Passar a vida toda com(o) uma dúvida. A procura por Algo que somente imaginariamente existiu e que há de surgir. Ou não? Se há alguma lógica nessa teia de fantasias, onde encontrá-la. Marcos acreditou um dia que pudesse se realizar, viver algo do real que o satisfizesse. Nesta busca se perdeu, voltou atrás, deu passos adiante. Não saiu do lugar. Sonhou com a completude, acordou com o vazio de sempre. Quis sempre depositar todas suas esperanças em alguém, alguém que sempre esteve em sua imaginação. Do confronto desta com o mundo ao seu redor quebrou-se em vários pedaços e que nunca puderam ser reconstituídos. A dor surgida daí nunca pode ser realmente sentida. Isolação. Barreiras construídas. Esperava um dia voltar a respirar. Mas tinha medo. Sufocado sempre sobreviveu. Mas o ar lá de fora é demais! Seu mundinho, fakie plastic world, era tudo o que tinha. Hipócrita. Preto-e-branco mas delimitado. O sonho impossível era o que permitia algo ser possível, algo que esperado já exista por si só. Mas viver é tão... sonso. Querer sempre mais, nunca se contentar, isso o movia, mesmo que só. Dentro de si era possível existir, mas e fora? O que há? Não saber o que sentir. Não sentir. Sentir? Perdido no combate irreal do impossível, entre a sobrevivência e a ausência, entre o desejo e a anulação. Nos extremos se configurou e deles não partiu mais. O que sente agora? Isto é sentir? Ou imaginar? Por que diabos nunca sabe, ele nunca soube saber responder. Afinal para Marcos o que não pode ser duvidado não pode simplesmente existir. Não há nada entre a dúvida e a resposta. Dos dogmas bestialmente apreendidos em sua fraca existência herdou somente o pior de todos, o dogma da não-crença. Ele só queria viver, viver sem. Viver com. Não queria a busca, não queria a espera, mas o que sobra? Da espera fez-se enquanto falta-a-ser. Da busca, seu único modo de seguir, seguir sem nunca alcançar o que não pode nunca ser alcançado e que assim permaneça. E agora que alcancei?
Eu já fui personagem. Eu já fui real. Hoje estou no caminho entre um e outro. Espaço para devaneios, reflexões, impressões subjetivas, construções meta-teóricas ou apenas uma forma de se aproximar do Real... ou de fugir dele. Literatura outsider, música e paixões.
segunda-feira, 10 de outubro de 2005
terça-feira, 4 de outubro de 2005
2:02
Eram 2:02 da manhã e Valquíria não queria dormir. Passou o dia no escritório olhando para a janela, no 17º andar. Acendeu um cigarro enquanto vagava sem rumo pela internet. Blogs, messenger, orkut, winamp tocando Modest Mouse. Havia conversado com Pedro, e talvez por isso não conseguia dormir. A meses conversava com ele pelo messenger e nada. Sentia que ele gostava dela sim, mas e Laísa? O que ele faz com ela? Por que está com ela e não comigo? Se perguntava isso sempre, nunca para Pedro. Na verdade ao falar com ele se calava. Se escondia. Deixava sempre algo escapar. E ele pegava, quase sempre pegava. E isso a deixava furiosa. Mesmo sabendo que Pedro namorava Laísa há anos, nutria uma espécie de esperança. Era somente essa esperança que a fazia se mover nos últimos meses. Sem essa, o que esperar? Entre entregar-se a algum desconhecido e se iludir com Pedro, escolhia sempre o mais próximo. E a ilusão sempre a acompanhou. Ela talvez não quisesse algo sério com Pedro, somente alguns momentos de descontração, diversão, perdição. Mas no fundo sabia que não era só isso. Que havia algo dele que a assustava, a atraía e confundia. Afinal por que conversar por meses com alguém que se quer se via a fazia delirar assim? Palavras bonitas, inteligência, descontração? Isso não bastava para uma alma apertada e escorregadia como a de Valquíria. Sedução sim, isso acontecia. Pedro com seu jeito sonso e perdido prendia sua imaginação. Ficou tonta ao pensar nisso. Um pouco triste também. Pois não sabia direito o que queria. E não saber o que querer a deixava vulnerável. E não havia nada que temia mais do que estar frágil. Incerteza. Desilusão. Lágrimas. Há meses não saía com as amigas, há meses não chorava. Reclusão, pensamentos sem destino. Viver tornara-se tão cotidiano, tão sem sentido. Nesses momentos assim tão dispersos Valquíria não se sentia. Somente entregava-se, ao nada.
Trilha Sonora: Radiohead "No Surprises" (From Ok Computer Album)
Trilha Sonora: Radiohead "No Surprises" (From Ok Computer Album)
terça-feira, 27 de setembro de 2005
A Espera

Levantar às oito da manhã e ver que o sol não brilharia aquele dia. Café frio, fumar metade do cigarro que não terminara de fumar no dia anterior. Coisas que apesar de banais fazem algum sentido quando não se esta preocupado em achar algum. Se o dia esta só por começar, tudo pode-se esperar, mesmo esperar por nada. Afinal parece que a vida é uma constante espera...
João esperava encontrar Ana. Andava pelas ruas procurando o seu rosto em cada mulher que passava ao seu lado. Qualquer traço, qualquer semelhança, qualquer ponto difuso que por alguma razão o fizesse lembrar de Ana. Ele se cansava disto, mas logo estava esperando que fosse realmente Ana. Neste dia porém ele não pensou nela. Não pensara em nada na verdade. Andava tranquilamente pela rua XV observando a paisagem de sempre. Quando olhou para a frente, coisa rara já que anda olhando para o chão, viu Ana. Fazia meses que não a encontrava. Por alguma ironia, estava bem em frente ao prédio de seu analista. Ali onde passara mais de dois anos falando justamente sobre Ana... Conversaram pouco, ele não sabia muito bem o que dizer. Sentiu um tremor nos exatos um minuto e meio que conversara com ela. Saiu meio desacorsoado, sem saber o que pensar. Ele tinha tantas coisas que gostaria de dizer a ela! Mas dizer o quê, quando afinal, anos se passaram. Ana não era mais Ana, pelo menos a Ana que João sempre quis que fosse. João não era mais João. Duas histórias inteiras aconteceram até que se cruzassem neste ponto, neste fatídico dia onde por um minuto e meio ambos conversaram e João descobrira que não era Ana que procurava. Era a espera, a espera por Ana o que procurara por esses meses todos. Espera essa que acabou ao ver que aquela Ana não existia mais.
Trilha Sonora: Pink Floyd "If" (From Atom Heart Mother's album)
quarta-feira, 21 de setembro de 2005
Life in a Glass House
Ele não conseguia entender porque era assim. Acordou atrasado naquele dia. Seu café da manhã foi um cigarro. Ficou esperando o ônibus enquanto olhava para uma velha sebosa que parecia procurar seu cartão-transporte em alguma parte de uma bolsa velha de couro. Terminou seu cigarro, o ônibus chegou. Lotado, amarrotado, cheiro de trabalhador. Olhou para o lado e viu uma ninfeta toda arisca. Não para ele. Pelo menos tinha o quê olhar no meio de uma multidão de trabalhadores, velhas rabugentas e gordas crentes. Era o mínimo de contemplação num ônibus lotado às 6:32 da manhã. Chegou ao centro da cidade. Multidões de zumbis seguindo seus caminhos. Vendedores oferecendo cigarros, pão de queijo; cd, cd, cd. Ficou puto, não queria trabalhar. Olhar aquelas mesmas caras de sempre, mesmas tarefas de sempre. Lembrou de Maria, do verão, do cheiro de seus cabelos, do sorriso maroto, das safadezas. Flashes de memória que sempre insistem em aparecer em momentos nada agradáveis. Fumaça dos carros, traveco na esquina, mendigos deitados no chão frio da calçada, molequinhos cheirando cola. Ganha trezentos reais, trabalha quarenta horas semanais, V.R de cincão. Gosta de pescar nos fins de semana. Toma uma garrafa de pinga, aquela de um real e garrafa de plástico, fuma uma carteira de cigarros italianos e vai embora sem nenhum peixe. Na volta passa no boteco, joga truco, arruma uma briga e vai louco pra casa, balbuciando palavras soltas. Ressaca, dor de cabeça, dia chuvoso e um frio que congela os ossos. Acha tudo isso uma porra de vida. Mas não sabe porque tudo é assim.
Trilha Sonora: Radiohead "Life in a Glass House"
terça-feira, 13 de setembro de 2005
Dias de Chuva
Dias de chuva são sempre tristes. Parece que as esperanças dão uma trégua e o mundo volta-se para si. E esta volta é nada mais do que a volta ao real. Carlos gostava dos dias de chuva. Apesar de sempre sentir-se mais angustiado nesses dias, eram momentos em que podia sentir muito bem algo que se passava além de seu mundo próprio, o que era raro. Naquele dia frio e encharcado na Capital Social resolveu encharcar-se, de álcool. Procurou o bar mais sujo que conhecia, pois era assim que queria sentir-se: imundo. Escolheu um daqueles ao lado do passeio público. Junkies, putas, vagabundos de rua e estudantes perversos eram o público que ali frequentava. Carlos não se enquadrava em nenhum dos perfis acima. Mas naquele dia, sentia-se um pouco de cada um. Ele não sabia porque estava sentindo-se assim, sentia somente uma vontade incontrolável de entregar-se a insensatez e ao delírio alcoólico. Iniciou-se então sua jornada rumo ao inferno, ao seu inferno, afinal o ambiente já era este. Pediu uma garrafa de conhaque da mais vagabunda, alguns pedaços de limão e uma carteira de cigarros italianos. Algumas putas tentaram mexer com ele, mas com o olhar parado, fixado para a janela que dava para rua, nem percebeu. De início suas idéias vagavam como sempre: fatos do passado, mulheres perdidas, o filho abortado, a mãe louca. Logo pensou que tinha que trabalhar no dia seguinte, mas pouco se fodendo, esqueceu logo. Queria esquecer de tudo, da sua vidinha porca, do trabalho burocrático e escroto do escritório, da porra daquela cidade cinza e fria, de seu mundo fantástico que criara em suas idéias. Por que diabos não vivia? Não conseguia viver a vida que ele mesmo escolhera para si! Já nesse ponto, sentia a embriaguez tomar aos poucos conta de seu esguio corpo. Suas idéias começavam a embaralhar-se, todos sentimentos pareciam ser um único mesmo. Chorou um pouco, bebeu um monte. Apoiou a cabeça na mesa, queria dormir, mas não conseguia. Nem mesmo o álcool fazia aquelas idéias pararem. Nada afinal fazia aquele tormento parar. Não era o fluxo contínuo de idéias seu problema; era a sua vida toda que não fazia sentido e não encaixava-se à suas idéias. Já era noite, estava muito mais frio. Levantou-se cambaleando, pagou a conta e saiu andando pela centro sujo e encharcado. Sentou-se em um banco na Santos Andrade. Chovia muito naquele momento. Carlos não ligava, não ligava mais para nada. O dia havia acabado, nada mudara. Amanhã estaria de ressaca, trabalhando naquela porra de escritório, sozinho como sempre. Ele com as idéias. O mundo com a vida.
Trilha Sonora: Modest Mouse This is a Long Drive for Someone With Nothing to Think About (album)
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