das quais sempre retornarei para revê-las.
Essa é a minha terceira mudança. A primeira de Curitiba para União da Vitória foi simples e aliviante. Parti com meu Ford Ka e uma mala (cheia de ilusões, como na música dos Mutantes). Iniciei minha vida profissional lá e conheci a mulher de minha vida.
Nossa segunda mudança não foi difícil. Já foi um caminhãozinho com algumas mobílias. Jovens, cheio de sonhos e planos, sem medo de viver a vida e construir uma história. E foi uma linda história aqui! Cheia de afeto, trabalho, alegrias e também perdas. Mas completa. Nossa família cresceu, nós envelhecemos um pouco e agora precisamos seguir.
Por isso essa terceira mudança não está sendo tão fácil. Em meio a uma pandemia, acelerada por questões de trabalho e com pequenas despedidas abruptas. Agora será um caminhão grande, quatro pessoas, dois cachorros e muita tralha!
Gostaria de que essa mudança fosse com muitas festas, abraços, churrascos e muita cerveja! Mas terá que ser assim. O que não significa que não voltarei para fazer as festas após a pandemia (e arrumem lugar para isso meus amigos!).
Partiremos da querida Lapinha com os corações cheios de esperança e ao mesmo tempo já com muitas saudades de todos que aqui conhecemos e hoje amamos. Pessoas, histórias, lugares incríveis que aqui conhecemos. E voltaremos muitas vezes para nos reencontrar (assim como os quero em Porto União!).
Por isso que esse texto não é sobre um adeus, mas sobre um até logo... e muita gratidão!
Fuga nº. II (Os Mutantes)
![]() |
| Pôr-do-sol no Fórum da Lapa |
Hoje eu vou fugir de casa
Vou levar a mala cheia de ilusão
Vou deixar alguma coisa velha
Esparramada toda pelo chão
Vou correr num automóvel enorme e forte
A sorte e a morte a esperar
Vultos altos e baixos
Que me assustavam só em olhar
Pra onde eu vou, ah
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou
terça-feira, 3 de setembro de 2019
A fuga - ou uma crônica da vida atual
domingo, 18 de agosto de 2019
Dia de Chuva
domingo, 17 de fevereiro de 2019
A Casinha Verde
Foi lá naquela casinha verde, situada no Jardim Bela Vista, em Porto União-SC, que eu conheci a Dona Ida. Eu lembro bem até hoje. Eu trazia a Hilda de volta para casa após nossos primeiros encontros. Desde a primeira vez ela perguntava: "quer descer, conhecer meus pais?". Na primeira vez eu recusei. Na segunda senti que aquela história ia desenrolar, e muito ainda. "Sim".
O Seu Hugo fez um interrogatório digno de um policial, como eu esperava que seria. Estava preocupado com quem a filha dele estava saindo. A Ida era só sorrisos, como sempre foi comigo. Foram umas duas horas de papo e chimarrão. E aquela altura, eu já me sentia membro da família.
Foi assim que ela sempre me tratou. Do primeiro minuto ao último. Como um filho, alguém muito próximo.
Eu não tinha como não gostar da Ida. Ela era uma outsider como eu. Alguém que simplesmente se negava a enquadrar-se em uma sociedade tão quadrada e pronta. Ela era do jeito que era. E não dava a mínima para quem não a aceitava.
A Casinha Verde era o tesouro da Dona Ida. Era lá que ela guardava tudo o que achava e considerava belo. Para aqueles que não conhecem o mundo de um acumulador, tudo aquilo que eles guardam tem um significado. Pode ser uma simples embalagem de um sorvete, uma caixa vazia de bombom. Para eles, esta é a lembrança física de algo muito bom e que eles gostariam de guardar como memória. O acumulador ergue barreiras de coisas para tentar ocultar uma dor. Uma dor que possivelmente você também não seria capaz de sentir.
Havia atrás de todos aqueles sorrisos lindos da Ida uma tristeza. Uma tristeza que talvez nós não sejamos capaz de desvendar. Algo que sua doçura e paz ocultavam. A dor do mundo.
Eu que nunca me achei melhor que ninguém, via uma identificação direta com a Ida. Ela sabia das coisas. Ela era muito inteligente, e quem não percebia isso não a conhecia. Toda a vez que a Hilda falava da sua dor de estar longe de sua família, vivendo comigo e Gabi na Lapa, a Ida sempre amenizava: "é a sua vida minha filha. A vida que você escolheu com o seu marido. Você está bem na Lapa".
Eu nunca pude perceber um pensamento negativo se quer na Ida. Ela vivia a vida intensamente, sem bloqueios, sem receios, sem qualquer pudor quanto ao que os outros pensavam sobre ela. E muitos não a compreendiam por ela ser assim. Eu a admirava. Era assim que eu queria ser. E foi assim que eu apreendi com ela como encarar a vida. Sem portas, sem medo de ser feliz.
Naquela tarde de dezembro de 2018, quando eu voltei à Casinha Verde depois de tanto tempo, eu desabei. Seu Hugo havia feito praticamente um santuário. Na parede vários quadros com fotos da Ida desde os 15 anos. Fotos da Cristina, da Hilda, pequenininhas. Momentos sagrados de uma família feliz. Eu vendo tudo aquilo, em tão pouco tempo após sua morte, tive que sair. E rodei pelo bairro do Santa Rosa por alguns minutos até me recompor.
Sim, foi naquela Casinha Verde que uma família construiu sua vida. Foi ali que eu tive a honra de ser aceito como membro dessa mesma família. Foi ali que Ida viveu seus últimos anos. E ali ela deixou sua marca, sua história, sua vida. Saudades.
Trilha Sonora: Black Rebel Motorcycle Club: "Lose Yourself", "Sweet Feeling".




