terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ressaca

É uma enorme ressaca. E infelizmente não é por abuso de álcool. É de tristeza. É de cansaço, por um fim de semana horrível. Mais uma perda, e esta é muito grande. Gostaria de estar agora escrevendo uma homenagem a ela. Mas é muito cedo, não estou em condições. 

Preciso tocar adiante. Arrastar esse corpo enquanto a alma despedaçada esforça-se para rejuntar os pedaços. Estou ausente, inebriado em algum lugar obscuro tentando encontrar a luz. 

Eu sei, é cedo. Vai ser um longo caminho ainda e sei por onde ir. Mas por agora quero apenas refúgio, esconder-me do mundo que não vem sendo fácil comigo. 

Deixar a dor surgir e amenizar-se aos poucos. Esperar que toda sua energia chegue até nós e que a beleza de sua alma faça-nos sorrir novamente. 

sábado, 15 de setembro de 2012

Recaída

Jonas acordara angustiado. Não sabia dizer porque. Fora tomado por um sentimento nostalgico, algo que há muito tempo não sentia mas que a ele era muito familiar: perdição. Era assim que ele chamava uma vontade de perder-se, sumir. How to disappear completely? 

Uma vontade absurda de isolar-se. Uma garrafa de conhaque, carteira de cigarros, Radiohead e seu notebook para escrever compulsivamente. Era assim que esses dias aconteciam antigamente, mas sua vida mudara muito nos últimos anos. A fase "beat" já era. Estava casado, lecionando aulas na faculdade e vivendo relativamente bem sua vidinha burguesa. Escrevia de vez em quando, agora de maneira bem mais leve que aquela pesada atmosfera de seus contos. Ele sabia que se continuasse naquela vida, apesar de render livros brilhantes, iria logo acabar-se. Após conhecer Julia, uma menina linda que realmente o amava, optou por levar uma vida "normal": casa, emprego fixo, cachorro, churrasco com amigos, visitar a mãe de vez em quando e ir ao cinema.

Tudo estava indo bem. Mas de repente este vazio novamente. O principal de toda essa mudança foi largar o álcool. Ele é alcoolátra e só se deu por isso após ter sofrido um grave acidente depois de uma longa noite de intensa bebedeira. Estava "seco" há dois anos e sabia que qualquer descuido o levaria novamente ao buraco. Ele estava gostando da vida atual, de conseguir relacionar-se novamente, tanto afetivamente como manter amizades, de finalmente enquadrar-se em algum lugar nesta sociedade. Porém havia dias que batia uma saudade da época de loucura, de poder "fazer o que dava na telha" - como ele costumava falar. 

O problema que suas fases de loucura não duravam apenas uma noite. Eram meses até que alguma merda acontecesse e ele parava de beber, voltava a atender o celular e entrar em contato com a realidade novamente. Era nesses episódios que seus livros eram escritos e se não fosse o editor ir atrás dele em algum bar, puteiro ou praia, nada seria publicado. Era uma vida desregrada mas intensa, e era isso que sentia falta agora. Não era dos porres, das confusões e até mesmo dos livros. Era da loucura, da vida sem freio, da postura foda-se-tudo-quero-viver. 

E naquela manhã estranha algo realmente mudou. Deixou um bilhete para Julia, saiu de casa com uma mochila e seu notebook. Parou no mercado em frente à rodoviária. Comprou uma garrafa de Domecq, carteira de Camel e passagem para Porto Belo.

Trilha Sonora: Álbum The Division Bell - Pink Floyd; Radiohead.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Depressão pós-feriado

Eu e minha existência banal. Há dias que eu escolho simplesmente não viver. Explico melhor. Não é querer tirar a própria vida, é apenas deixá-la de lado por um dia. É acordar já esperando que o dia acabe logo. E isso não é viver. É enrolar, escapar, perder-se nas ações mais fúteis possíveis. É ficar vagando pela internet (principalmente Facebook), a fim de encontrar alguma notícia interessante, é ver albuns de fotos de pessoas que você não conhece apenas pelo prazer medíocre de bisbilhotar a vida alheia. 

Nesses dias, quase obrigatoriamente segundas-feira, eu tento fazer de tudo para não fazer nada. Não consigo encarar minhas obrigações mais simples. Postergo tudo. Sonho com o meu sofá que trocarei apenas pela minha cama. Parece deprimente, não? Mas é bom. Pior que é bom. 

Quando trata-se de uma segunda-feira pós-feriado a tendência é os sintomas agravarem-se. Dores no corpo, bocejos constantes. Café, café, água, água. Café de novo. Parece que a mente não quer se ligar, está em standby desde o início do Programa do Faustão no fim da tarde de domingo. Talvez até quarta-feira ela pegue no tranco, quando já começa-se a vislumbrar o próximo fim de semana.

É somos assim. Pelo menos eu sou assim. Minha preguiça atinge as vezes níveis alarmantes. E o que mata não é essa preguiça em si, mas a culpa neurótica de estar disperdinçando (ou seria curtindo?) um tempo útil. Talvez se eu simplesmente deixasse essa preguiça tomar conta de mim e desistir de lutar contra ela eu compreenderia que este é só mais um episódio de depressão pós-feriado.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Quanto pesa a vida?

Vagava eu durante uma madrugada em um velório. Na capela havia um memorial onde algumas urnas de pessoas cremadas permaneciam por um tempo em um espaço onde os familiares montavam uma homenagem, trazendo diversos objetos, fotos, símbolos, escudos de times, imagens de Nossa Senhora, tudo o que pudesse simbolizar quem era aquela pessoa em vida. Era bonito e emocionante também. Mas me chocou.

Eu estava ali, em pé, observando cada uma das homenagens. Eram dezenas de histórias de vida que estavam sendo contadas ali, a partir da morte. Fiquei pensando que o que estava exposto ali era o quê os familiares consideravam  ser representativo de quem eram aquelas pessoas em vida, algo que pudesse demonstrar brevemente o que faziam, o que gostavam, suas personalidades e modos de ser e existir. E poderia ser eu ali. O que colocariam para representar-me?

A que mais me impressionou foi de uma mulher de 30 anos. Minha idade. Uma foto ao lado de seu cão. Outra em que ela vestia um vestido de festa. Todas as fotografias captavam uma alegria espontânea, havia ali uma vontade de viver. Viver como eu imagino que deva ser: curtindo, brincando, buscando sorrir mesmo com as piores adversidades. Eu não tenho ideia de quem era aquela pessoa, como ela viveu e se realmente  era assim em vida, mas foi o que eu senti ao ver a homenagem que fizeram a ela.

Talvez somente quando nos deparamos com a morte, com a finitude, que conseguimos refletir sobre nossa realidade mais cotidiana, a vida mais simples e banal que simplesmente tocamos dia após dia. É essa a vida que realmente vivemos e não temos muita noção do que significa. Como os outros nos vêem? O que represento para os demais? Quem sou em vida, como me descreveria? O que eu escolheria para simbolizar-me naquele pequeno espaço de menos de um metro quadrado? Questões que embaralhavam minha cabeça durante uma madrugada triste, em que além de estar vivendo a perda de alguém fui confrontado com minha própria existência - e o risco de deixar de existir. E se fosse eu?

Estava eu vendo ali personagens que já foram vidas. Estavam talvez há pouco tempo atrás vivendo suas vidas de forma automática, sem pensar que pouco tempo depois já não existiriam mais. E realmente não conseguimos vislumbrar esta possibilidade. Se pensarmos em todos os riscos que temos de morrer neste exato momento, deixamos de viver e entramos em pânico. A urgência da vida não permite pensar em seu fim. E assim vamos tocando, totalmente certos de que o amanhã chegará. Mas não sabemos, e isso é aterrador. 

Isso faz pensar o quão frágil é nossa existência. Sublime as vezes, triste e penosa muitas vezes. Não temos noção do esforço que dispendemos para mantê-la, e muito menos de todas as formas existentes que podem tirá-la. E isso  nos aparece perfeitamente normal.

Vivemos ignorando o fato de que a qualquer momento não estaremos mais aqui, e mesmo assim insistimos em disperdiçar nosso tempo principalmente com as coisas mais fúteis e banais, deixando de lado o que realmente é importante e significativo.  A vida corre e somente quando ela falta é que pesamos sua existência.

Trilha Sonora: Devastations

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Breathe (respire)

Para Maria Gelinski Mendes (1938-2012),
Uma Guerreira


Foi uma longa madrugada ao seu lado. Pena ter sido nessas condições. Eu havia pedido para você viver mais. Agora percebo que era apenas egoísmo meu. Foram 45 dias de agonia, de dor, expectativas descontroladas. E então você pode finalmente respirar...


Foram com estes versos da bela música do Pink Floyd que eu acordei (acordei? será que consegui dormir?) hoje pela manhã. Eram 7 horas em ponto, quando ligo o rádio e tocava esta que é uma de minhas músicas preferidas, uma das mais lindas que já ouvi. Era algum prenúncio? Será que indicava que naquela hora você estava realmente indo? Ao som do Pink Floyd vó?  

Aquelas máquinas ligadas à você. O esforço enorme para conseguir retirar um pouco, apenas o mínimo de ar. Seus suplícios para obter gotas de água... tudo isso acabou vó. Agora tudo está bem. "There is no pain, you are receding"

Nossa dor está quase insuportável. Mas vai se aliviando ao pensarmos que a sua terminou. Há meses não a reconhecíamos mais. Tanto tempo afastada de sua vida cotidiana, de suas coisas, das pessoas que ama. Tantos dias apenas lutando pelos resquícios de vida que ainda haviam. E você era incansável, enquanto nós penávamos para encarar cada visita naquele lugar inóspito. 

Sentiremos muito sua falta, de sua personalidade forte, das suas tiradas, do jeito azedo e ranzinza que na verdade escondia muito amor e vida. Eu era fã e continuarei sendo do seu modo espontâneo e verdadeiro de ser, de encarar a vida dando murros nas portas que tentam se fechar, de dizer ao mundo e a todos tudo o que pensa, mesmo que isso as vezes custe inimizades e mágoas. 

Vá. Apenas respire, respire o ar que agora te cerca, que nós continuaremos aqui sempre a te relembrar.



Breathe, breathe in the air.
Respire, respire o ar
Don't be afraid to care.
Não tenha medo de se preocupar
Leave but don't leave me.
Vá embora, mas não me deixe
Look around and choose your own ground.
Olhe ao redor e escolha seu próprio caminho