quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Balanço



O fim do ano se aproxima e a sensação é de ressaca. Parece que o "saldo" do ano é sentido de uma vez só, agora, nesses últimos instantes de 2011. Ano cheio, muito trabalho e até que se conseguiu uma rotina mais ou menos estruturada. Foi um ano estável, até se poderia dizer. Teve seus percalços, alguns altos e baixos. Mais no geral fica-se uma sensação de ter sido um ano mediano, sem muito para comemorar mas também pouco a se lamentar.

A vida continou com seus passos lentos e algumas surpresas. Foi um ano de confirmação, de continuação de um processo que se iniciou há dois anos, e por isso foi bom. Mas foi previsível, e deve ser assim mesmo. Parecemos lutar a vida toda por alguma estabilidade, e quando a alcançamos, fica um vazio. Chegou-se onde queria. Tá, mas e agora? Para onde ir?

Diriam: novos planos, novos caminhos. Ok. Mas alguns desses novos caminhos exigem espera, que oportunidades e aberturas apareçam. E enquanto isso vamos levando nossa vida como dá. E digo, não é ruim não!

Talvez a sensação de vazio seja só pela chegada de mais um fim de ano. E ai começamos a querer fazer balanços como esse daqui. Confesso que não gosto mais de fim de ano como gostava antes. Agora só espero por férias. Natal e ano-novo deprimem-me, e nem sei dizer o porquê. Talvez seja pelos balanços mesmo, que parecem nunca quererem fechar... sempre falta, ou sobra.

Trilha Sonora: Smashing Pumpkins "By Starlight".

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Psicanálise II - ou O bloqueio

(Da série "Psicanálise" - ver "Psicanálise I - ou o retorno do recalcado")

Tenho uma estranha impressão de que me cerco em uma barreira imaginária que me isola dos outros. Como se criasse uma "proteção", um empecilho para que os outros não cheguem a mim - ou pelo menos tão perto de mim.
Sinto que à pouquíssimos consigo confiar uma abertura maior, como se poucos pudessem transpassar esses limites que ergo e realmente conhecer-me melhor. É como se entre o "eu" e o "outro" houvesse um espaço vazio, uma "zona de conforto", em que barro a maior parte daqueles que tentam algum contato maior. E isso as vezes é constrangedor.
Sei que isso tem a ver com privacidade, e também com uma característica minha de ser reservado e até contido. Mas confesso que isso as vezes incomoda. Vejo que muitos realmente se afastam ao sentir esse bloqueio. Sinto que vez ou outra sou mal-compreendido e passo uma imagem de inacessibilidade ou até arrogância. E sei que isso também já foi muito pior e de onde veio, de uma pessoa que admiro muito mas que nunca se abriu totalmente à ninguém. E isso é triste.
Pode ser uma defesa qualquer, narcísica como toda defesa. Pode ser uma tentativa de fuga , de si mesmo , contra uma natureza supostamente inaceitável e que deve ser escondida. Mas acima de tudo lembra-me Sartre, assim como a malfadada castração: "o inferno são os outros", e esta frase tem diversas significações.
O encontro com o outro revela-me, mostra as fraquezas e limitações. Este outro pode vir a conhecer minha verdade, a de que não sou realmente bom como gostaria de ser e de que tanto esforço faço para demonstrar sê-lo.

Corro o risco de perder, e por isso não entro no jogo. Não vou até as ultimas consequências. Preservo minha frágil integridade assim: correndo, afastando, escondendo-me. O contato com o outro torna-se "inferno". Até quando? Há tanto o quê esconder mesmo?

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Luto

Quando irei acordar deste pesadelo? Que pesadelo? 
Minha vida. Não sei se quero acordar e aceitar o que aconteceu. Ainda ouço os gritos.
Ando por ai a procura de alguém. Um abraço. Ela vai aparecer. Ando. Novamente.

O que está havendo com minha memória? Por que não lembro o seu rosto? Lembro de sua mão tocando minha face. E só... mas não esqueço do buraco. Seu corpo descendo. Eu querendo atirar-me. Meu pai segurou. Aquele desgraçado. Tenho raiva dele por isso, por permitir eu viver neste pesadelo. Eu só queria o fim.

Vejo pessoas por ai. Encontro muitas mulheres. Mas por que não ela? A única que quero encontrar. Não tenho mais ninguém. Só tinha ela. Todos esses ao meu redor não são minha família. São sombras, e a única sombra que gostaria de ver, não vejo. 

Acordo em lágrimas. Gritos, flores, chuva. A cena não pára de passar. Como num videotape. Ela está lá: linda, dançando pelo salão, sorrindo para os convidados. Cortamos o bolo. As taças de champagne. A promessa de que sempre estaríamos juntos. Ela mentiu! Peraí, foi eu que a enterrei, estou lembrando agora. Sou eu o culpado! Eu a matei. Não, é mais uma cena errada.

Todos desistiram de mim. Ficou apenas minha dor. Não cabia mais ninguém. Eu, minha dor e este videotape.

Trilha Sonora: Radiohead - "Videotape"; "All I Need" (do álbum "[2007] In Rainbows")

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Little Girl Blue




"I want you to count, oh, count your fingers,
Ah, my unhappy, my unlucky
And my little, oh, girl blue.
I know you're unhappy,
Ooh ah, honey, I know,
Baby, I know, just how you feel".

"Little Girl Blue - Janis Joplin"






Ela sonhava  com o amor perfeito. Tinha apenas 16. Tudo era novo e intenso. As vezes por demais. Sentia-se diferente. E embora isso seja algo que todo adolescente em algum momento já sentiu, com Flávia parecia um sentimento real demais . Não sabia explicar. Era uma apreensão estranha, uma sensação de não se encaixar a nada e de não pertencer a lugar algum. Não era apenas uma época de maturação e uma fase de transição. Era incompreensão. Total.

Suas amigas estranhavam quando sumia. Às vezes era por horas. Ficava à beira do rio, olhando fixadamente para o horizonte. Em sua mente fervilhavam idéias, sonhos e desejos. Um mundo todo a ser descoberto. Mas ao mesmo tempo tudo estagnava.

Não se dava com sua família. Os pais sempre fora. Um ou outro almoço de domingo. Suas amizades logo desistiram dela. Restava os cd's de Janis Joplin e uma garrafa de conhaque guardada debaixo da cama. Foram muitos sábados assim. O cigarro queimando entre os dedos. Estrelas a contar. Little Girl Blue...

Trilha Sonora: Janis Joplin "Little Girl Blue"; Legião Urbana "Depois das 6".

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Psicanálise I - ou o retorno do recalcado

É a castração. Mas é o desejo também. Desejo que pulsa - e o que faço com isso? Grande dilema. Andamos e desandamos, entre um e outro. Tão difícil encontrar este caminho. Onde começa um, e onde irá levar-me? Vou. Quero ir, simplesmente ir. Mas esbarro, tropeço, caio. Gosto de cair, mas não de levantar-me. Sei que preciso disso. Caído, desjuntado, não vou a lugar algum. Mas dói levantar, ver o erro, ou melhor, dói não querer ver o erro. Aquilo que me derruba pode fortalecer-me. Mas por que então evito tanto?

O caminho livre, tão sonhado e procurado. Não se quer os obstáculos. Mas eles estão lá, quase sempre parados. Às vezes são tão dinâmicos que não os visualizamos. Mas quase sempre estão ali, a nossa frente, esperando para cairmos. Se sabemos que são assim, para que evitar? 

Somente quero ir, assim, do meu jeito. Procuro isso. Vivo buscando isso. Parece tão distante... Mesmo assim só quero ir. Quero meu caminho e ele só me escapa. Mesmo assim quero. Desejo. É frustração, e assim mesmo, desejo. Entre um e outro, construo minha via, talvez uma via única, ou a única via que posso seguir. 

Trilha Sonora: Giancarlo Rufatto "Machismo" (álbum).