sábado, 23 de outubro de 2021

Let it Feel (deixe sentir)....



 A vida emocionava a minha avó. Lembro até hoje da curtição que foi para ela encontrar uma fita k-7 em que ela havia gravado nossas risadas quando crianças. Ela gostava tanto de crianças que as risadas infantis soavam como magia em seus ouvidos. E a imagem de minha avó, emocionada, ao lado do aparelho de som, rindo, adorando rememorar com tanto prazer um instante que é comum na infância de cada pessoa, e ali eternizado naquela gravação, só faz-me pensar no quanto deixamos de sentir a vida.

Na verdade deixamos de sentir as emoções, afetos e sentimentos que a vida por si só nos proporciona. Levantamos dezenas de muros, barreiras imaginárias, defesas imaturas e infantis, para não sentirmos mais nada. Para parecemos fortes, inabaláveis, controlando a tudo e a todos. Enquanto isso a vida está ai: passando diante dos olhos, com todas suas cores, sons e cheiros. Pena que só alguns dedicam algum tempo a apenas notá-la. 

Você já observou uma criança crescendo? Já reparou na reação que eles tem em cada pequena descoberta? Uma luz piscando, um barulho novo ocorrendo. Uma comida nova. Você ainda consegue lembrar daquela sensação de experimentar algo muito bom pela primeira vez? 

Aquela sensação de maravilhamento vai se perdendo. Parece que a  rotina vai tornando a vida cada vez mais óbvia e repetitiva. Mas será? Coisas novas realmente vão desaparecendo? Ou vamos, cada vez mais, deixando de notá-las, focando-se naquilo que achamos o estritamente necessário, ou o que achamos conseguir dar conta. E o novo? E as outras possibilidades?

Considerava minha avó uma sábia. Ela era muito mais inteligente que eu, tendo estudado apenas até a 5ª série. Era daquelas pessoas cuja sabedoria estava em justamente entender a felicidade. Em saber, e realmente compreender, que o prazer estava em tudo, e que tudo já lhe estava dado. Bastava você procurar, perceber, deixar sentir, e acontecer.

A vida não acontece no Instagram. Ela não permite poses e encenações. Não acontece apenas no belíssimo pôr-do-sol ou naquela linda cachoeira. Não está apenas no bar legal com parede pintada com asas para aquela selfie libertadora.  Ela só acontece. E não para.

A risada gostosa da criança. O bolo de fubá no café da manhã. O dia chuvoso para descansar. O Luizinho maravilhado com o tocador de vinil. O prazer está ai também. Muito mais próximo e real do que a foto nas Maldivas que você tanto sonha em tirar. Só basta olhar. E deixar sentir...

Trilha Sonora: "The Height" - The Band.


sábado, 19 de junho de 2021

Lucidez

Certa manhã, Jonas acordou de sonhos loucos e percebeu uma estranha sensação, que talvez nunca havia sentido antes: de querer estar lúcido.

Explica-se. Jonas nunca suportou sua realidade. Para falar a verdade, ele praticamente não a vivenciava há muito tempo. Sempre estava absorto em seus pensamentos e devaneios, olhando para o nada e imaginando tudo. Planejando cada momento seguinte com uma riqueza de detalhes impressionantes.

O que falar, o que pensar, qual próximo passo a dar. Tudo era meticulosamente imaginado para que acontecesse o mais perfeito possível. E aí as frustrações.

Certa vez ouviu de seu analista que "Deus ria de cada ação sua planejada". Isso o quebrava. A realidade era dura demais para Jonas, que não dispensava medidas paliativas para amenizar o seu sofrimento.

Embora fosse um profissional até exemplar, que não perdia dias de trabalho ou dava desculpas estapafúrdias para não ir trabalhar, alternava os períodos de trabalho com longas sessões contemplativas de álcool, tabaco outras coisas mais. Era o seu momento favorito.

Sentia o passar do dia de forma pesada. Seus pensamentos o castigavam. Só pensava na hora de chegar em casa, jogar-se no sofá, fazer a primeira dose de destilado e um cigarro. E só.

Duke Ellington na vitrola, a janela escancarada para a vista da cidade. Ali, enquanto o álcool começava a entrar em suas veias, sentia sua mente esvaziar aos poucos. O sax de Coltrane derretendo seus ouvidos. As luzes dos prédios acendendo lentamente, até a escuridão chegar. De repente não havia mais aqueles devaneios loucos a lhe torturar.

Após duas doses era outra pessoa: falante, articulado, criativo e, acima de tudo. Ativo. Sua passividade diante das imposições da vida lhe faziam deprimir. Desistia de tudo logo no início. Mas alcoolizado não. Topava tudo, iniciava planos loucos e ria como um desgraçado.

No outro dia a ressaca era dupla: a abstinência do álcool lhe corroendo e sua moral obsessiva condenando. A volta ao real era terrível. Acordar já se achando um merda, que terá outro dia bosta, aguardando apenas a hora de chegar em casa para tornar-se novamente o super-homem alcoolizado.

Mas naquele dia não. Ele acordou estranho. Aquela angústia que já inicia com o abrir dos olhos foi substituída por uma sensação de dever. De levantar logo, fazer um café forte, sentar em frente ao computador e escrever. Escrever sem parar até sentir seus dedos estalarem.

Resolver todos os impasses de sua vida. Retomar os projetos que faziam sentido, e que haviam sido abandonados. Ligar para a Rose - a única mulher que demonstrou interesse nele nos últimos anos, e cujo pensamento nela, torturava Jonas por não saber como abordá-la. Parecia uma luz, uma saída após um longo túnel escuro e frio. Quem sabe o sol nascia finalmente para Jonas, após anos de perdição.

Trilha Sonora: "Duke Ellington & John Coltrane (1963)"; "Silent Lucidity" - Queensryche

sexta-feira, 11 de junho de 2021

O Rato no Armário

Havia um rato em meu armário. Isso era somente um fato, que me conduziu à um dilema moral e existencial. 

A primeira vez que ele havia entrado, foi através de um espaço entre as portas, provavelmente atrás do saco de ração. Ao constatar a invasão e o surrupio da ração, retirei o saco do armário. Mas ainda havia como entrar lá. 

Em uma noite ouvi o larápio novamente dentro armário. E por uma curiosidade momentânea, resolvi testar o fechamento da porta - que eu acreditava não ser possível. Com um pequeno ajuste, as duas portas se fecharam. E o rato lá ficou. 

Passou-se dois dias e para a minha surpresa ouvi o rato novamente, roendo, de dentro do armário. Pensei que ele já havia conseguido escapar, afinal ratos sempre conseguem uma brecha, fazem um buraco e escapam. Mas não, o rato estava lá. 

Aí começou o meu dilema. Que logo se tornou um martírio. O rato conseguiria escapar do armário? O que fazer? Abrir as portas e tentar enfrentá-lo, sabendo que provavelmente ele fugiria rapidamente antes de eu conseguir golpeá-lo, abrindo a possibilidade de ele voltar a me atormentar? Deixá-lo ao desdém, passando fome e sede, propiciando uma morte lenta e agonizante?

No outro dia fiquei pensando o que fazer. No fundo eu queria que o rato saísse sozinho de lá. Seria a saída mais fácil: eu não o enfrentaria e nem saberia se ele iria voltar ou não. Talvez não, e tudo estaria resolvido. Mas se e ele voltasse? Ele já comeu a ração, encheu de fezes e urina por todo o armário. Ele era um inimigo a ser eliminado.

À noite, já um pouco embriagado, resolvi lhe dar uma chance. Abri as duas portas e saí por cerca de cinco minutos. Era sua única chance. Era como se Deus lhe estivesse dizendo: quer viver, saía agora. Voltei, fechei as portas. Passou-se alguns minutos, ouvi ele novamente roendo o fundo do armário, tentando sair.

Ele deveria estar cerca de quatro dias ali. Por quanto tempo um roedor sobrevive sem água e alimentação?  E o buraco no fundo, conseguiu fazer? Nos dias seguintes eu confesso que esqueci do rato. Não fui mais até o armário. Isso que fazemos quando temos um problema para resolver mas que não somos cobrados, ou que o próprio problema não se amplia ou manifesta-se silenciosamente.

Chegou o final de semana. E de repente me dei conta que talvez o meu problema ainda estivesse lá. Resolvido ou não. O rato estaria lá? Vivo ou morto? Escapou? Só havia uma forma de saber: abrir as portas e procurá-lo debaixo de diversos entulhos. Meu desejo era não encontrá-lo. Mas ele ainda estava lá.

Morto. Encolhido, quase em uma posição fetal, como estivesse procurado o modo mais confortável para esperar o seu destino final. E ali minha ficha caiu.

Covarde. Foi a primeira coisa que pensei e senti. O mais correto teria sido ter o enfrentado, tentado matá-lo e dar-lhe a chance de pelo ter uma morte digna. Ou de escapar, o que seria o mais provável. Seria um duelo com chances iguais. Mas não, preferi virar-lhe as costas, fingir que nada estava acontecendo, enquanto o pobre bicho definhou até a morte. Chegou-se ao resultado. Mas o pior possível.

Logo refleti que normalmente é o que fazemos diante de um problema que inicialmente não sabemos como solucioná-lo. Ou que temos medo.
Protelamos, prorrogamos, procrastinamos, esperando ele resolver-se sozinho, ou que alguém o resolva para nós. E fazemos isso achando ser o mais fácil e confortável.

No caso em tela, a saída mais correta, rápida e digna, era encará-lo de frente, ter ao menos tentado lutar e também ter dado chance ao inimigo, afinal ele fugir também poderia ser uma solução (ou não, ele poderia voltar).

Fiquei pensando em quantas vezes escolhi o caminho mais fácil e menos incomodativo. A tal "Zona de Conforto". De quantos duelos já fugi e o que talvez eu já perdi escolhendo apenas fechar os olhos e "esperar passar". Muitas dessas escolhas podem ter dado em nada, ou ter tido consequências ínfimas. Porém com certeza houveram tantas outras, que ao se escolher fugir do problema, acabei protelando um fim longo e agonizante.

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
(Preciso me Encontrar - Cartola)

domingo, 27 de setembro de 2020

Este texto não é sobre um adeus...

 "A única constante na vida é a mudança". Não sou adepto de frases motivacionais. Mas esta máxima resume a dinâmica da vida. Ela simplesmente deve acontecer, e para isso precisamos deixá-la seguir o seu rumo. 

Daqui há sete dias estarei retornado à Porto União. Essa semana foi intensa demais. Em meio à mudança de casa, uma pandemia em curso, dois filhos em quarentena, despedidas incompletas... 

Hoje deveria estar acontecendo uma festa daquelas no Bar do Vinil - cantinho que com tanto amor eu montei para ouvir meus discos, receber meus amigos e familiares e onde aconteceram festas legendárias! Mas devido a essa maldita pandemia não poderei me despedir da forma que mais gostaria: com festa, com todos ao redor da churrasqueira, risadas e alegria. A vida é uma festa! (assim descrevi um capítulo de minha dissertação).

Foram oito anos vivendo na querida Lapinha. Cidade que me acolheu de braços abertos quando cheguei. Lembro do primeiro passeio que fiz com a Hilda e o Floquinho (naquela época a nossa família tinha só três membros!), logo depois de terminada a nossa mudança. Era Festa de Santo Antônio e nos surpreendemos de estarmos morando ao lado da Praça onde ocorria.

O primeiro dia de trabalho no antigo Fórum. Eu sentia-me como um alienígena. Muitos se perguntavam o que um psicólogo estava fazendo ali. E foi ali que fui calorosamente recebido por muitos: a Gracia e sua família (que logo me convidou para a tradicional festa junina na chácara de seu pai), o Ivacir e sua simpatia contagiante, a Flavinha da qual a incubiram de me passar o que seria o trabalho (ela já era a referência de infância na Comarca). A Adri, a Daí, a Carla, o Fio, o Dr. Paulo (figura ímpar) e logo fiz um grande amigo, Rafael. Na sequencia vieram Ge, Juliana, Giovane, Dila. Todos amigos para uma vida (sinto não poder citar todos que fizeram parte dessa história).

Fui o primeiro psicólogo da Comarca e tive que começar do zero a construir um referencial e um norte para a atuação. Nesse início o pessoal do CREAS foram fundamentais: Liziane, Dika, João, Rosângela, Aracéli (e outros tantos) que me cederam uma sala para os atendimentos. Muito estudo, trabalho e quebrar a cabeça para fazer um novo serviço começar. Foram anos riquíssimos, experiências únicas.

Veio o Fórum novo. Lindo, duas salas enormes com ar condicionado (um luxo, como diria Dr. Paulo!). E eu sozinho ainda. Veio a Cristiane de Rio Negro, em um momento delicado de sua vida. Permuta com a Cintia e logo tínhamos uma equipe! (hoje completa com a chegada da Aline).

Nesse meio tempo organizei o fluxo de atendimento às vítima de violência sexual a partir do Protocolo de Contenda (que considero a grande realização do meu trabalho na Comarca da Lapa). Marilisa, Kelly, Pâmela, Ivan, Rubi, Cris e toda a Rede de Proteção de Contenda confiaram no meu trabalho de consultoria e hoje o Protocolo é Lei Municipal! 

Ao mesmo tempo que o trabalho foi se desenvolvendo e crescendo, fiz outros queridos amigos (Teko e Bel, Aleson, Nogueira, Alessandro, Wilian), colegas que passaram e se foram. Logo nossa família foi acolhida pelas famílias de nossos amigos . A Gabi nasceu e foi estudar no Educandário. Agora chegou o Luizinho. Ambos lapeanos. Criei raízes aqui das quais sempre retornarei para revê-las.

Essa é a minha terceira mudança. A primeira de Curitiba para União da Vitória foi simples e aliviante. Parti com meu Ford Ka e uma mala (cheia de ilusões, como na música dos Mutantes). Iniciei minha vida profissional lá e conheci a mulher de minha vida. 

Nossa segunda mudança não foi difícil. Já foi um caminhãozinho com algumas mobílias. Jovens, cheio de sonhos e planos, sem medo de viver a vida e construir uma história. E foi uma linda história aqui! Cheia de afeto, trabalho, alegrias e também perdas. Mas completa. Nossa família cresceu, nós envelhecemos um pouco e agora precisamos seguir.

Por isso essa terceira mudança não está sendo tão fácil. Em meio a uma pandemia, acelerada por questões de trabalho e com pequenas despedidas abruptas. Agora será um caminhão grande, quatro pessoas, dois cachorros e muita tralha! 

Gostaria de que essa mudança fosse com muitas festas, abraços, churrascos e muita cerveja! Mas terá que ser assim. O que não significa que não voltarei para fazer as festas após a pandemia (e arrumem lugar para isso meus amigos!).

Partiremos da querida Lapinha com os corações cheios de esperança e ao mesmo tempo já com muitas saudades de todos que aqui conhecemos e hoje amamos. Pessoas, histórias, lugares incríveis que aqui conhecemos. E voltaremos muitas vezes para nos reencontrar (assim como os quero em Porto União!).

Por isso que esse texto não é sobre um adeus, mas sobre um até logo... e muita gratidão!


Fuga nº. II (Os Mutantes)

Pôr-do-sol no Fórum da Lapa

Hoje eu vou fugir de casa
Vou levar a mala cheia de ilusão
Vou deixar alguma coisa velha
Esparramada toda pelo chão
Vou correr num automóvel enorme e forte
A sorte e a morte a esperar
Vultos altos e baixos
Que me assustavam só em olhar
Pra onde eu vou, ah
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou, venha também
Pra onde eu vou


terça-feira, 3 de setembro de 2019

A fuga - ou uma crônica da vida atual

Quando a vida liga o seu modo automático e o passar dos dias torna-se um continuum intercalado por pequenas quebras na rotina. Aquela sensação de estar apenas indo, deixando a vida te levar, sem saber ao certo onde irá dar. 
De repente, nesses intervalos, ter a sensação de que não há outro sentido além de tocar adiante. O tempo corre, e escorre pelas mãos. A fome de viver já não é mais a mesma, embora tente-se lutar todos os dias atrás dela. Onde ela estará?

Eu sei, é preciso matar um leão por dia. Começar tudo de novo a cada momento. Buscar saídas, modos de satisfação. O peso do mundo vai maltratando aos poucos, e tenta-se fugir (ou amenizá-lo) a todo momento.

Satisfações substitutivas, breves fugas da realidade. Tempo desperdiçado no mundo (imaginário) das redes sociais. Viver a vida dos outros. Sonhar com a vida dos outros, enquanto a sua é também emulada nos filtros de fotografia e stories previamente pensados.

Pequenos momentos de diversão planejada, retratados nos posts de viagem ou naquele restaurante estrelado do Tripadvisor  ganham o status de ápice da felicidade. É a recompensa por horas dedicadas e abdicadas devido ao trabalho e a vida frenética. Ilusões (des)necessárias.

O pior é olhar tudo isso e querer achar normal. Ver algum sentido além. E não há. Onde está a essência, se a existência à precede? Esse modo de existir seria o único possível agora?

Onde antes havia subterfúgios, fugas corporais e alguma contemplação, não há mais. Onde construir um novo sentido? A trilha sonora continua tocando, quase sempre presa ao passado. As vezes lutando para resignificar o agora.

Tempos sombrios. O mundo explode inflado pela irracionalidade e o culto à bestialidade. Nunca a ignorância ocupou tão bem um lugar de defesa frente ao absurdo. Acreditar em tudo o que se quer acreditar, menos no real.

As pessoas estão deprimidas por não conseguir (ou querer) sentir. Aí só resta fugir.

Trilha Sonora: 'Without You I'm Nothing (Álbum)" - Placebo.

domingo, 18 de agosto de 2019

Dia de Chuva

Resultado de imagem para sergio reis vol. 2"Nestes verso tão singelo
Minha bela, meu amor
Pra você quero contar
O meu sofrer e a minha dor
Eu sou quem nem o sabiá
Quando canta é só tristeza
Desde o gaio onde ele está

Nesta viola eu canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade"

(Tristeza do Jeca - Tonico e Tinoco)



Amanheceu chovendo na chácara. Poderia ser frustrante para uma criança de sete anos, em férias, solto em volta de toda aquela mata de Morretes. Mas eu adorava os dias de chuva. Aliás, desde então eu adoro dias de chuva. 

Quando eu ouvia as primeiras gotas durante a madrugada, eu já sabia. Seria um dia de chuva. Acordava com aquele cheiro gostoso de chuva, de mato molhado, das laranjeiras e limoeiros. A Vó já estava preparando algo para o almoço. Na vitrola tocava Sérgio Reis, Dilarmando Reis, Almir Sater e Cascatinha e Inhana.

Por um longo tempo eu ignorei essas músicas. Mas desde que a Vó se foi, e Morretes se perdeu, toda a vez que ouço cada acorde, é uma emoção que vem novamente à tona. À tarde a Vó ouvia rancheiras. De noite era Ópera. O Vô tinha uma boa definição para músicas mais introspectivas e reflexivas: "é música de chuva".

À tarde, depois do almoço, a Vó se sentava ao lado do som e ficava ouvindo e contemplando a música. Foi com ela e com o pai que eu aprendi a apreciar música. Não basta ligar qualquer música e deixar de fundo. É preciso parar, contemplar, apreciar cada acorde. E as músicas sertanejas que a Vó ouvia não podiam ter sentindo melhor. 

Era o mato molhado. O som alto e calmo com aquelas canções pantaneiras. Eram as crianças mais calmas e tranquilas. Era aquela infância livre e doce que não volta mais. Era dia de inventar uma brincadeira dentro de casa. Poderia ser uma nave intergalática feita em cima da cama. Um navio à deriva pelo oceano. Meus avós, os cachorros, o mato e nada mais....

Trilha Sonora: Sérgio Reis, Vol. 2.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

A Casinha Verde

Para Zenilda Felsinger,


Foi lá naquela casinha verde, situada no Jardim Bela Vista, em Porto União-SC, que eu conheci a Dona Ida. Eu lembro bem até hoje. Eu trazia a Hilda de volta para casa após nossos primeiros encontros. Desde a primeira vez ela perguntava: "quer descer, conhecer meus pais?". Na primeira vez eu recusei. Na segunda senti que aquela história ia desenrolar, e muito ainda. "Sim".

O Seu Hugo fez um interrogatório digno de um policial, como eu esperava que seria. Estava preocupado com quem a filha dele estava saindo. A Ida era só sorrisos, como sempre foi comigo. Foram umas duas horas de papo e chimarrão. E aquela altura, eu já me sentia membro da família.

Foi assim que ela sempre me tratou. Do primeiro minuto ao último. Como um filho, alguém muito próximo.

Eu não tinha como não gostar da Ida. Ela era uma outsider como eu. Alguém que simplesmente se negava a enquadrar-se em uma sociedade tão quadrada e pronta. Ela era do jeito que era. E não dava a mínima para quem não a aceitava.

A Casinha Verde era o tesouro da Dona Ida. Era lá que ela guardava tudo o que achava e considerava belo. Para aqueles que não conhecem o mundo de um acumulador, tudo aquilo que eles guardam tem um significado. Pode ser uma simples embalagem de um sorvete, uma caixa vazia de bombom. Para eles, esta é a lembrança física de algo muito bom e que eles gostariam de guardar como memória. O acumulador ergue barreiras de coisas para tentar ocultar uma dor. Uma dor que possivelmente você também não seria capaz de sentir.

Havia atrás de todos aqueles sorrisos lindos da Ida uma tristeza. Uma tristeza que talvez nós não sejamos capaz de desvendar. Algo que sua doçura e paz ocultavam. A dor do mundo.

Eu que nunca me achei melhor que ninguém, via uma identificação direta com a Ida. Ela sabia das coisas. Ela era muito inteligente, e quem não percebia isso não a conhecia. Toda a vez que a Hilda falava da sua dor de estar longe de sua família, vivendo comigo e Gabi na Lapa, a Ida sempre amenizava: "é a sua vida minha filha. A vida que você escolheu com o seu marido. Você está bem na Lapa".

Eu nunca pude perceber um pensamento negativo se quer na Ida. Ela vivia a vida intensamente, sem bloqueios, sem receios, sem qualquer pudor quanto ao que os outros pensavam sobre ela. E muitos não a compreendiam por ela ser assim. Eu a admirava. Era assim que eu queria ser. E foi assim que eu apreendi com ela como encarar a vida. Sem portas, sem medo de ser feliz.

Naquela tarde de dezembro de 2018, quando eu voltei à Casinha Verde depois de tanto tempo, eu desabei. Seu Hugo havia feito praticamente um santuário. Na parede vários quadros com fotos da Ida desde os 15 anos. Fotos da Cristina, da Hilda, pequenininhas. Momentos sagrados de uma família feliz. Eu vendo tudo aquilo, em tão pouco tempo após sua morte, tive que sair. E rodei pelo bairro do Santa Rosa por alguns minutos até me recompor.

Sim, foi naquela Casinha Verde que uma família construiu sua vida. Foi ali que eu tive a honra de ser aceito como membro dessa mesma família. Foi ali que Ida viveu seus últimos anos. E ali ela deixou sua marca, sua história, sua vida. Saudades.

Trilha Sonora: Black Rebel Motorcycle Club: "Lose Yourself", "Sweet Feeling".

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Esperanza

Eu sei, está sendo muito difícil. As nuvens negras insistem em aproximarem-se cada vez mais. O céu anda cinzento e o frio insiste em permanecer. A primavera chegou, mas as flores resistem em desabrochar. Uma angústia pesada paira no ar.

A mente insiste em vagar por cantos obscuros. O corpo parece pesar cada vez mais e querer padecer. Não há tempo para descansar. Apenas continuar andando. Eu sei, nós iremos seguir em frente. Sempre adiante. Mas em cada parada surge o medo de não conseguir seguir. De tudo apenas... acabar. Desabar.

O céu insiste em apresentar um norte. As estrelas querem nos guiar. E mais do que nunca devemos olhar para os céus. A realidade terrena está muito dura. Procuramos forças dentro de nós onde já não vislumbramos mais haver. E haverá.

A força está em nós e além. É preciso concentrar-se no presente e olhar para frente com esperança. A mente tenta nos enganar. O coração insiste em bater cada vez mais forte e procurar alívio. É de boas energias que precisamos nos encher. É preciso mais do que nunca apegar-se ao amor.

A vida segue seu rumo. Pode ser apenas mais um temporal. Pode ser a temporada de chuvas que insiste em não parar. Mas há de surgir um arco-íris no fim. E a certeza de que não podemos parar de lutar para, ao fim, contemplar suas cores novamente.

Pode parecer distante ver a luz no fim, mas sabemos que ela ainda está lá. E logo veremos o sol brilhar novamente. A caminhada é dura, e os momentos de tranquilidade estão cada vez mais escassos.

Agora precisamos fortalecemo-nos. Encher os corações de amor, esperança e boas energias. Dar tempo ao tempo, esperar e ter fé. Acima de tudo a fé, de que tudo irá acabar bem. Por mais de que tudo aponte para o contrário. Esperança.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Fitter Happier


Resultado de imagem para ok computerDias de ócio. Dias de perdição. O contato consigo mesmo é inevitável. Busca-se algo dentro e encontra-se o vazio. Deve haver mais, penso. Mas onde?

Onde foi que nos perdemos? A ciência iria salvar o mundo. Freud também pensou assim - arrependeu-se.

A busca por um lugar onde pudesse existir. Caber, situar-se, pertencer. Os versos de "Creep" caíram como uma bomba nos idos finais dos anos 90. Quem não é dessa geração não compreende o porque dessa música ser um hino daquela geração. "I don't belong here...".

Eu nunca pertenci a lugar algum. Não sei o que é o sentimento de ter uma origem e um referencial para onde ir. Sou o "Nowhere Man". A sociedade. Os grupos. As modas e os costumes. Nada me serviu como base identitária. Só a música. Pink Floyd e Radiohead dizem mais de mim do que qualquer livro ou teoria. Belchior e Lou Reed. Tim Maia e Kurt Cobain. Neles eu me vi, reconheci ali a mesma angústia incrustada e o horror ao lugar comum, ao establishment  e as estruturas de poder.

Eu não compreendo como a grande maioria consegue conceber uma certa normalidade, uma ordem natural das coisas. Não há! Só o caos e a brutalidade. Sim, fomos jogados nesse mundo já rodando. Não há sentido aqui e muito menos fora, no além ou outras dimensões. Elas não existem. 

"Fake plastic World". "Crushed like a bug on ground". A modernidade só foi capaz de criar isso. Ela não desenvolveu uma resposta adequada para a angústia. Criou semblantes. Simulacros. Falsos apoios vendidos como soluções mágicas. E isso não pára. 

"A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas"

Freud acertou em cheio o que seria a modernidade e ajuda indispensável das "medidas paliativas" (leia-se: drogas, sexo, consumismo, ideologias e religião). O mundo é absurdo. É surreal. Quem não vê isso pode ser feliz. Na alienação e na ignorância encontra-se a felicidade. Os poetas já haviam nos alertado.

Você vai ter uma infância bacana cheia de brinquedos e guloseimas. Vai crescer. Vai estudar, encontrar uma pessoa legal. Vai amar e casar. Ter filhos e cachorros. Um emprego estável. Almoço de domingo. Essa é a estória que nos ensinaram e quem não seguir está fadado à infelicidade. Quem não conseguir entrar nesse roteiro irá se foder. 

Independente da vida medíocre que você tem, tentando ser esse personagem preconcebido, você vai compartilhar sua pretensa vida feliz nas redes sociais e ganhar curtidas. Fotos de viagens legais. Pratos bacanas que você pode pagar. Vai se irritar com as críticas e desfazer amizades por diferenças políticas.  Vai seguir a nova dieta da moda. Vai postar tudo isso com uma selfie e uma frase de efeito de um autor conceituado que você nunca leu - e que provavelmente não é de autoria dele. Sim amiguinho, também estou nessa. 

Há saídas? Deve haver. Dentro de mim ou fora. Talvez no Outro. 


Fitter Happier - Radiohead

Em forma Mais feliz
Em forma, mais feliz, mais produtivo,
Confortável,
Sem beber demais,
Exercícios regulares na academia
(3 dias por semana)
Se relacionando melhor com seus sócios e empregados,
À vontade,
Comendo bem
(Nada de comidas de microondas e gorduras saturadas),
Um motorista mais paciente e melhor,
Um carro mais seguro
(Um bebê sorrindo no banco de trás),
Dormindo melhor
(Sem pesadelos),
Sem paranoia,
Cuidadoso com todos os animais
(Nunca lavando aranhas nos buracos das tomadas),
Mantendo contato com velhos amigos
(Desfrutar de uma bebida de vez em quando),
Frequentemente checar o crédito no banco (moral)(um buraco na parede),
Favores por favores,
Afeiçoado, mas não amando,
Ordens permanentes de caridade,
Aos domingos super-mercados "anéis viários"
(Não matar traças ou colocar água fervente em formigas),
Lavar o carro
(Também aos domingos),
Já sem medo do escuro ou das sombras do meio-dia
Nada tão ridiculamente adolescente e deseperado,
Nada tão infantil - em um ritmo melhor,
Mais devagar e calculado,
Sem chance de escapar,
Agora empregado de si mesmo,
Em causa (mas impotente),
Um membro da sociedade informado e habilitado
(pragmatismo, não idealismo),
Não vai chorar em público,
Menos chances de doenças,
Pneus que aderem no molhado
(Foto do bebê com cinto de segurança no banco traseiro),
Uma boa memória,
Ainda chora em um filme bom,
Ainda beija com saliva,
Não mais vazio e frenético como um gato amarrado a um pedaço de pau,
Que é levado à merda do inverno congelado
(A capacidade de rir de fraqueza),
Calmo,
Em forma,
Mais saudável e mais produtivo
Um porco em uma gaiola de antibióticos.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Amor e o Não-amor

Uma vida que não cabe outra vida
Ou que não permite mais outra
Talvez por tanto tempo só
Que não sabe mais reconhecer o outro

Solidão que doía e que
De tanto bater, esvaziou.
Ansiou uma vida nova
Apenas para preencher o que não se tinha

Acostumou com a dor só sua
Imaginava poder abrir uma porta
Que de tanto tempo fechada, travou
Desejo, sonho e reparação

Tentou amar quando já achava poder andar sozinha
E na agonia de querer ser amada
Não pôde amar
Pois amar é doar, não esperar ganhar

Do sonho que virou pesadelo
A constatação de que a ânsia e a solidão
fez do desejo de amor
O não-amor. Desilusão.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Minha Doce Morretes...

O fim pareceu tão natural. Era algo que nós estávamos tentando nos preparar há muito tempo. Nós sabíamos que Morretes logo ia desaparecer. Para sempre. E foi assim, como em um piscar de olhos, e Ela se foi...

Não, nossas lembranças não foram junto. Estão aqui mais vivas que nunca. Lembranças de uma infância perfeita. Sonhos que vivi por muito tempo com pessoas tão amadas e que não posso mais contar com elas. E ao mesmo tempo sei que não poderia mais ir lá sem ter elas ao meu lado.

Foi um pedaço de minha infância. Na verdade foi muito tempo de minha infância que se passou lá. Foi o inicio de minha adolescência. Foi a vida enquanto era apenas bela. E nada mais. Era o tempo de apenas vagar pelo mato, catar mexerica e conversar muito com o Vojão. Foi o tempo de apenas esperar o dia acabar, enquanto nos divertíamos muito.

Era o tempo de brincar muito. De ter cachorros o tempo todo ao nosso lado. Era a época de ir de férias e chorar na hora de voltar porque haviam passados quase 30 dias de curtição. Era a hora de largar a nossa doce liberdade e voltar a ser apenas estudantes...

O pão que assava próximo da meia-noite. As óperas, músicas rancheiras e todas as músicas que quiséssemos ouvir. Por que a Avó ouvia de tudo, e adorava que nós ficássemos com ela ouvindo música.

Eram os banhos de rio com o Kiko, Branquinho e Minhoca. Eram as conversas na plantação enquanto o Vô colhia as verduras. Eram os churrascos ao som de música gaúcha que detestávamos e que agora fazem tanta falta.

Era o Vô e a Vó esperando a gente chegar com pão fresco, churrasqueira acesa, botas de borracha para irmos à roça. Era a Tobata ligando e todos os cachorros subindo. Eram os banhos de rio. Era a doce alegria de apenas estar curtindo um fim de semana em Morretes com nossos avós...

Tudo isso faz tanta falta há tanto tempo. E eu sei que a Chácara ficou tanto tempo assim, largada, esperando um fim, um desfecho. E eu sabia que aquele tempo não ia voltar nunca mais. E que o velho sonho acabou. Mas agora que eu tenho certeza de que tudo se foi, e que nada voltará...

Bateu uma tristeza. Uma saudade absurda que nunca será vencida. De algo que eu sei que nunca irei viver de novo, nem ao menos recuperar... O sentimento que tive por tudo o que significou Morretes...

É o fim, eu sei, de toda uma época, de uma juventude. Mas suas lembranças estarão sempre aqui, em minha memória, nos sonhos juvenis que tive em Morretes. E nunca mais esquecerei tudo isso. Adeus minha doce Morretes...

A imagem pode conter: árvore, planta, atividades ao ar livre, natureza e água


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

2016: o ano que não quer acabar

Um ano que aconteceu de tudo. Estamos todos cansados, com a impressão de ter vivido tantas coisas em tão pouco tempo. O ano que não quer acabar porque parece haver a sensação que até o seu fim muitas surpresas ainda virão. 

De alguma forma senti que 2016 foi um ano histórico muito importante, seja para o bem ou para o mal. Alguns fatos e acontecimentos ocorridos irão repercutir muito ainda em um futuro próximo. Foi o ano que metade dos brasileiros descobriram a política, e acreditaram tê-la exercida plenamente, enquanto a outra metade, politizada há mais tempo, sentiu justamente o contrário: a demonstração de que nossa democracia é frágil e precária, ao ponto de ter permitido que os velhos barões voltassem ao poder de forma legal, mas não legítima. 

Foi um ano de perdas duríssimas na música. O mago Bowie, Prince, Cohen, George Michael, Sharon Jones, e Keith Emerson e Greg Lake do Emerson, Lake & Palmer. O pior é a constatação que a geração atual (e da última década) não contará com praticamente nenhum artista da envergadura dos que foram citados. 

Pessoalmente foi um ano cansativo e atribulado, mas pleno. Foi o ano que eu descobri o real sentido da palavra "pai". Aprendi mais de Psicologia Infantil do que em toda graduação e quatro anos atuando na Infância do Tribunal de Justiça.

Percebi que cuidar é muito mais do que acompanhar e tal vivência fez-me perceber o quanto é belo o desenvolvimento da criança, assim como a importância do papel que exerço ao estar tão próximo dela nesses momentos tão importantes. Sentir que a sua presença é fundamental, e que ela precisa tanto do pai nesse momento fez-me reestruturar toda minha vida e rotina em torno dela. E que ser pai não é questão de dom ou vocação. É, acima de tudo, entrega e renuncia ao desejo individual. 

No trabalho vi o número de processos aumentarem e ao mesmo tempo um reconhecimento maior de minha função no sistema jurídico, aumentando a responsabilidade. E foi o ano em que coordenei sozinho e coloquei em prática um projeto que vinha pesquisando e avaliando há alguns anos: um protocolo de atendimento interinstitucional para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. 

Foi um ano que esforcei-me em tocar todas essas atividades ao mesmo tempo. E que em alguns momentos levaram-me a pensar que não conseguiria dar conta de tudo - pelo menos com a qualidade que sempre exigi de mim mesmo - mas que novamente surpreendi-me por ter conseguido. 

Foi o primeiro ano que desejei profundamente: férias.

Trilha Sonora: "A Moon Shaped Pool" - Radiohead (melhor disco do ano!)


domingo, 23 de outubro de 2016

Vojão

Era uma manhã cinzenta. Aquela cena nunca mais sairia de minha mente. Meu avô descendo do carro. Amarelo. Seu semblante não era de dor. Resignação. Eu nunca o havia visto daquela maneira. Olhar perdido. O soldado finalmente havia batido em retirada.

Os dias iluminados de céu azul da Ucrânia haviam ficado para trás. E minha breve adolescência também. Good bye blue sky. "Os homens bons não morrem. Sobem aos céus para tornarem-se anjos". E o meu anjo se foi naquela tarde de 17 de setembro de 1998.

Ele era o modelo de homem. Meu referencial de ser humano. Era extremamente bondoso, mas ao mesmo tempo justo. Honesto e inteligente. Um tanto quanto ranzinza, e tinha um senso de humor implacável. Abriu-me as portas do mundo ao ensinar-me a ler. Valorizava o saber acima de tudo e sabia o quanto isso transformaria completamente minha vida. Foi meio pai, meio avô. Avôhai. Vojão.

O princípio da juventude havia sido brilhante e delicioso. O mundo se abria com toda sua força e esplendor. A vontade era de apenas viver intensamente, voar, navegar livre em um mar de liberdade e contemplação. Pela primeira vez sentia que podia abrir-me, sair do enclausuramento e encarar a vida de frente. E como em um golpe, ela veio logo com tudo. Seca, dura e incompreensível. Bateu forte e foi embora, levando junto os últimos sopros de inocência e serenidade. 

Os anos que se seguiram foram de escuridão. Incompreensão, revolta e dor. Mergulhado em tristeza, eu via o mundo a minha volta desaparecer e esfalecer-se. A louca felicidade juvenil deu lugar à angustia e encerramento em si mesmo. 

Eu não tinha mais referências. Procurava cegamente uma saída para o quê eu mesmo não conhecia. Apegava-me a quem meramente estendia uma mão, buscando não afundar. Não sei bem como eu sai dessa. Foi a fase mais obscura de minha vida. Foram anos tentando elaborar essa perda que até agora repercute e coloca-me a refletir sobre uma parte do passado que ainda não superei completamente. 

Passaram-se dezessete anos, e essa é a primeira vez que consigo escrever sobre o Seu João, ou melhor, sobre a sua perda. A dor é ainda grande, assim como são as doces lembranças dos anos incríveis que passei junto desse ser iluminado que participou ativamente de minha infância e adolescência, contribuindo para minha formação enquanto homem, ser humano, e agora, pai. Saudades!

Para meu anjo Vojão. Fly on little wing!

Trilha Sonora: "Little Wing" - Jimi Hendrix; "Sailing" - Rod Stewart; "Goodbye Blue Sky" e "Mother" - Pink Floyd; "My Friend of Misery" - Metallica.


Vojão

Era uma manhã cinzenta. Aquela cena nunca mais sairia de minha mente. Meu avô descendo do carro. Amarelo. Seu semblante não era de dor. Resignação. Eu nunca o havia visto daquela maneira. Olhar perdido. O soldado finalmente havia batido em retirada.

Os dias iluminados de céu azul da Ucrânia haviam ficado para trás. E minha breve adolescência também. Good bye blue sky. "Os homens bons não morrem. Sobem aos céus para tornarem-se anjos". E o meu anjo se foi naquela tarde de 17 de setembro de 1999.

Ele era o modelo de homem. Meu referencial de ser humano. Era extremamente bondoso, mas ao mesmo tempo justo. Honesto e inteligente. Um tanto quanto ranzinza, e tinha um senso de humor implacável. Abriu-me as portas do mundo ao ensinar-me a ler. Valorizava o saber acima de tudo e sabia o quanto isso transformaria completamente minha vida. Foi meio pai, meio avô. Avôhai. Vojão.

O princípio da juventude havia sido brilhante e delicioso. O mundo se abria com toda sua força e esplendor. A vontade era de apenas viver intensamente, voar, navegar livre em um mar de liberdade e contemplação. Pela primeira vez sentia que podia abrir-me, sair do enclausuramento e encarar a vida de frente. E como em um golpe, ela veio logo com tudo. Seca, dura e incompreensível. Bateu forte e foi embora, levando junto os últimos sopros de inocência e serenidade. 

Os anos que se seguiram foram de escuridão. Incompreensão, revolta e dor. Mergulhado em tristeza, eu via o mundo a minha volta desaparecer e esfalecer-se. A louca felicidade juvenil deu lugar à angustia e encerramento em si mesmo. 

Eu não tinha mais referências. Procurava cegamente uma saída para o quê eu mesmo não conhecia. Apegava-me a quem meramente estendia uma mão, buscando não afundar. Não sei bem como eu sai dessa. Foi a fase mais obscura de minha vida. Foram anos tentando elaborar essa perda que até agora repercute e coloca-me a refletir sobre uma parte do passado que ainda não superei completamente. 

Passaram-se dezessete anos, e essa é a primeira vez que consigo escrever sobre o Seu João, ou melhor, sobre a sua perda. A dor é ainda grande, assim como são as doces lembranças dos anos incríveis que passei junto desse ser iluminado que participou ativamente de minha infância e adolescência, contribuindo para minha formação enquanto homem, ser humano, e agora, pai. Saudades!

Para meu anjo Vojão. Fly on little wing!

Trilha Sonora: "Little Wing" - Jimi Hendrix; "Sailing" - Rod Stewart; "Goodbye Blue Sky" e "Mother" - Pink Floyd; "My Friend of Misery" - Metallica.


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Gabriela, 1º ano de vida!

 Um dia eu desejei viver uma vida plena. Isso na época significava ter meus desejos mais urgentes realizados. O tempo passou, e com isso eu fui percebendo que essa urgência era coisa da idade. A vida foi simplesmente acontecendo diante de mim. Para quem vivia um sonho dentro de outro sonho, fui surpreendido pelo simples acontecer da vida, e diante de uma grande oportunidade, apenas decidi viver aquele momento.

Foi quando me permiti encontrar-me com um anjo, que com toda sua simplicidade, alegria e vontade de viver, apresentou-me o mundo novamente. Agora muito mais colorido, vívido, e simples. Ela não exigiu nada de mim, apenas que fosse seu companheiro constante em uma jornada a dois.

Passaram-se alguns anos de uma convivência mágica e esse mesmo anjo resolveu presentear-me com seu maior tesouro. Uma filha. Um fruto de um amor vivido tão intensamente nos últimos anos.


Seu nascimento foi o momento mais intenso e importante de minha vida. Eu fui o primeiro a vê-la, com toda força e beleza que um nascimento provoca. Acabei-me em lágrimas, emoções, sonhos e tudo mais que aqueles segundos de intensa vivência proporcionaram-me. Era a minha filha, minha linda Gabriela nascendo diante de meus olhos. Meu mundo girou, mudou, transformou-se.



Então que me vi pai pela primeira vez. Eu quis tanto fazer parte daquilo, e participei de cada momento desde então. Faço questão de cuidá-la todas manhãs. É o momento só nosso!



E os dias foram passando depressa desde que ela chegou. E todo dia noto algo diferente nela. Como ela cresce, desenvolve-se, apreende tantas coisas novas. Seu sorriso enche-me de orgulho e felicidade. Cada passo, cada movimento novo, aprendizagem. Cada interação e pequena demonstração de afeto. Tudo enche nossos corações de alegria!




Agora nossa Gabi completou um ano. E as lembranças dos momentos de espera por sua chegada, de como nos preparamos para aquilo, dos minutos antes do parto no hospital, quando eu só pensava em apoiar e proteger a Hilda, surgem em minha mente em flashes, e as emoções voltam com toda a  força.


Nossas famílias se encheram de vida e luz. Todos vibraram tanto com sua chegada, e encantaram-se com sua graça e alegria em viver. 


Foi um ano de intensas mudanças, de readaptação e de reestruturar toda nossa vida. E foi um período de muita aprendizagem, de entrega e muita paciência. Você, nosso anjinho, exige muito de nós, mas o prazer e o amor que nos proporciona é maior que tudo, e cada dia sentimo-nos mais apaixonados e felizes por você estar aqui com nós. Parabéns pequena Gabiela, razão maior de nossas vidas!












"When I need to get home, you're my guiding light, you're my guiding light" - Foy Vance, "Guiding Light"


domingo, 15 de maio de 2016

Just another day in paradise...

Eu queria, ao menos, só mais uma vez, voltar naquela época. Chegar na chácara, com todos os cachorros nos recebendo, e a Belina entrando por aquela estrada estreita, quase encalhando, e o Vô e a Vó nos esperando, com aqueles olhos brilhando…

A grama cortada, o fogão aceso, o pão descansando para entrar ao forno à meia-noite…Era o famoso “Pão da Meia-noite”.

No outro dia, após o café, era aquela farra. Nós procurando botas no galpão, cachorrada esperta para sair. Vô ligava a Tobata, pegava todo mundo, e bora para a roça. Aquela estradinha quase fechada, cheia de sonhos e imagens.

Depois de pegar pepinos, mandiocas, chuchus, todos iam para o rio. Lá os cachorros faziam a festa, e se estivesse calor entravamos juntos na água fria da serra. A mãe ficava brava. O Kiko e o Urco voltavam sujos, molhados, cheios de terra.

Na volta, o fogo da churrasqueira já estava aceso. Era hora de “queimar osso”, como Vô João dizia. Enquanto nós brincávamos, a carne ia assando. Almoçávamos, brincávamos mais um pouco, e era hora de ir embora. A Vó ficava muito triste. Ela ficava parada ao lado da casa e esperava o carro do pai passar e buzinar. Era a despedida. Talvez o pai não saiba até hoje o quanto era importante para a Vó ouvir aquela buzina!

Eu sei, por que eu fiquei algumas vezes de férias com a Vó e ouvia a buzinada melancólica da Belina 87. Era um som que surgia alto e sumia no mato, enquanto o silêncio ia estabelecendo-se no local. E então a Vó ligava sua vitrola, e Cascatinha e Inhana tocava, com aquela doce melancolia.

No carro do pai, enquanto voltávamos, tocava Phill Collins, naquele velho toca-fitas Bosch. E quando o pai acabava de virar a curva, buzinando, era o sinal de que o fim de semana havia acabado. Era melancólico. E na chácara, a Vó somente esperava, o próximo fim de semana chegar...

Do you remember?


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A vida não começa segunda-feira

Mais um dia vazio. Perdido entre a inércia e os devaneios. Essa sensação esmagadora de que não é possível produzir nada - e pior, que sem produzir, sou nada. 

Só rezar para que o dia logo acabe. Isso não é vida. Saber disso, reproduzir isso constantemente - é uma tortura. Não buscar saída por não se querer sair, apenas ficar no lodo da perdição e deixar-se afundar. Mas não afunda. Pelo menos o suficiente para interromper toda essa merda. 

Eu sei, foi apenas mais um dia ruim, como todas as segundas-feiras que se optou por não viver. A vida.

sábado, 26 de setembro de 2015

Ten Years After!


Dez anos passaram-se desde a primeira postagem desse blog. Eu nunca esperava que essa brincadeira fosse tão longe. Os anos se passaram e o tom das publicações foi mudando. Foi seguindo a possível maturação de seu autor. Mas não foi isso que aconteceu. A escrita talvez piorou, mas a realidade que dava base para a escrita transformou-se. E muito. 
O mundo se revelou bem mais colorido desde então. No início era pintado em tons de cinza, imagens e sons de um holocausto. Aos poucos a vida se transformou e foi mostrando a suas matizes. Foi um longo processo, apresentado aqui em contos esporádicos e irregulares. Ninguém aguentou acompanhá-lo até hoje. Mas acima de tudo, eles sempre foram sinceros. Só houve escritos quando se achou serem necessários. A vida de ninguém merece mais espaço que isso. Mas todos os sonhos, desejos, frustrações e acontecimentos significativos foram relatados, na medida do possível que seu protagonista conseguia exprimir e registrar o que lhe acontecia. Em sua mente, em sua alma, no que era possível significar.

E tenho orgulho de tudo isso. Ser escritor é ainda um plano a longo prazo. Não  posso dizer que já sou ou fui. Apenas que tentei, e quero muito ainda ser. Foram muitos desabafos desde então. Relatos repletos de metáforas. Gritos na escuridão. Seguidos por notícias de que tudo estava bem. Estorias e histórias sobre alguém e seus cúmplices. Está tudo ai, documentado e vivo.

Eu fui e transformei-me em tantos personagens. Faces múltiplas de um ser apenas. Um mundo subjetivo e complexo foi mostrado aos poucos nesses anos todos. Hoje vejo que a ideia de um diário seria ridícula. Aqui a intenção nunca foi documentar. Foi apenas apresentar o que foi possível e refletido. Nunca mais do mesmo.

Resta apenas um obrigado àqueles que ainda o leem. "Contos Neuróticos" sobrevive, enquanto ainda haver neurose na mente criativa desse ser que o alimenta.


sábado, 1 de agosto de 2015

Esperando Gabi

Passaram-se rapidamente nove meses de uma longa espera. E agora sinto-me tao perto de um sonho, talvez o mais lindo que eu já havia sonhado. A chegada de você, pequena Gabi, está muito próxima. Muito provavelmente daqui umas 36 horas eu irei finalmente conhecê-la.

Esses meses foram mágicos. Nossa vida se transformou, e nosso mundo girou, e girou muitas vezes. E diversas certezas surgiram nesse intervalo. A certeza de que o nosso amor só cresceu e o vínculo fortaleceu-se. Sabia Gabriela, como na música da Cassia Eller, eu andava "por ai querendo te encontrar". Imaginava seu rosto em cada menina com traços que eu pensava serem parecidos com os seus.

Passamos semanas e semanas planejando tudo, pensando em cada detalhe para podermos receber você, minha filha, da melhor forma possível. Nossas famílias e amigos acompanharam tudo de perto. Participaram de cada momento, ajudaram como puderam em todas as ocasiões. E estão mais ansiosos que nós para a sua chegada!

Seu chá-de-bebê foi lindo. Sua mãe e as meninas prepararam uma decoração fantástica. Eu, seu avô e o tio Junior fizemos uma cerveja especial com seu nome e cujo rótulo fez muito sucesso. Seu quartinho está decorado e pronto há meses. Tudo rosa, porque sua mãe é muito vaidosa. Falando sobre sua mãe, saiba desde já que ela já nutre um amor imenso por ti, e será com certeza a mãe mais carinhosa e dedicada que já conheci.

E na noite de hoje, tão bela e iluminada por uma lua cheia e brilhante, eu senti o futuro abrir-se novamente, com possibilidades infinitas de felicidade e vida plena. Tudo isso porque você está chegando minha pequena, e o mundo jamais será o mesmo a partir de sua estréia!


Just Like Heaven - The Cure


Você é igualzinha a um sonho
Igualzinha a um sonho

A luz do dia me despertou
Eu devo ter dormido por dias
E movendo os lábios para aspirar seu nome
Eu abri meus olhos
Eu me encontro sozinho, sozinho, sozinho
Acima de um mar revolto
Que roubou a única garota que eu amei
E a afogou dentro de mim

Você, suave e única
Você, perdida e sozinha
Você, igualzinha ao paraíso

domingo, 10 de maio de 2015

Thirty-Three


Dedico este texto à mulher de meus sonhos e minha vida, Hildinha, e a minha pequena que está quase chegando, Gabriela.


Trinta e três anos. Uma vida. É o que eu posso afirmar sobre esse tempo que passou. Há alguns anos atrás eu não gostava de comemorar meu aniversário. Era um dia triste. Hoje eu entendo a razão disso. Eu sentia não viver uma vida plena. Não encontrava motivos para comemorar. 

Thirty-Three" é a minha música preferida do Smashing Pumpkins. Marcou um período significativo em minha vida. Justamente na época em que uma sombra tomou conta de mim e os aniversários não tinham graça. Era como se naquele período não houvesse vida. Apenas recortes isolados de felicidade  fugaz permeados por muita angústia. 

Talvez a vida em sua essência seja angústia pura. Mas esta mesma angústia, quando não paralisante, é a base de onde se pode construir caminhos infinitos de felicidade. Basta começar. Às vezes, basta apenas uma chance. Foi o que eu fiz. Eu só precisava de uma única chance para poder ser feliz. E ela veio, no fatídico dia em que eu deixei tudo para trás para viver uma aventura. E eu não tinha a mínima ideia onde aquilo ia me levar. Eu estava indo para "Darklands". E no fim do túnel encontrei uma luz.

A partir daí a vida aconteceu. Muito. Um anjo desses que aparecem somente de vez em quando na Terra surgiu e estendeu sua mão. E logo ofereceu seu coração e todo um universo de possibilidades de ser feliz. Bastava eu apenas aceitar. E demorei um pouco para perceber isso. E aceitei. Hoje estou aqui, ouvindo Thirty-Three e resignificando toda a minha vida. 

Hoje senti-me plenamente feliz e realizado. Um filme passou em minha mente com imagens dessa história que acabo de lhes contar. Fiquei emocionado, pois a vida em cinco anos foi maior que nos vinte e oito anteriores. Não que não valeu a pena, pelo contrário, permitiu agora que eu seja quem sou e em um momento que posso viver tudo isso de forma aberta e espontânea. Sem sombras, sem medos. 

Aquele anjo, não contente com a sua bondade, resolveu presentear-me com uma dádiva. Um novo anjo que irá pintar minha vida com cores fantásticas. Surreais. Irá transformar nossas vidas para sempre. E já mudou. Acordo todos os dias pensando nela. Como será, o que farei. Serei suficientemente bom para ela? Só posso afirmar que dedicarei todos os meus esforços em fazê-las felizes.  Aos trinta e três anos, elas são a minha vida. E agora finalmente plena.