quinta-feira, 7 de março de 2013

Desconectado

Trilha Sonora para este post:
Olhar para si mesmo e achar que algo está errado. 
Sempre falta. Ou transborda. 
Encontrar o tal “equilíbrio”, a homeostase.

Preso entre o desejo e a censura. 
Quero! Posso?
Onde e como?

Sair da zona de conforto e enfrentar a imprevisibilidade do devir. 
Isso pode significar perder o que já se conquistou.
Ou não.

O que mata mesmo é o imaginar. 
É bom sonhar, projetar, deixar-se entregue aos devaneios.
Mas e a realidade? Enquanto eu sonho a vida acontece.
E a perco, o tempo todo.

Onde eu estava quando aqui tudo acontecia?

Sobra-me o passado a analisar. O futuro a criar.
E o presente? Por que nunca o alcanço?

Quem é esse Outro que tanto me demanda?
Por que o encontro com o outro me choca? 
Qual o seu desejo?
Não me vejo e tento reconhecer-me.

Desconectado.

Queria apenas viver como tudo se é.

Trilha Sonora: “Faust Arp”, “Reckoner” e “Nice Dream” – Radiohead; “Life on Rain” – Remy Zero.

segunda-feira, 4 de março de 2013

[Série Psicanálise] Alma Melancólica


"The Murderess" (1906) - Edvard Munch

Trilha Sonora para este post: Can't Stop by Elbow on Grooveshark



Tem dias por mais que estejamos bem, dispostos e até alegres, somos tomados de repente por uma sombra. Podem ser sentimentos nostálgicos, certa introspecção ou apenas uma mudança repentina de humor e sensações. Às vezes é uma música que ouvimos que nos remete a um passado que já algum tempo não tomamos contato, e que talvez tenhamos tentado esquecer ou afastá-lo, mas, que mesmo assim, ele insiste em retornar. Ou um flash contendo imagens e sensações que surgem do nada em nossa consciência, deixando-nos assim, meio parados, com o pensamento distante.

Já cheguei a conclusão que existem pessoas, que como eu, tem uma “alma melancólica”, e isso muitas vezes faz muito sentido. Quando penso no mundo de hoje, com seu imediatismo, superficialidade e excesso de informação, vejo-me deslocado, como se vivesse em outro tempo. Tento adaptar-me ao tal ritmo e as diferentes configurações atuais, mas parece que sempre chega uma hora em que falho, penso comigo mesmo: “eu não sou assim, não consigo ser desse jeito”, e então sinto culpa e logo em seguida uma certa tristeza por “ter falhado”.

Quando reflito (a reflexão, outra ação que os habitantes na vida atual tentam desprezar ou ignorar) sobre o porquê desse sentimento, percebo que não há nada de errado em sentir-me assim, que a “tristeza” (seria a angústia o termo mais correto) é condicionante humana e que os tempos modernos tendem  a querer eliminá-la de qualquer forma, e sabemos, ela irá retornar, de alguna forma, talvez como sintoma ( como depressão, ansiedade, fobias e pânico, p. ex.).

Então penso que minha angústia é “sadia”, no sentido de que não quero abrir mão de um sentimento que é o que me faz humano, na medida em que ainda tento sentir e viver este mundo da forma como ele é: imperfeito e incerto, e que uma hora ou outra irei falhar, ou não conseguirei “acompanhar” o ritmo da “carruagem”, e então “cairei”, e por que não, levantarei meio “ralado” e começarei tudo de novo! É assim que as coisas são e livrar-me desta tristeza fará com que eu deixe de realmente vivenciar a complexidade que é esta experiência de existir.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

[Conto] A paixão-droga

Não consigo descrever o que senti naquele momento. Foi uma chance, apenas uma. E fugi. Talvez isso já tenha começado da primeira vez que a vi sentada naquele sofá. As pernas dobradas, cabelos longos e soltos, um olhar lânguido e sorriso dissimulado. Pareceu uma cena de filme: eu entrando, meio que perdido sem ter onde ir, esperando encontrar algum conhecido para sentir-me mais familiarizado com o ambiente, e dou de cara com toda aquela beleza esparramada pelo sofá. Dei um “oi” tímido, quase que as palavras não saem da minha boca. Ela voltou o olhar para mim e retribuiu com um “olá” firme e um sorriso que encheu a sala. Tremi, suei frio. E agora?

Fiz de  conta que procurava alguém que não achei e sai da sala. Demorei uns dez minutos para recompor-me e entender minha atitude. Depois daquele “encontro” relâmpago ela tornou-se meu amor platônico, minha “musa imaginária”. Nunca interpretei aquele “oi” sexy como algo concreto. Para minha ingenuidade juvenil ela era assim, sempre simpática com todos. Muito tempo depois pude compreender que ali havia uma brecha e que meu “platonismo” poderia tornar-se algo real. Porém emocionalmente eu era muito imaturo. Era alguém incapaz de acreditar que uma garota como aquela iria querer alguém como eu. Tinha uma autoimagem degenerativa e muito deturpada. Resultado de uma série de perdas e fracassos que minaram minha autoestima.

Mas eis que um dia, quase um ano após essa primeira vez em que nos esbarramos, encontro minha musa em uma festa. Ela já de cabelos mais curtos e um visual “cult”. Por que além de linda e sexy ela era uma intelectual. O que fazia com que eu tremesse mais ainda perto de sua presença. Toda minha inteligência e saber acadêmico – que talvez fosse minha maior qualidade – sumiam perto dela. Porém aquele dia tudo foi diferente.

 Quando chegamos, eu mais meus amigos junkies (só andava com as piores espécies), a festa estava um “porre” (no mau sentido). Quero dizer, todos estavam extremamente comportados e civilizados, “bebendo socialmente” e conversando como legítimos acadêmicos que receberam uma educação primorosa. Logo fomos fazendo jarras de bebidas realmente alcóolicas e distribuindo pela festa. Uma mesa de baralho foi acionada e a gritaria do Truco começou. Rock n’roll na vitrola e agora estávamos em uma legítima festa universitária. Não demorou uma hora para o ambiente virar de ponta cabeça. Todos conversando - praticamente gritando, alguns copos e pratos quebrando e aquela louca euforia juvenil. Alguém teve a ideia de fazermos um baile, e por aquelas horas, um baile no mínimo freak. Após as danças mais bizarras e as músicas mais agitadas, começou o mela-cueca. Casaizinhos colados mais se esfregando do que dançando, assim como nos bailinhos que nossos pais faziam pelos anos 70. Logo trocavam o meio do salão para os cantos e paredes mais escuras.

Eis que retiro minha musa para dançar. Para mim, na minha “cabacisse”, seria apenas uma chance de chegar perto de meu objeto de desejo, que até aquele momento existia somente em minha imaginação e sonhos. Era a “chance” de tocá-la, sentir seu calor e perfume. E foi muito mais do que minha vã imaginação poderia criar. Foram minutos mágicos, de uma intensidade inebriante. De repente tudo sumiu naquele salão. Eu não estava mais em uma festa com outras tantas pessoas bêbadas. Era eu e minha deusa flutuando em um limbo temporário. Para mim esta dança bastava, era muito mais do que eu imaginava um dia desfrutar.  Mas foi além. Quando consegui olhar em seu rosto e ver aqueles olhos amendoados fitando-me, entrei em êxtase, minha consciência sumiu e quando me dei conta do que estava acontecendo, ela beijou-me loucamente. Além de linda, sexy, inteligente, era devassa. Enlouqueci enquanto ela praticamente engolia-me num beijo ensandecido. Nossos corpos fundiram-se em pleno salão.

Depois daquela reação química explosiva, inexplicável, sentamos e conversamos muito. Sobre tudo. E cada palavra que saia daquela linda boca se tornava poesia, fascinava pela forma como se articulava, como seu pensamento era vivo e perspicaz. Havia senso crítico ali, bom humor e nenhuma vaidade. Ela era assim, não forçava ser outra coisa, parecer diferente ou impressionar. A sedução estava em seu sangue, em cada pedaço de seu corpo e em cada gesto, olhar ou ação. Ou era apenas meu deslumbramento que atingia níveis inimagináveis.

E foi ai que me perdi. Cheguei onde imaginava nunca chegar. Experimentei a droga mais potente que há em nossa civilização judaico-cristã: a paixão romântica. A paixão-droga, aquela que repentinamente te tira da realidade e proporciona prazeres intensos e voláteis, que causa uma abstinência terrível ao faltar. Por minutos é como se tudo fizesse sentido, toda a angústia e dores do mundo sumissem. Você projeta um futuro sem sofrimento só pela presença de seu objeto. Sua ausência causa terror e sua proximidade pânico. Neste caso ausência significaria rejeição. “Estávamos bêbados, e se ela não quiser mais?”. Este pensamento colocava-me em pavor. Como chegar perto novamente? O que fazer?

No outro dia minha vontade era correr, sumir, ficar longe daquela substância tão poderosa que fez meu mundo desaparecer. Fez esquecer por minutos quem eu era e o que fazia ali. Por um instante desapareceu o menino tímido e fechado, porém sem a droga, tudo voltaria novamente: a dificuldade em relacionar-se, em exprimir o que queria e sentia, a falta de iniciativa e melancolia. Eu precisaria daquelas sensações novamente para achar que eu era normal, que era extremamente confiante e sedutor. Ao lado dela eu seria um super-homem, o “cara”, e conseguiria tudo o que desejasse. Teria forças para enfrentar o mundo e todas suas adversidades. Teria planos, realizaria sonhos e caminharia sempre para algo melhor. Mas sem ela eu era nada. Triste, fechado e complacente com minhas incapacidades em realizar-se.

Era isso que assustava.  E foi isso que me levou longe dela. Fugi, pois aquela realidade era intensa demais. Era meu desejo em sua concretude extrema. Era um poder maior do que eu e minha simples existência. Retirei-me novamente para meu casulo e ali permaneci por anos culpando-me por não ter conseguido resistir à angústia e ter transformado aquele sonho colorido em uma realidade próxima e tranquila. A idealização fugia do controle. E o sentir foi real demais para mim. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Trem da História [Conto]


Onde estou? Em que mundo ou realidade paralela eu vivo – pensou Carlos enquanto tomava uma xícara de café observado o bosque que circunda sua sala de trabalho. Lembrou de uma sessão de análise em que formulou uma metáfora de que achava ser sua vida um filme que ao invés de ele ser o diretor era mero expectador. Era como se ele posiciona-se fora de si e visse as coisas acontecerem quase sem ter controle. E à essa ideia chegou após constatar que perdera muitas oportunidades na vida apenas por não percebê-las, negando sua realidade e sempre desligado com a mente vagando por longos devaneios e sonhos acordados.

Enquanto sua mente perdia-se na criação destas estórias fictícias, a vida concreta acontecia bem em frente aos seus olhos e boa parte disso ele perdia, ausentava-se ou mesmo negava. Assim não aceitou um emprego por achar que não era bem o que ele imaginava, que poderia esperar por uma vaga que correspondesse exatamente o que sonhara, e assim viu um colega seu assumir a vaga e meses depois ser transferido para Florianópolis, como diretor.

Teve a vez em que estava numa crise terrível no seu namoro com Sabrina. Esta queria abandoná-lo, mas não tinha coragem. Ao invés de terminar o relacionamento, Sabrina o enrolava, dava desculpas para não vê-lo e fingia tudo estar bem. Enquanto isso Carlos foi deprimindo-se, buscando alívio no álcool e internet. Em uma das noites de bebedeira em frente ao computador conheceu Larissa, que estava solteira e apaixonou-se por Carlos. Este ficou com o dilema entre tentar reerguer o namoro capenga ou arriscar uma nova aventura. Por sua lógica fantasiosa e medrosa preferiu continuar aquela relação insatisfatória, mas confortável. Teve medo de perder Sabrina e ao mesmo tempo não dar certo com Larissa. Ficou com o álcool, pois logo Larissa caiu fora ao ver que ele não daria um passo a mais e não a chamaria para um encontro.

Era um medo do novo, de arriscar-se em busca de outras saídas e uma aceitação quase cega de que tudo aquilo que acreditava ser seu destino. “Era para ser assim e pronto”. “Larissa seria um sonho de mulher caso não houvesse Sabrina”. “Aquele emprego seria ótimo se eu já não estivesse empregado agora” – era assim que ele pensava naquela época.

Passado algum tempo, ao constatar que perdera algo que poderia ser muito recompensador, angustiava-se em diversos pensamentos culposos,  imaginando como teria sido. Ou como seria se estivesse vivendo outra vida agora, como por exemplo, com um emprego legal, uma mulher que lhe desse atenção e fosse maravilhosa. E quando olhava o que tinha, um emprego medíocre mas garantido e uma falsa namorada mas que não o abandonava, achava que era o que podia ter, que deveria aceitar sua realidade ao invés de ficar criando estórias fantasiosas e idealizadas.  

Era uma constante luta entre sua realidade mesquinha e constante e seus sonhos loucos e idealizados. Ele se imaginava com aquela gata estagiária do setor de compras, mas no dia-a-dia mal a encarava para cumprimenta-la. Achava que pelo fato do gerente ter saído com ela não daria bola para um mero assistente.  Mas nunca tentou uma investida para confirmar se isso era verdade.

Na real era muito mais fácil sonhar e criar estórias maravilhosas em sua mente do que tentar procurar soluções concretas e reais. Com certeza a realidade seria bem diferente de sua imaginação e as coisas não teriam um andamento e fim como ele havia fantasiado. Poderia ser bom, ruim ou nada. Mas seria real. Melhor ou pior, teria uma existência verdadeira ao invés de serem apenas estórias irreais que além de só existirem em sua cabeça apenas serviam para desviá-lo da realidade que acontecia irredutível à sua frente e que ele quase que inconscientemente não a via.

“Quantas vezes você perdeu o “Trem da História”Carlos?” – perguntou sua analista certo dia. “Muitas vezes, e em quase todas eu ainda vi o trem saindo da estação, Doutora” – respondeu abismado e completamente confuso. 

Trilha Sonora: "Vida Que Não Pára" - Odair José. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Ressaca (2012)

Sinto-me ainda como se 2012 não houvesse acabado, como em aqueles porres que dois dias após você ainda sente os efeitos da monstruosa bebedeira. Neste caso foi um ano em que fui atacado por uma “avalanche” de acontecimentos, mudanças, sentimentos, perdas e ganhos, tanto que não consigo ainda elaborá-los muito bem. 

E essa ressaca traz ainda um sentimento de vazio pelo início do ano, como se tudo tivesse voltado ao “normal”, ou seja, à escassez ou os poucos acontecimentos que a vidinha cotidiana nos oferece sempre, e isso acaba tornando o início do ano um pouco “chato”. Não que eu quisesse mais mudanças e sobressaltos, apenas que a sensação é de que o ano ainda não engrenou. 

Como toda ressaca é necessário recuperar-se. Deixar a poeira assentar, cuidar de tudo e não ter pressa. Aos poucos as coisas irão encaixando-se. 

Sinto na verdade uma enorme preguiça de começar tudo – principalmente de trabalhar e realizar algo de útil. A entrega ao ócio contaminou-me no recesso e agora sofro a “abstinência de vagabundagem”, ou seja, não aceitei ainda que o ano já começou e agora é “para valer”! Mas é assim que a vida é: sempre diferente daquilo que imaginamos, ás vezes um pouquinho melhor, mas sempre um pouco pior do que sonhamos! 

Trilha Sonora: Tame Impala "Feel like we only go backwards".