quinta-feira, 6 de agosto de 2009

We Carry On

Garganta seca. Angústia ou sede? Passou a noite naquele boteco cheio de putas. O olhar fixo para fora do bar. Caia uma chuva pesada. Dentro, aquele cheiro característico de zona o enojava. Já era seis da manhã. Era agora. Tomou um trago e acendeu o último cigarro. Saiu calmamente do bar e entrou no Passeio Público. A chuva havia parado. O único som que distorcia o silêncio era os pássaros agitados.

Ele tinha certeza de que ela estaria em casa. Era ali o seu ganha-pão. Seu único receio era encontrar mais alguém por lá a essa hora. Ele precisava libertar sua alma, mesmo que isso custasse aprisionar seu corpo - paradoxo cartesiano. Estava decidido. Não há certeza maior do que virar uma noite bebendo a procura de uma resposta e às 6 da manhã ela ainda parecer a mais correta. Subiu as escadas húmidas. A porta sempre estava apenas encostada. Garrafas, seringas, e caixas de papelão pelo chão.

O revolver carregado. Uma bala. Era o que precisava. Duas o matariam também. Entrou no quarto escuro. Parecia haver ninguém. Ao lado da janela escancarada percebeu a silhueta de uma mulher. Era Janaína, ele tinha certeza. Engatilhou a arma, apontou. Sua mão tremia sem parar. Lágrimas escorriam de seu rosto. Não conseguia fixar a mira. Foi se aproximando. Ela parecia dormir. "Acorda, levanta daí!" - gritou. Nenhuma resposta. Um chute em suas costas. Nada. Arrancou o cobertor, Jana estava nua, branquíssima. Os olhos estourados. Seringa cheia de sangue pendurada no braço. Era tarde demais.

Um tiro no escuro.

Trilha Sonora: Portishead: "Hunter", "We Carry On", "Roads"; Pedro the Lion: "Bands with Managers".

terça-feira, 28 de julho de 2009

04:56 a.m.

Para Um Amor

Sonhei que enquanto eu dormia, você chegou de mansinho. Seu corpo procurou o meu do mesmo modo que costumava buscá-lo nas madrugadas frias. Abraçou-me forte e acaraciou minha nuca. Suspirou e me disse: "calma, agora tudo está bem".

Meu amor por ti talvez até aumentou. Notei isto ao constatar a ausência que ficou. Minha alma está castigada, ela tem apanhado demais. Quando sossega é porque parou de vagar, de tentar procurar razões para tudo o que se passou.

Agora é o lento passar do tempo que nessas horas tem sido cruel. Há a espera de respostas de coisas que talvez não venham. Sonhos acordados. Sonhos adormecidos. Não creio que tenhamos nos afastado tanto. Pois ainda sinto rastros de sua alma por aqui. Ainda acordo sentindo o seu cheiro. O gosto de sua pele está em meu paladar.

São nuvens escuras que passam sem parar, onde antes o sol costumava brilhar. São pequenos desencantos, desgostos de uma vida longa e que não é só feita de lances felizes.

É só mais uma madrugada que resolveu se estender. É o medo de acordar e perceber que tudo foi apenas um sonho. E que minha cama está fria a me esperar. Será mais um longo dia tendo a saudades como companhia.

Com a falta, o desejo só aumenta. E ela tem aparecido sempre. Vem acompanhada de doces lembranças de tempos em que ela costumava ser ausente. Era quando os corações se enchiam de uma alegre euforia. E o seu sorriso completava o meu, e era o mais belo de todos.

Ainda acho que com o tempo as almas irão se reencontrar, com aqueles sorrisos que costumavam se ver. Por enquanto só resta tentar adormecer novamente e buscar que os sonhos deixem de ser o que são, para apenas cumprirem suas funções de realizarem-se.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Anesthesia

Há um paradoxo na anestesia. Em um tratamento dentário é a infiltração de uma substância analgésica no local onde se pretende tratar. Ela é utilizada para que o paciente não sinta a dor provocada pelas brocas e outros instrumentos assustadores. Porém a sua aplicação é através de uma injeção diretamente na gengiva, causando uma "picada" horrível. A dor da picada é muito mais psicológica do que físiológica, ao ponto de haver pessoas que preferem fazer o tratamento sem anestesia - o caso de minha mãe, por exemplo.

O paradoxo é justamente esse: uma dor pequena para anular uma dor maior, mesmo assim, alguns preferem encarar a dor maior sem aditivos. Eu lembro de uma música muito curiosa do Metallica - minha banda favorita na adolescência - que era um solo de baixo com distorção e que chamava-se "Anesthesia (Pulling Teeth)". A sonoridade desta música faz referência a um tratamento dentário, e parece representar o que é subjetivamente a anestesia para o autor: algo etéreo, entorpecedor, porém perturbador.

É assim que me sinto em um tratamento dentário. A anestesia dói um pouco na picada, tudo se amortece e você não sente mais os procedimentos. Porém você não vê a hora daquilo acabar, daquele som da broca sumir e sair logo dali. É um processo que mesmo sem dor é assustador. Mas você encararia tudo sem a anestesia?

Mesmo aqueles que preferem sem anestesia, há procedimentos que não é possível sem. Não há pessoa que suporte um estímulo doloroso tão grande. E se há situações em que ainda é possível escolher com ou sem anestesia, surge a dúvida.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Here Comes the Sun (It's been a long and cold winter)

Eis que surge o sol novamente, após um longo período de céu cinzento e umidade. Já não sei mais a última vez que o vi brilhar por aqui - talvez foram apenas alguns dias, talvez uma semana, só sei que minha alma estava embolorando.

Acordei e tomei café com os raios do sol atingindo meu rosto. Eram fracos ainda, mas tão reconfortantes. Surgiu um clima de esperança no ar. Tem sido um longo e frio inverno, mesmo estando apenas no ínicio. Os ossos quase se acostumaram com o ar gélido e dolorido. E por isso foi tão bom encontrá-lo novamente. Coisas boas estão por vir.

O som deste inverno é o já velho e ainda muito bom Yo La Tengo.

"darkness always turn into the dawn"

Trilha Sonora: Yo La Tengo "Pablo and Andrea", "The Ballad of Red Buckets", ambas do álbum Electr-o-pura (1995).